Rio 2065, uma distopia não muito distante - Le Monde Diplomatique

TEATRO

Rio 2065, uma distopia não muito distante

por Cristiana Lobo
28 de fevereiro de 2019
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No mundo todo, há um recrudescimento do conservadorismo e, o que é assustador, do fascismo. Contudo no Brasil e, especialmente no Rio de Janeiro, a situação é ainda mais grave. Porque os políticos atualmente no poder estão associados às forças armadas, à igreja evangélica, às milícias e ao crime organizado.

O diretor teatral e dramaturgo Ivan Sugahara é preciso quando comenta o contexto atual: “O futuro que conseguimos imaginar agora é bem diferente do futuro que imaginamos há cinco anos. E ele não é dos melhores.”

Com esta visão, uma semana após as últimas eleições, a premiada companhia de teatro Os Dezequilibrados iniciou os ensaios da peça “Rio 2065”, em cartaz atualmente no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

O espetáculo, com texto de Pedro Brício, celebra os vinte anos da companhia. “A peça é uma ficção científica. E a dificuldade de explorar no teatro um gênero tipicamente cinematográfico é uma das chaves da encenação. Procuramos fazer uma apropriação criativa da ficção científica, numa linguagem que remete às chanchadas e ao tropicalismo.”

A montagem usa a linguagem contemporânea, bem-humorada e repleta de referências ao universo do cinema, pela qual o diretor ficou conhecido,  para fazer uma “crônica contundente da história do Brasil e da atualidade”, nas suas palavras.

Ivan já encenou mais de 50 peças nesses 20 anos de carreira. Recebeu o Prêmio Cesgranrio de Melhor Espetáculo por “Fala comigo como a chuva e me deixa ouvir” (2014), de Tennessee Williams, e os Prêmios Qualidade Brasil de Melhor Diretor e Espetáculo por “Notícias Cariocas” (2004), montagem da Cia. dos Atores que co-dirigiu com Enrique Diaz. Foi três vezes indicado ao Prêmio Shell de Melhor Direção e recebeu três indicações aos Prêmios Qualidade Brasil de Melhor Diretor e Melhor Espetáculo.

Um apaixonado pelo teatro, nesta entrevista ele fala sobre seu processo criativo, analisa a situação da cultura e da arte e política no país.

Como foi o processo de concepção do espetáculo ‘Rio 2065’? 

Pedro Brício é um dos dramaturgos contemporâneos brasileiros que eu mais admiro. Ele também é do Rio de Janeiro e já nos conhecemos há bastante tempo. Somos da mesma geração, crescemos assistindo os trabalhos um do outro e há muito nutríamos essa vontade de fazer algo junto. Há cerca de cinco anos ele me procurou e disse que havia tido a ideia de uma peça que era a cara dos Dezequilibrados. Contei a ideia para o grupo e todos adoraram. Em poucas palavras, trata-se de uma projeção do Rio de Janeiro daqui a cinquenta anos. Ele tinha razão, de fato o projeto é a cara da nossa companhia, tanto que acabamos o escolhendo para comemorar nossos vinte anos. Contudo, da ideia inicial do Pedro até a estreia do espetáculo alguns anos se passaram. E de lá pra cá muita coisa mudou. Para pior.

Penso que estamos vivendo um dos momentos mais críticos da nossa história. No mundo todo, há um recrudescimento do conservadorismo e, o que é assustador, do fascismo. Contudo no Brasil e, especialmente no Rio de Janeiro, a situação é ainda mais grave. Porque os políticos atualmente no poder estão associados às forças armadas, à igreja evangélica, às milícias e ao crime organizado. E foram eleitos. Ou seja, é uma situação bem diferente do que ocorreu no golpe militar que houve em 1964 no Brasil. Não que naquela ocasião uma grande parcela da população não tenha aplaudido a marcha passar. Mas desta vez a maioria do povo brasileiro votou e chancelou um projeto de poder que enaltece a violência, o ódio e a intolerância, além do Estado mínimo e do achatamento do “welfare state”.

Começamos a ensaiar “Rio 2065” exatamente uma semana após as últimas eleições, de modo que a necessidade de responder a essa mudança de contexto alterou bastante o projeto inicial. O futuro que conseguimos imaginar agora é bem diferente do futuro que imaginamos há cinco anos. E ele não é dos melhores.

 

Na história, a cidade de 2065 foi quase toda vendida para os estrangeiros mas permaneceu como destino turístico de entretenimento e carnaval, com o parque ‘Rio Fun World’. Estamos caminhando nesta direção?

Evidentemente trabalhamos com uma metáfora. Não acredito que cidades e bairros inteiros serão vendidos, como acontece na peça. Mas o governo atual já deixou claro que pretende privatizar tudo e mais um pouco. Inclusive, em apenas dois meses de administração, já começou esse processo num ritmo mais acelerado do que o mais crítico de seus opositores poderia imaginar. E está vendendo a preço de banana. Estamos de volta à República das Bananas. É isso que o nosso espetáculo procura retratar.

Com relação ao “Rio Fun World”, o Rio segue se afirmando com um balneário turístico. Uma cidade linda, privilegiada pela natureza, onde os turistas ficam de queixo caído. Mas ao lado de nossas praias, matas e mulatas, há favelas e mais favelas que só fazem aumentar, em que as pessoas passam fome e morrem diariamente, seja pela própria fome, pelas péssimas condições sanitárias, pela precariedade da saúde pública ou pela bala perdida (ou achada) do traficante, da milícia ou da polícia – sendo que esta última opção é bem mais frequente. Nosso abismo social se acentua cada vez mais.

Um exemplo perfeito do “Rio Fun World” é o muro construído na linha vermelha na altura do Complexo da Maré. Atletas, dirigentes, governantes e turistas de todo o mundo vieram prestigiar as Olimpíadas do Rio. Todos desembarcaram no aeroporto do Galeão. Para chegar à zona nobre da cidade precisavam passar pela linha vermelha, que atravessa um dos maiores complexos de favelas do Rio. E a Maré foi providencialmente tapada com um muro colorido por lindas pinturas.

 

Em dois outros momentos do texto, neste Rio do futuro, fala-se na venda do Theatro Municipal e uma personagem ironiza a dificuldade de se viver de teatro no Brasil. Trabalhar com teatro sempre foi difícil. Você acha que a tendência é piorar? 

Infelizmente sim. Durante os quatorze de governo do PT a situação para a cultura melhorou muito. É claro que ainda estava muito longe do ideal, houve uma série de problemas que são inerentes quando se tenta criar algo no meio do deserto. Mas pela primeira vez na história do nosso país houve, de fato, o estabelecimento de uma política cultural. E, desde o golpe parlamentar que levou ao impeachment da presidenta Dilma Roussef em 2016, o governo de Temer e agora o de Bolsonaro vem sistematicamente desmontando tudo que foi criado.

Paralelamente a esse desmonte, vem sendo promovida uma campanha de ódio contra os artistas, baseada em calúnias. Além de acusações de cunho moralista – fruto direto da perigosa evangelização da política – associando os artistas à pornografia, pedofilia, etc, pesa a acusação de que seríamos todos “mamadores da Lei Rouanet”, enriquecendo às custas do dinheiro público. Não poderia haver inverdade maior. É sabido que a Lei Rouanet tem muitas falhas, mas dentre elas não está a possibilidade de enriquecer artistas. Pode até ter enriquecido um ou outro produtor, mas duvido que tenha dado fortuna a um artista sequer. Eu, por exemplo, que tenho mais de cinquenta peças no currículo, pouquíssimas vezes fui contemplado pela lei e tenho sérias críticas a ela. Mas é um instrumento de política cultural importante. Que precisa ser melhorado ao invés de demonizado. A questão toda é que a arte ameaça um sistema totalitarista. E uma forma de eficaz de erradicar essa ameaça é, literalmente, demonizá-la.

Mas vamos resistir. E seguir. Os artistas sofrem perseguição desde os primórdios dos tempos, embora sua arte seja apreciada por todos e traga uma luz necessária para a sociedade. Aliás, é justamente por isso a perseguição.

A situação da cultura já piorou muito e vai piorar ainda mais. Mas como diz o Zé Celso, “eles ainda vão precisar da nossa imagem de exército de Brancaleone arrebentado”.

 

Você já pensou em outro caminho possível, além do teatro?

Claro. A dúvida está sempre rondando qualquer ser humano. Mas todos os outros caminhos que já pensei estão ligados à arte. Gostaria, por exemplo, de fazer cinema algum dia. São coisas, no entanto, que só passam pela minha cabeça entre uma peça e outra. Acontece que, invariavelmente, acabo entrando em um novo processo de ensaio que me absorve totalmente. E, dentro da sala de ensaio, em absolutamente todos os dias que passei dentro de uma, encontro um sentido pra minha vida que nunca encontrei em outro lugar.

 

O texto brinca com estereótipos de estrangeiros, há o casal de portugueses, um turista alemão e a personagem Catherine de Bregançon – uma francesa que mora no Brasil. Temos essa diversidade na nossa história. Você acha que lidamos bem com esta origem intercultural?

Sim, esta é a grande riqueza do povo brasileiro. O conceito mais interessante e potente já produzido pela nossa cultura é a antropofagia, que é essa “deglutição” de todas as culturas que nos colonizaram, roubaram e influenciaram, misturada com as culturas dos povos que foram escravizados, exterminados e oprimidos, como os índios e os negros. “Rio 2065” recorre justamente à antropofagia para abordar esse momento devastador do nosso país.

A peça é uma ficção científica. E a dificuldade de explorar no teatro um gênero tipicamente cinematográfico é uma das chaves da encenação. Procuramos fazer uma apropriação criativa da ficção científica, numa linguagem que remete às chanchadas e ao tropicalismo. Para além do humor paródico, trata-se de colocar em cena nossas fraquezas e defeitos, como faz toda boa comédia. Por isso a nossa ficção científica fracassa. Porque aqui as formas do passado não se apagam facilmente. Nesse sentido, a montagem é uma crônica contundente da história do Brasil e da atualidade. Retrata uma espécie de futuro absurdo com fortes traços da época colonial e dos dias de hoje.

 

A peça também brinca com o universo simbólico dos filmes de ficção científica e tem personagens como a Louise, uma sedutora  policial replicante (interpretada pela atriz Letícia Isnard). Quais foram as suas principais referências na criação desta montagem?

Além das referências antropofágicas – a principal destas o “Rei da Vela”, de fato “deglutimos” vários filmes de ficção científica, mas de naturezas distintas – já anunciando a mistura de estilos que caracteriza o espetáculo. Usamos desde blockbusters pops como “Guerra nas Estrelas” e cults distópicos como “Blade Runner” até filmes B como “Barbarella”. Destes, a maior referência é “Blade Runner”. A dupla de personagens – o policial Machado (José Karini) e a replicante Louise – que conduz a trama é diretamente inspirada nos personagens centrais de “Blade Runner”.

 

A trilha tem músicas originais e dois sambas inéditos de Felipe Ariani. Como foi a sua participação na criação da trilha? 

Intensa, como na criação dos demais elementos da peça. Afinal, é fundamental que a música, a iluminação, a cenografia, o figurino, o vídeo, etc, estejam alinhadas com a direção. Em todos os meus processos acompanho de perto a criação dos demais profissionais que trabalham no espetáculo. Ao mesmo tempo, acho vital que eles tenham autonomia em suas criações. Trata-se de uma parceria, mas é importante que tudo esteja a serviço do espetáculo.

Este já é o quarto trabalho que faço em parceria com o Felipe. Gosto muito da trilha que ele criou para essa peça. Ele entendeu perfeitamente a proposta “antropofágica”, misturando diversos estilos musicais de modo irreverente, além de ter criado dois sambas espetaculares.

A trama converge para o carnaval carioca de 2065, que celebra os 500 anos da fundação da cidade do Rio. Dentre os seus diversos núcleos de personagens, há duas escolas de samba favoritas ao título. Por isso a criação dos sambas de cada escola era importantíssima para o espetáculo. E Felipe correspondeu magistralmente ao desafio. Compôs um maravilhoso “tecno-samba-futurista”, que na trama é assinado pelo carnavalesco vanguardista Johnny Apoteose (Alcemar Vieira), e um lindo samba-enredo clássico, assinado pelo carnavalesco tradicionalista Clóvis Bandeira (Jorge Maya).

 

A maioria das peças da companhia faz referências ao cinema. Como o cinema influencia o seu processo criativo?

De maneira decisiva. Sou cinéfilo desde criança. Passei a vida assistindo muitos filmes e cheguei a cursar durante dois anos a faculdade de cinema da UFF. Portanto a linguagem audiovisual é algo entranhado na minha formação como pessoa e como artista. É nesse sentido que a pesquisa de linguagem dos Dezequilibrados e das minhas peças em geral tem um diálogo intenso com o cinema. A utilização de elementos audiovisuais – televisões, computadores, projeções, videogames, etc – e a teatralização de procedimentos cinematográficos – como a edição, o rewind, a voz em off, o deslocamento de câmera e a adoção de diferenciados pontos de vista, além da referência a filmes ou a planos clássicos, são recursos constantes nos meus espetáculos.

Essa utilização se deu de modo natural. No início da minha carreira, não pensei: “vou fazer cinema no teatro”. Como se trata de algo inerente ao meu jeito de pensar e de criar, eu fui desenvolvendo isso organicamente. No entanto, é evidente que houve um momento em que percebi que isso estava acontecendo e a pesquisa passou a se dar também de forma consciente e direcionada.

 

Como é a sua forma de se relacionar com os atores durante a construção de uma peça? Até que ponto você interfere no trabalho criativo do ator?

Muito e pouco. Nada é mais fundamental no teatro do que o ator. Eu ainda era jovem quando recebi minha primeira indicação a prêmio como diretor. E houve uma entrevista com todos os diretores que estavam indicados àquele prêmio. Tivemos que responder às mesmas perguntas e todas foram publicadas no jornal. Uma das perguntas era algo do tipo “o que é vital no teatro?”. Minha resposta era a de um jovem diretor, longa e um tanto pretensiosa. Aderbal Freire Filho concorria ao mesmo prêmio (merecidamente o ganhou), e respondeu: “Atores, atores, atores.” Foi uma lição que eu nunca esqueci. Ali finalmente entendi que a essência do teatro é o trabalho do ator.

Nesse sentido, a parte mais importante do trabalho de um diretor é a direção dos atores. Mas não acredito em atores-marionetes, que simplesmente executam o que lhes é ordenado. Penso que o trabalho do diretor é observar o elenco trabalhando e ajudar cada ator a puxar, ele mesmo, os fios que, intuitivamente, lança nos ensaios.

 

Ivan Sugahara, diretor da peça Rio:2065

Você é filho de um pai brasileiro e uma mãe nissei (filha de japoneses nascida no Brasil). Você percebe alguma influência do jeito de ser/da cultura oriental na sua forma de trabalhar e se relacionar com o grupo?

Percebo. Não sou um grande conhecedor da cultura oriental. Nunca fui ao Oriente e nem estudei a sua cultura a fundo. Sou completamente ocidental. Entretanto, tenho olhos puxados, meu sobrenome é Sugahara e passei a infância ouvindo meus avós falando japonês. Com o tempo, fui percebendo que certas facetas da minha personalidade eram bastante diversas das dos meus amiguinhos de olhos arredondados. E fui entendendo que essas facetas estavam ligadas a essa ancestralidade. São coisas que me constituem e que aprendi a gostar e valorizar. E se expressam em todas minhas relações, sejam pessoais ou de trabalho, e em tudo que eu faço. É mesmo um jeito específico de ser e pensar. Ao mesmo tempo, também tenho o gen ocidental. E aqui voltamos para essa rica mistura que caracteriza o povo e a cultura brasileira.

 

Dirigir a peça ‘Rio 2065’  te fez pensar no seu próprio futuro ou mesmo repensar o presente? Influenciou alguma decisão ou outro projeto atual?

Toda peça me faz repensar a vida e o mundo. Esse é o sentido do fazer artístico. E também da arte em si. Toda obra de arte faz repensar a vida e o mundo. Ao menos deveria. No processo de “Rio 2065” tivemos que lidar com um leque de emoções muito amplo. Uma peça comemorativa de vinte anos dá uma satisfação e um orgulho imenso. E necessariamente te faz olhar pra trás, numa avaliação do que deu certo, do que deu errado, do que se perdeu, do que se ganhou, do que piorou, do que melhorou. Mas também te faz olhar pra frente, pro que pode acontecer nos próximos vinte anos. A partir daí nos impusemos um desafio mil vezes maior. Imaginar um carnaval de 2065 comemorando quinhentos anos da cidade maravilhosa. Ou seja, fizemos, de quebra, o exercício de avaliar o passado e o futuro do Rio e do país. E a alegria da comemoração da história do grupo teve que conviver com o profundo medo que sentimos em relação ao presente e ao futuro do Brasil. Um Brasil que resolveu andar a passos largos para o passado.

 

Quais são os próximos planos?              

Resistir e fazer teatro até morrer. Ou até a próxima dúvida.

Cristiana Lobo é jornalista



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