“Sempre levarei a condição de bispo comigo” - Le Monde Diplomatique

Entrevista exclusiva – Fernando Lugo

“Sempre levarei a condição de bispo comigo”

Edição - 14 | Paraguai
por Dario Pignotti
4 de setembro de 2008
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Único mandatário paraguaio em mais de meio século a não pertencer nem às Forças Armadas nem aos partidos Colorado e Liberal Radical Autêntico, Lugo deixa clara sua pretensão de estabelecer um novo contrato social no país: “Estamos aqui para servir o povo, não para nos servirmos dele”

Sempre de sandálias. Esta é uma das marcas registradas de Fernando Lugo, presidente do Paraguai. O assessório, que faz parte de um figurino igualmente simples, foi utilizado durante todo o seu giro pela América Latina e também na cerimônia de posse, no último dia 15 de agosto.

Os pés do ex-bispo de São Pedro são profundamente malcuidados e sujos, em razão de cada uma das vezes em que foram enterrados na terra vermelha. Cerca de 40 mil guaranis usam essas mesmas sandálias, que custam pouco mais de US$ 10. Vendidas no popular “Mercado 4”, elas foram motivo de deboche por parte da burguesia, arraigada ao poder durante décadas de governo do Partido Colorado.

Assim como a vestimenta, a resistência de Lugo em residir no Palácio Mburuvichá Róga, onde moraram os seus predecessores, também pode ser um golpe de marketing. Mas sem dúvida remete à irrupção na outrora sonolenta cena paraguaia de um líder que chegou ao comando do Estado após percorrer o país promovendo o “ñemonguetá guasú”, expressão guarani que significa “grande diálogo com o povo”.

O presidente deixa clara sua aspiração por um novo contrato social, que pretende restituir o papel protagonista da maioria da população: “Estamos aqui para servir o povo, não para nos servirmos dele”, resumiu, durante entrevista exclusiva a Le Monde Diplomatique1.

Não viveremos um confronto

O fenômeno Lugo pode ser medido pela ascensão de sua popularidade em pouco mais de dois anos: em 29 de março de 2006, cerca de 40 mil pessoas participaram de uma manifestação na qual ele contestou as ambições absolutistas do ex-presidente Nicanor Duarte Frutos; em 20 de abril de 2008, 766 mil cidadãos votaram nele para presidente da nação.

Ser o primeiro bispo eleito presidente é, desde já, uma originalidade política. Porém, mais inédito ainda é o fato de que Lugo seja o único mandatário, em mais de meio século, a não pertencer nem às Forças Armadas nem aos partidos Colorado e Liberal Radical Autêntico.

Simbolicamente, sua chegada ao Palácio de López ocorreu um dia antes do segundo aniversário de morte de Alfredo Stroessner, criador de uma máquina de poder que escapa às categorias clássicas utilizadas para tipificar as ditaduras militares sul-americanas. Nos últimos 19 anos, o pós-stroessnismo, surgido após o golpe que destronou esse antigo caudillo, esmerou-se em montar um simulacro de democratização, sem afetar os fundamentos do sistema, tais como a concentração da riqueza, a partidarização e a cartelização do aparato estatal, a exclusão política e a sujeição aos mandamentos de Washington.

Assim, cabe ao novo mandatário, entre outros desafios, sepultar a dupla extemporaneidade que o stroessnismo deixou como herança. Sua primeira tarefa é “voltar” ao século XX e concluir a transição democrática que no restante do subcontinente foi fechada há quase duas décadas. A segunda é desembarcar no século XXI, rompendo o autismo político que isolou o Paraguai durante mais de 50 anos.

Para isso, Lugo conta com os novos ventos que sopram na América do Sul. “Nosso processo será progressista, não vamos destoar na região. E isso será um grande ponto de união com os outros chefes de Estado. Não me sinto à vontade quando me definem como um governante de esquerda”, declarou.

Adepto da política da composição, ele assegura que “este governo vai ser para todos os paraguaios, sem exclusão”. E faz previsões: “Não viveremos um confronto, como ocorre com os governos de Hugo Chávez, Cristina Kirchner e Evo Morales. Acredito que o Paraguai possui a característica de ser uma sociedade esfacelada e, por isso, é necessário reconstruir a república. Possivelmente nós adotaremos um estilo mais conciliador, similar àquele que tem os governos do Chile e do Brasil, mas sempre a partir de nossa própria realidade. Queremos construir o país de forma positiva porque ele pertence a todos os paraguaios”.

En passant, Lugo recordou que após ser eleito visitou vários colegas da região, mas não encontrou o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva2. “Não viajou ao Brasil em razão da controvérsia sobre Itaipu?”, consultou este repórter. “Parece-me que essa pergunta tem um duplo sentido. Temos uma boa relação com o Brasil. Digamos que não tive tempo para ir até Brasília”, respondeu ele, com um sorriso maroto. Um gesto semelhante, aliás, ao que usou para negar seu interesse na reeleição, embora não descarte a possibilidade de reformar a Constituição para instituir um segundo mandato.

“A soberania energética é o grande tema presente e foi a bandeira de nossa campanha. Agora vamos iniciar as conversações com o vizinho e irmão Brasil”, afirmou. Provavelmente, ele e o presidente Lula lançarão mão das suas melhores artes diplomáticas para aproximar posições com relação à represa binacional de Itaipu. “Como se refere a um Tratado Internacional, deve haver acordo entre ambas as partes para a sua revisão. O país necessita saber o que ocorreu com Itaipu. Creio que no século XXI Itaipu não pode seguir de costas para povo”, completou Lugo.

O Paraguai invoca um conjunto de razões técnicas, mas o foco de sua tese é histórico: um acordo subscrito em 1973 pelas ditaduras dos generais Alfredo Stroessner e Emílio Garrastazu Médici não tem legitimidade para se sustentar. Na perspectiva do “luguismo”, o que está em jogo é a conquista da “soberania energética” para um país que conta com o maior excedente de hidroeletricidade do continente e não pode exportá-lo a terceiros nem contar com um sistema de transmissão para utilizá-lo em proveito próprio.

Político e místico

“Dentro da lei e com racionalidade”, insiste Lugo quando perguntado sobre a implementação da reforma agrária, ainda amarrada a um Estado corrupto e a um sistema judicial historicamente servil ao latifúndio. Consciente de que não tem ao seu lado um movimento social poderoso, que lhe dê respaldo, e advertido que os “colorados” tecem conspirações para impedi-lo de governar – incluindo possíveis paralisações dos cerca de 200 mil funcionários públicos –, Lugo possivelmente apostará na lealdade de seu verdadeiro “partido”: as bases da Igreja Católica.

Os párocos e leigos que apoiaram massivamente a candidatura de Lugo com certeza serão um dispositivo de mediação no campo. O cenário incerto, porém, não parece amedrontar o primeiro bispo católico presidente, eleito contra a vontade do Vaticano. “Estamos acostumados a enfrentar problemas, não temos medo de nada.” Indagado sobre seu contato com a cúpula do catolicismo, ele abriu um sorriso calmo:

Como serão as suas relações com Roma?

– O Estado paraguaio é laico, mas o Paraguai é um país católico e acreditamos que seguirá mantendo boas relações com o Estado do Vaticano. Eu pertenço a essa Igreja como bispo, mas como presidente haverá uma relação de igual para igual.

Você ficaria feliz se o papa Bento XVI visitasse o Paraguai?

– Ficaria encantado.

E você o convidaria para essa visita?

– Sim, com muito prazer.

Um ano antes, em outra reportagem concedida na sua casa em Lambaré, periferia de Assunção, Lugo foi questionado se não era “messiânico” demais se propor a enfrentar o Partido Colorado, o Vaticano e a Corte paraguaia, que quase impugnou sua candidatura em função de seus vínculos religiosos. Menos atarefado naquela época, ele deu uma longa resposta, cuja releitura permite compreender melhor a idiossincrasia desse homem que concebe o poder como uma combinação de “racionalidade” e “mística”. Fez menção à autores da Teologia da Libertação que o influenciaram em sua formação, como o brasileiro Leonardo Boff e o bispo equatoriano Leonidas Proaño, e recordou ter assistido “muitas vezes” ao filme A missão, que narra a resistência dos jesuítas e das comunidades indígenas à aliança entre o Vaticano e os reinos de Portugal e da Espanha no século XVIII. Ao final da história, cerca de 1.400 nativos são massacrados.

“Sempre levarei a condição de bispo comigo”, concluiu. “Lastimosamente, foi preciso optar, e eu optei por uma vida política. A política também é um instrumento de santidade.”3

 

*Dario Pignotti é jornalista, correspondente da agência italiana Ansa no Brasil.

 



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