Sandra Godinho fala sobre o processo criativo de ‘Inventário de um silêncio’, obra vencedora do 1º Prêmio Escreviventes
Premiada no Brasil e com obras traduzidas para o exterior, a escritora lança romance que investiga o desaparecimento político, a luta sindical e os impactos da repressão na Amazônia
Vencedor do 1º Prêmio Escreviventes, Inventário de um silêncio (Editora Litteralux/Selo Auroras) chega ao mercado literário dedicado a revisitar a memória da ditadura militar sob uma perspectiva ainda pouco explorada pela ficção: a repressão exercida no interior das empresas e seus impactos sobre trabalhadores, famílias e movimentos sindicais. Na obra, a autora Sandra Godinho conduz o leitor por uma narrativa que entrelaça memória, culpa, afetos e violência política, tendo a Amazônia como cenário central.
A trama acompanha Murilo, um engenheiro que acredita reencontrar, doze anos após seu desaparecimento, o irmão Joel, sindicalista perseguido durante a ditadura militar. A partir desse encontro inesperado, o protagonista inicia uma investigação sobre o passado da própria família e sobre os mecanismos de violência que se escondiam nos escritórios, nas promoções, nos relatórios e nos pactos de silêncio de uma refinaria de petróleo. Entre Manaus, Rio de Janeiro e Salvador, o romance articula temas como petróleo, luta sindical, desaparecimento político, conflitos familiares e memória histórica.
A motivação para escrever Inventário de um silêncio surgiu após Sandra Godinho ouvir um relato sobre torturas ocorridas no interior de uma refinaria durante o regime militar. A partir dessa informação, a autora realizou meses de pesquisa histórica antes de iniciar a escrita do romance. Para ela, a literatura é também um instrumento de preservação da memória coletiva e de enfrentamento dos silêncios impostos pela história.
Sandra nasceu em São Paulo, em 1960, e vive em Manaus há 23 anos. Mestre em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é autora de 16 livros entre romances e coletâneas de contos. Ao longo da carreira, recebeu importantes reconhecimentos, como o Prêmio Cidade de Manaus (2019, 2020 e 2021), o Prêmio Carolina Maria de Jesus (2023), o Prêmio Escreviventes (2025), o II Prêmio Frauta de Barro (2026) e Menção Honrosa no Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019). Também foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (2021) e do Prêmio LeYa (2021, 2022 e 2024). Suas obras Tocaia do Norte e A Secura dos Ossos conquistaram reconhecimento internacional e estão sendo traduzidas para outros idiomas.
Na entrevista abaixo, a autora comenta sobre o processo de criação de Inventário de um silêncio e sua pesquisa sobre a ditadura militar na Amazônia.
Quais são os principais temas abordados em Inventário de um silêncio?
Neste livro, eu abordo as consequências da repressão militar exercida sobre as empresas dentro das famílias, mais especificamente, sobre uma empresa de petróleo, tanto na sede quanto nas refinarias, o desaparecimento político de um familiar, a traição entre dois irmãos e a culpa.
Por que você escolheu abordar esses assuntos?
Porque vejo a necessidade de reflexão sobre temas que nos afetam diretamente e que, mesmo tendo acontecido décadas atrás, as consequências são sentidas ainda hoje. Há também a necessidade de conscientizar as novas gerações, aqueles que não experienciaram a repressão, sobre a ditadura. Chamo a atenção para os problemas e as histórias amazônicas, cujo sistema de desenvolvimento pensado para a região ainda é baseado na exploração dos seus recursos, concentrando o lucro na mão de poucos, sem grande mudança para a grande maioria da sua população (mesmo que digam o contrário), e chamar a atenção para o apagamento dos seus habitantes e seus conflitos ao longo da história.
Como foi o processo de pesquisa e de criação do livro?
A informação sobre as torturas que ocorriam no interior de uma refinaria e de como os militares encamparam uma refinaria privada no Amazonas para a Petrobras surgiu de uma conversa entre amigos. Depois de recebida esta informação, passei meses em busca de novos elementos que corroborassem este fato, buscando livros e artigos acadêmicos. Para a escrita do livro propriamente dito, levei dois meses para a primeira versão. Depois disso, houve a necessidade de mais alguns meses para as revisões e leitura crítica. Levei quase dois anos até eu dar a obra por encerrada.

Escrever Inventário de um silêncio foi também um processo de transformação pessoal? O que esse romance representa para você hoje?
Escrever é um ato político e, morando no Amazonas há 23 anos, surpreendi-me com tantas histórias invisibilizadas que mereciam, e merecem, ser resgatadas. Escrever também é resistência, prazer e Arte. A verdade é que todo livro nos transforma à medida que mergulhamos nele, que nos embrenhamos na busca por informações, que mergulhamos em conflitos humanos que podiam ser os nossos; essa alteridade humanizadora que a literatura proporciona tanto a quem escreve quanto a quem lê, a quem se dispõe à reflexão, à crítica e à análise mediante novas informações e novo conhecimento sobre os fatos é mágica e revolucionária.
Como sua experiência com os livros anteriores contribuiu para a construção desta obra?
Só conseguimos aprimorar nosso texto se nos propomos a ler outros autores, conhecer o que já foi escrito, pesquisado e pensado sobre. Só se aprende a escrever escrevendo e, sobretudo, reescrevendo. Meus primeiros manuscritos, minhas primeiras escrevivências foram fundamentais para me proporcionarem o amadurecimento literário necessário para eu escrever este livro denso e intimista, tanto quanto os autores que li. Só com a experiência armazenada do ofício de escrever e de ler é que avançamos. É um processo feito aos poucos, com empenho, comprometimento e resistência. Muito pouco é atribuído à inspiração. Escrever é labuta, sem idealizações ególatras ou vaidades vãs.
Como você definiria seu estilo de escrita?
Não saberia te responder. Meu estilo varia de acordo com minha personagem e o tipo de narrativa. Em Memórias de uma mulher morta e A secura dos ossos meu estilo de escrita é seguramente poético, evocando um lirismo pungente. Inventário de um silêncio não tem lirismo, é mais denso, refinado e direto, de modo que procuro trabalhar a linguagem sempre em função da personagem que narra a história. Escrever é encontrar o ponto ideal de equilíbrio entre o conteúdo e a forma, sabendo que cada história tem seu equilíbrio próprio. Acho que a forma, tal qual meu estilo, muda de um livro para o outro, adequando-se à personagem. Nesta obra, Inventário de um silêncio, por tratar-se de um tema áspero, um homem clivado e atravessado pelo remorso, escolhi um estilo sem floreios, com estrutura narrativa linear, ainda que comece in media res.
Em que momento você decidiu que queria se dedicar à literatura?
Escrevo desde 2011, participando de várias antologias e coletâneas, mas a partir de 2016 passei a publicar livros autorais, estimulada pelas aulas de um projeto de extensão da universidade intitulado Clube do Autor, ministrado pelo professor de Literatura Lajosy Silva. Foi a primeira vez que me vi como escritora. Mesmo assim, ainda usei de pseudônimo nos meus dois primeiros livros, reticente e insegura sobre minha capacidade como autora. Eu quis me dedicar de vez à literatura quando quis resgatar as histórias “esquecidas” que descobri nesta região tão cobiçada e, ao mesmo tempo, tão desprezada por todos. Vide a pouca visibilidade que o/as autore/as amazonenses têm dentro do mercado editorial atual. Há sempre de se mudar para o sudeste caso queiramos angariar um pouco de atenção da mídia literária??
Em quais projetos você está trabalhando atualmente?
Quero escrever um romance policial sobre um evento que aconteceu em Manaus nos anos 50. É um novo gênero de escrita que estou me propondo. Quero escrever algo que me tire da zona de conforto. Escrever é também se desafiar para se renovar. Escrever é o modo mais seguro de alcançar algum céu.
Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

