ENTREVISTA

Silvana Tavano: “o tempo e a memória são temas que me chamam desde sempre”

Autora de Ressuscitar mamutes é a primeira entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor

Pelo terceiro ano consecutivo, o Le Monde Diplomatique Brasil traz o especial em comemoração ao Dia Nacional do Escritor, celebrado em 25 de julho. Ao longo do mês, serão entrevistados autores e autoras em evidência no cenário nacional. A primeira entrevistada é Silvana Tavano, vencedora do Prêmio Oceanos na categoria prosa em 2025 com o romance Ressuscitar mamutes (Autêntica Contemporânea) e do Prêmio Jabuti de melhor livro infantil em 2022 com Sonhozzz (Editora Salamandra).

Ao longo da entrevista, ela aborda a importância do tempo como tema de sua ficção, ressalta os principais desafios da escrita concisa e destaca a relevância de Lygia Fagundes Telles para a sua trajetória como escritora.

Confira na íntegra:

O tempo é um dos temas centrais do seu romance Ressuscitar mamutes. Acredita que escrever ficção é um meio de reinventar o passado e inaugurar o futuro?

Com certeza, e acho que é da natureza da literatura ressuscitar passados, inventar presentes, imaginar futuros – é a partir dessa premissa que a ficção cria personagens, histórias, mundos, e talvez na ficção a gente consiga dar forma a coisas invisíveis como a saudade, a tristeza e o próprio tempo.

Como pouco mais de 100 páginas, Ressuscitar mamutes é, para mim, um dos livros mais profundos da literatura brasileira contemporânea. Quais são os principais desafios (no que diz respeito à linguagem e ao enredo) para dizer tudo aquilo que precisa ser dito sem se estender além do necessário? 

A escritora Silvana Tavano – Foto: Renato Parada

Você é muito generoso. Costumo dizer que eu adoraria escrever um romance caudaloso, com mais de 200 páginas, e pode ser que isso aconteça um dia, mas na prática, pelo menos até aqui, meus textos resultam sempre enxutos. Talvez essa concisão tenha a ver com a minha experiência nos infantis – para esses leitores é importante dizer muito com pouco, e o desafio dessa escrita, acho, é conseguir ser simples sem abrir mão da complexidade.

O desafio é ainda maior quando a narrativa se alonga, mas sempre é possível buscar concisão articulando a linguagem com a ajuda de uma série de recursos estilísticos. No caso de Ressuscitar Mamutes, me vali do paralelismo entre a ideia de trazer de volta esses animais e a experiência da narradora com a memória e o luto. Com isso, não precisei me estender para dar conta de dizer o que eu pretendia.

Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema serelaciona com a sua vida fora da literatura? 

O tempo e a memória são temas que me chamam desde sempre. Vários dos meus livros para crianças falam sobre o tempo, às vezes procurando no relógio os ponteiros que marcariam o espaço do “Ainda”; também investigando o início de todas as coisas em “Como Começa?”; ou, ainda, com “O Mistério do Tempo” tentando entender por que as horas voam quando a gente se diverte e custam a passar quando estamos tristes. A ideia de viver um luto e uma gestação ao mesmo tempo me levou à escrita do primeiro romance, O Último Sábado de Julho Amanhece Quieto, já o desejo de colocar o tempo em cena me conduziu ao Ressuscitar Mamutes.

Com quase 69 anos, gosto de pensar que a memória se reconfigura a cada tempo modificando o passado, e que a imaginação antecipa um futuro que pode não chegar.

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?

Pequenas Virtudes, de Natalia Ginzburg, porque cada releitura desse livro tão breve e singular me faz ver como as questões humanas podem ser tratadas em profundidade a partir das coisas simples do dia a dia. E é incrível como tantas vezes me surpreendo lendo como se fosse a primeira vez, tamanho o frescor que se mantém nesses ensaios fascinantes.

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora? 

Não consigo pensar em um único livro, lembro de tantos que me encantaram na adolescência, As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, O Apanhador no Campo de Centeio, de Salinger, Agosto e todos os livros do Rubem Fonseca. Mas acho que só quando descobri Lygia Fagundes Telles percebi que, além de leitora, já existia o desejo de me tornar escritora.

Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar? 

Muitas razões para celebrar: os clubes de leitura que se multiplicam levando os livros a todos os cantos do país, em encontros públicos e, ao mesmo tempo, íntimos, aprofundando a experiência de cada leitor e leitora. O número significativo de feiras e festivais que hoje fazem parte do calendário de eventos literários. E duas conquistas muito importantes: a presença cada vez mais notável de escritoras nas livrarias e nas estantes dos leitores; assim como a de autorias negras, indígenas, LGBTQIA+ ganhando espaço e representatividade. Muito para comemorar também na literatura para os pequenos; na minha infância, eram pouquíssimos títulos, quase nenhum de autor brasileiro, e hoje dá para passar horas na seção infantil das boas livrarias e se esbaldar nas livrarias dedicadas à literatura infantojuvenil. Mas é terrível constatar que o número de leitores vem caindo, como mostrou o último levantamento feito pelo Instituto Pró-Livro, em 2024; o brasileiro ainda lê pouco, e entre os poucos que leem, a média é de 1,3 livro por ano. Ainda pior é o dado que atesta a diminuição da capacidade de concentração e compreensão, então ainda temos um imenso caminho pela frente, a começar, penso eu, pela formação de professores como leitores e mediadores de literatura nas escolas.

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil? 

De pronto penso em Flávia Braz, Izabella Cristo, Julia Barandier, Mariana Lobato Botter, Fernanda Teixeira Ribeiro, autoras que impressionaram com seus livros de estreia, não por acaso premiados ou indicados a prêmios importantes. Lembro, ainda, de Paulo Fehlauer, Fernando Rinaldi e Keichi Maruyama, entre tantos escritores e escritoras que surgem, ano após ano, no curso de Formação de Escritor do Instituto Vera Cruz, onde leciono. E é bonito acompanhar esse momento fértil, com tanta gente querendo aprender a escrever, publicando, ampliando o círculo de leitores e de escritores.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior? 

Duas recomendações preciosas: não se apresse para publicar; a escrita demanda trabalho, descanso, reescritas e outra vez descanso. Não vale a pena correr o risco de colocar um livro no mundo antes do tempo. E não escreva pensando em publicar. Muito antes disso, busque a voz, o olhar e as melhores palavras para o que você tem a dizer. As duas recomendações vão na contramão do que a gente costuma ouvir, ou melhor, sentir: a pressão do mercado, a ideia de que é preciso aproveitar o momento para não perder a oportunidade x ou y. O único e melhor momento que a gente precisa aproveitar é o que nos coloca em contato com a nossa escrita.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. O autor acaba de assinar contrato com a Editora Reformatório para a reedição de De repente nenhum som e para a publicação de um romance inédito.

Leia mais sobre o tema: