Semana de Arte Moderna: três dias que a cidade não viu

CIDADES DO AMANHÃ

Semana de Arte Moderna: três dias que a cidade não viu

por Maíra Rosin e Renata Geraissati C. de Almeida
14 de fevereiro de 2022
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Celebrar. O ano de 2022 será marcado por duas datas: o bicentenário da Independência, em setembro, e os 100 anos da Semana de Arte Moderna, em fevereiro. Confira o novo artigo do especial Cidades do Amanhã

A comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna traz à tona a forma como a cidade de São Paulo (re)escreveu sua história a fim de destacar sua importância política e cultural no Brasil desde o final do século XIX e que, de algum modo, segue ainda nos dias de hoje. Na tentativa de se colocar em evidência, vêm de longe os eventos os quais São Paulo insiste em escrever à sua maneira.

Não foi capital do Império, mas rememora o fato da Independência ser declarada às margens do riacho do Ipiranga, que hoje abriga o túmulo do Imperador. Até mesmo seu próprio passado foi reescrito na reconstrução do símbolo de sua fundação, o Pateo do Colégio – que muitos acreditam ser a construção original que abrigou o Padre Anchieta. A cidade que buscava um espaço de destaque no cenário nacional era a que receberia um dos movimentos artísticos mais famosos: a Semana de Arte Moderna de 1922.

Nessa tentativa de construir uma narrativa de legitimidade para o protagonismo da cidade, especialmente por parte da intelectualidade paulista e de grupos ligados à cafeicultura e à industrialização, foi fundado em 1894 o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. A entidade tinha como principal objetivo “preservar e resgatar a memória das tradições” a partir da definição de marcos em que os paulistas atuaram de forma decisiva para a história do Brasil. Para isso, rememora as bandeiras, destacando o fato de integrar a famosa “República do Café com Leite”, sem contar o fato curioso de comemorar a Revolução de 1932 de maneira a dar a entender sua vitória. Assim, o progresso da capital servia de espelho para a ideia de desenvolvimento do Estado.

Correspondentes de jornais americanos no começo do século chamaram a cidade de “Yankee City of Brazil” e afirmaram que “São Paulo é o Brasil”. O escritor britânico Rudyard Kipling, prêmio Nobel de Literatura, ao visitá-la em 1926, comparou a aura de progresso com o que Manchester representava para a Inglaterra. Anos mais tarde, Claude Lévi-Strauss não foi tão generoso, referindo-se à cidade como “úmida e modorrenta”.

Cartaz de divulgação da Semana de Arte Moderna (Reprodução)
Uma nova construção de cidade

 É comum, nos escritos dos intelectuais ao longo dos séculos XIX e XX, termos como “metrópole”, “cosmopolita” e “moderno” para se referirem a São Paulo, destacando as transformações no espaço urbano e indicando modos de vida diferentes daqueles encontrados em pequenas vilas e comunidades. Inúmeras revistas, jornais e anúncios atestam que essas percepções das mudanças no cotidiano não eram exclusividade de determinados segmentos da sociedade, mas se tornaram palavras que foram apropriadas no vocabulário rotineiro da população.

A revista A Vida Moderna, de grande circulação e lida por parte da população alfabetizada da cidade, impressa entre os anos de 1907 e 1929, reunia inúmeras propagandas que mostravam o crescimento na oferta de produtos que circulavam, os impactos da incorporação da tecnologia no dia a dia e colunas que destacavam os empreendimentos comerciais e industriais, com fotos de construções e matérias sobre o progresso econômico e arquitetônico, mostrando a capital como parte das metrópoles cosmopolitas.

Atendendo à preocupação com relação à modernização no espaço urbano, na administração de Antônio Prado (1899-1911), as regiões próximas ao Pateo do Colégio concentraram funções comerciais e institucionais com a construção de edifícios que demonstrassem a grandiosidade de São Paulo. Diversos desses foram encomendados a um nome que se cristalizou no imaginário coletivo, o do engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, ainda que boa parte dos projetos que conhecemos como seus tivessem sido projetados por diversos arquitetos – a maioria vindos da Europa – que trabalharam em seu escritório.

Pelo viés da arquitetura, o escritório contribuiu para a criação de uma identidade visual para a cidade, a qual conhecemos até hoje, uma vez que parte significativa dos imóveis “históricos” no centro são de sua autoria. Um desses símbolos é o Theatro Municipal, projetado por Claudio e Domiziano Rossi, e que, desde sua inauguração, em 1911, teve como objetivo promover a cultura erudita com temporadas líricas e outros eventos que denotassem também um progresso cultural.

O entorno do Theatro, no entanto, era recheado de bordéis e casas de divertimentos públicos cujos habitantes e as funções ali desempenhadas não agradavam aos mais conservadores e moralistas, especialmente nas ruas Xavier de Toledo e Conselheiro Crispiniano. Casas de prostituição, dancings, cabarés disfarçados de hotéis e botequins cuja frequência em nada lembrava a opulência do Municipal e daqueles que frequentavam seus eventos. Contam as anedotas que seu bar era frequentado por jovens e intelectuais que faziam uso de cocaína e seus eventos por prostitutas estrangeiras, as famosas polacas, que buscavam clientes ricos no salão do Theatro. Ou seja, o que a cidade pretendia contrastava com o que ela era de fato, e não foi diferente na Semana de Arte Moderna.

 

Os playboys de 1922

A Semana foi patrocinada e difundida pelo jornal Correio Paulistano, em especial por um de seus colaboradores, o poeta Menotti del Picchia, que escreveu para o jornal com o codinome Helios e era vinculado à cúpula do Partido Republicano Paulista (PRP), que reunia diversas parcelas da elite da época e que conflitava com a aura da “modernidade” pretendida pelos participantes da Semana. Marcos Augusto Gonçalves, em sua obra sobre o evento, conta que a Sra. Renata Crespi, herdeira de um dos maiores industriais da cidade, caminhou pelo Theatro sem saber o que pensar daquelas obras, sentimento que acompanhou tantos outros membros da elite que compareceram aos três dias de evento e que rendeu críticas vorazes de Monteiro Lobato. A presença da Sra. Crespi, no entanto, mostra como o público da Semana era não só conservador, mas abastado.

Comissão Organizadora da Semana de Arte Moderna, incluindo Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. (Reprodução)

Assim, não foi toda a cidade que compareceu ao evento, muitos nem souberam de sua existência: foi uma celebração de poucos e para poucos. Guilherme de Almeida, um dos expoentes do grupo de São Paulo e fundador da revista Klaxon, afirmou “éramos os playboys intelectuais de 1922”. Como parte de sua obra, são muito conhecidas suas crônicas de 1929, que criaram arquétipos para as diferentes colônias de imigrantes que viviam na cidade, ressaltando que cada grupo se fixava em uma determinada área, criando “guetos” que permitiam com que os comportamentos mais incomuns fossem naturalizados em um espaço ocupado por pessoas da mesma nacionalidade.

Suas críticas convergiam com o que estava sendo discutido nas sessões da Câmara Municipal, na qual um dos projetos de lei solicitava o restabelecimento da língua portuguesa nos letreiros de edifícios, pois, em uma cidade com diversos estrangeiros, era necessária a “assimilação” dessas pessoas. Portanto, vemos que o discurso de ser um local que a todos acolhia, indiscriminadamente, não correspondia à vida cotidiana, em que os embates entre o nacional e o estrangeiro eram constantes.

O processo de urbanização de São Paulo foi, e ainda é, permeado por inúmeras tensões de diferentes agentes em torno da posse da terra. O projeto modernizador que promoveu reformas urbanas resultou na discriminação e na exclusão de parcelas pobres da população da área central e em sucessivas tentativas de eliminar as atividades que as faziam permanecer na região.

 

O modernismo e a política urbana

 

Mário de Andrade, talvez o nome que hoje tenha maior destaque e difusão no grupo dos modernistas, posteriormente integrou a burocracia do município, durante a gestão de Fabio Prado (1934-1938), marido de Renata Crespi, a mesma senhora que havia se chocado com algumas das obras que viu no Municipal em 1922. O escritor ocupou o cargo de diretor do recém criado Departamento de Cultura, para ele “uma aura de progresso neste município sofrido” e que, segundo Mário de Andrade, vinha de um prefeito com boas ideias, como consta em sua carta ao amigo Câmara Cascudo. Apesar das amplas iniciativas populares, é como diretor do Departamento de Cultura que Mário de Andrade tenta proibir os festejos carnavalescos do ano de 1937, alegando não se tratar de manifestação cultural, e se empenhou pessoalmente em moralizar a cidade, mapeando e controlando todos os espaços de prostituição e de divertimentos públicos.

A urbe do progresso, a Capital do Café, palimpsesto, locomotiva da América Latina, três cidades em um século. Todos esses adjetivos são usados para definir São Paulo no começo do século XX, mas, afinal, que cidade era essa que recebeu, em fevereiro de 1922, a Semana de Arte Moderna? Quais eram as diferentes camadas sociais que habitavam São Paulo, qual foi o público que teve acesso às propostas provocadoras do movimento artístico e como isso de fato repercutiu para a população em geral, à margem dessa manifestação cultural? Afinal, qual foi a narrativa sobre sua importância que se cristalizou no imaginário nacional e paulista?

Não podemos e nem devemos negar a relevância do evento artístico e de suas implicações culturais e políticas futuras, que são cenas dos próximos capítulos de uma história que vai ser contada em nosso próximo artigo para Cidades do Amanhã, mas sim convidar para a reflexão, já que normalmente temos a impressão de que o evento, da forma como é normalmente abordado, tomou conta de toda a cidade. A cidade de fato, o povo, os imigrantes e todo o universo que a tornou o “sonho modernista”, não compareceu ao evento.

 

Maíra Rosin é historiadora, mestra em História e doutora em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo. Trabalha com a história urbana através das relações entre os excluídos e marginalizados com a cidade e é pesquisadora do Grupo CAPPH (Unifesp).

 

Renata Geraissati C. de Almeida é historiadora e doutoranda em História, atualmente pesquisadora visitante na New York University. Atua com a história da imigração, com ênfase nos sírios-libaneses, e suas implicações na urbanização da cidade e é pesquisadora do Grupo CAPPH (Unifesp) e do CIEC (Unicamp).

 

Este artigo faz parte do especial Cidades do Amanhã, que conta com a coordenação editorial de Rodrigo Faria G. Iacovini.

 



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