Silvio Berlusconi, o poderoso chefão - Le Monde Diplomatique

Escândalos na Itália

Silvio Berlusconi, o poderoso chefão

Edição - 26 | Itália
por Carlos Galli
9 de setembro de 2009
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O premiê italiano oferece a seus eleitores uma retórica e uma cultura política cínicas e anti-institucionais. Os valores que defende são fundamentados em convicções tradicionais anti-intelectuais e pequeno-burguesas. Não aceita nenhum limite ao seu próprio poder. E mesmo assim, continua com altos índices de aprovação

O sucesso político de Silvio Berlusconi não é nada de outro mundo: não se trata de um óvni que de repente aterrissou no seio de uma democracia eficaz e de um mercado transparente. Representa, pelo contrário, a síntese de seu declínio e do imobilismo da Itália. Em outras palavras, esse sucesso político é fruto justamente de uma democracia e de um mercado em decadência.

A partir de 1978, ano em que o ex-primeiro-ministro Aldo Moro foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas, o país entrou em um período de falta de objetivos políticos e impulso reformador. Sofreu também com a decadência do senso cívico, diretamente ligada à extinção progressiva da base que legitimou a República: o antifascismo. Em seguida, o papel regulador da política e do direito diminuiu em função das exigências da economia.

A Itália é um país fragmentado em grupos de interesse – dos mais poderosos aos mais miseráveis –, todos alheios à legalidade comum e ao espírito cívico. A sociedade é uma selva, onde não estão presentes de forma plena as lógicas do mercado ou do Estado, mas sim as do privilégio, do ressentimento e do medo.

Não é por acaso que a insegurança caracteriza esse “estado de natureza”, típico de uma organização que percebe cada vez menos a necessidade de regras de convivência. Os italianos sentem intuitivamente que a crise de legalidade penaliza a todos, mas a maior parte prefere se aproveitar da situação e também usar as brechas da lei, sem muito esforço para promover o respeito coletivo pelas regras.

O aumento da corrupção, entranhada no seio da administração, decorre dessa lógica do “particular” e do “familiar amoral”, que hoje constitui a norma1. O espaço público da legalidade, da transparência e da universalidade está reduzido: prevalece o aglomerado de interesses privados e particularismos de influência e peso diversos, que lutam por um equilíbrio precário. A sociedade ainda está estruturada em função de fidelidades pessoais e de clientelismo. Sobre a lei, o direito e o dever, predominam a astúcia e o favoritismo. Desse modo, soma-se à crise econômica, social e política uma crise moral.

A fragmentação da esquerda teve um papel determinante na aventura berlusconiana. Minada por incertezas e contradições após a chegada ao poder, aliou-se a um partido minoritário de católicos e com eles formou um núcleo político de funcionários públicos, aposentados e intelectuais – cada vez menos numerosos. A esquerda é hegemônica apenas em algumas regiões da Itália central, como a Emilia Romagna e a Toscana, enquanto no restante prevalece o sistema clientelista da direita. Essa configuração se deve também ao fato de Berlusconi ter conseguido encarnar os anseios que ecoaram da população após o fim do sistema de partidos da Primeira República, precipitado pelos processos judiciais da operação Mani Pulite (“mãos limpas”)2. Naquele momento, parte da classe política italiana foi dizimada e Berlusconi conseguiu direcionar a indignação popular contra a política, a cultura e a elite que marcaram os anos 1990.

Sua força repousa sobre um populismo plebiscitário nutrido de poder midiático, além do carisma pessoal e de um pacto com os italianos baseado em interesses, medos e paixões. Berlusconi oferece a seus eleitores uma retórica e uma cultura política cínicas e anti-institucionais. Os valores que defende são fundamentados em convicções tradicionais anti-intelectuais e pequeno-burguesas. Não aceita nenhum limite ao seu próprio poder, como provam as polêmicas contra o Parlamento – onde possui maioria – e a magistratura, instância na qual tentou emplacar uma lei que lhe asseguraria imunidade judiciária pessoal.

Para Berlusconi, o cargo de primeiro-ministro representa a expressão direta da vontade popular, uma investidura que dá ao feliz eleito a unção do Senhor (como ele mesmo afirmou há alguns anos) e um lugar acima de todas as leis e instituições. Nessa ótica, a delegação do poder não é um processo racional, e sim uma representação simbólica, pessoal e plebiscitária, graças à qual um povo reconhece sua própria identidade no corpo místico do chefe. A população, ainda de acordo com essa visão, ama seu líder porque ele a compreende e passa o sentimento de segurança, pelo menos com relação aos “comunistas”, termo pelo qual a retórica da direita designa os espíritos críticos e, em geral, qualquer um que não se alinhe ao sistema de valores da maioria. Para Berlusconi, a esfera pública não é um espaço crítico: é, antes, o lugar da publicidade – no sentido comercial do termo –, da propaganda e do consenso entusiasta.

Essa política autoritária e carismática é, obviamente, estranha ao antifascismo. Ela não tem nada em comum com a democracia liberal, como confirmam os ataques sucessivos à liberdade de imprensa, o abandono da noção de laicidade na política (vide os privilégios econômicos da Igreja e o respeito dado às diretivas da hierarquia religiosa no que se refere a assuntos de bioética e biopolítica) e a ausência de escrúpulos no incentivo à xenofobia e aos medos sociais3.

Trata-se também da transferência de poder dos partidos a pessoas, ou a uma pessoa, e do “arco constitucional4” a uma política de clivagem vertical do país em dois blocos opostos. A repetição constante da dualidade amigo/inimigo permite forjar uma unidade simbólica num país onde se mantém deliberadamente a fragmentação e as desigualdades econômicas e sociais5.

Para além do “homem que faz” – como ele gosta de se definir, em oposição aos políticos de profissão que “apenas falam” –, Berlusconi é o homem do laisser faire. Sua estratégia consiste em deixar cada grupo de poder conservar seus privilégios ou buscar aumentá-los, em detrimento dos grupos mais fracos e dos interesses coletivos.

O primeiro a se beneficiar é, evidentemente, o próprio Berlusconi, já que os conflitos de interesses não resolvidos parecem pertencer à “paisagem política” e nem sequer chamam a atenção. E mais: a posição anormal do chefe acaba por estender a impunidade a to
dos os cidadãos, pois o modelo vigente é aquele que prega a quebra das regras, sejam elas pequenas ou grandes. A lei universal da República transformou-se numa anomalia, da qual Berlusconi constitui um ícone: saturar a vida pública com lógicas e práticas privadas representa a força de sua posição e a razão do consenso em torno dele. A única exceção a esse consenso são as medidas em torno do trabalho assalariado. Tanto que os controles do ministro Renato Brunetta provocaram o ressentimento da maioria dos italianos contra a administração6.

Modernização autoritária

O eleitorado de Berlusconi não se reduz aos ricos e poderosos; inclui também a classe média, os trabalhadores e uma parte dos operários, decepcionados com a política de bem-estar coletivo da esquerda, com o Estado provedor e até mesmo com o princípio de igualdade. Preferem acreditar nas esperanças, ilusões e rancores que a direita alimenta. Contam com Berlusconi para ajudá-los.

Por outro lado, entre o discurso e a prática de Berlusconi cresce um abismo mais profundo que o de outros profissionais sem escrúpulos da política. Onde foi parar a promessa eleitoral de 2001 “Menos impostos para todos”? A direita renegou-a: sua política real joga contra os interesses das categorias mais modestas. Lembremos também das medidas contra os trustes e em prol da livre concorrência do mercado, tomadas pelo governo de Romano Prodi, que introduziu com prudência um tipo de class action – a possibilidade de os consumidores recusarem coletivamente uma prática duvidosa de uma empresa privada –: a direita esvaziou-as com emendas destinadas a favorecer as grandes companhias.

Em outras palavras, como de costume, a corrida pela satisfação de interesses a curto prazo beneficia os mais fortes: muitos italianos se creem hábeis, mas na realidade são enganados. Se Berlusconi parece um mago que, ao mesmo tempo, encanta e decepciona, nunca conseguirá modernizar autoritariamente o que for, mesmo de forma indireta. Da velha democracia cristã ele herdou o eleitorado, mas não a política, que consistia em apreender as vozes da direita e reciclá-las na centro-esquerda, a serviço do desenvolvimento da democracia. Berlusconi capta essas vozes vindas das entranhas do país e as utiliza para deixar a Itália como está, a fim de afirmar seu próprio poder.

Talvez a maioria dos italianos acorde do feitiço berlusconiano e rompa o pacto estabelecido com ele no dia em que se der conta de que a política do laisser faire é a do “não fazer nada”. Não admitir a crise, como faz a direita, não é suficiente para superá-la. No entanto, em junho passado, o primeiro-ministro atravessou a turbulência mais grave de sua carreira, que teria destruído qualquer outro homem: o escândalo das festas em suas residências privadas de Roma e da Costa da Esmeralda, com a participação de prostitutas de luxo e o transporte destas em voos fretados do Estado. Apesar disso, os italianos continuam a depositar confiança em Berlusconi. É o que mostram as sondagens eleitorais7, como se a verdadeira essência de sua política e sua função pública estivessem intactas.

Será que Berlusconi adaptou-se aos italianos a ponto de, caso saia de cena, o país não conseguir retomar a prática política há anos deixada de lado?

 

*Carlos Galli professor de história do pensamento político na Universidade de Bolonha e presidente do Instituto Gramsci da Emilia Romagna.



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