Sobre as iluminações da linguagem
É na combinação entre densidade e leveza que Pequenas fábulas encontra sua força estética
Em Pequenas fábulas, quarto livro do escritor carioca Rogério Leite Lobo, o autor recorre ao universo quase onírico das fábulas para investigar as aventuras existenciais humanas. Com textos que transitam entre minicontos, poemas em prosa e relatos alegóricos, o resultado é uma incursão pelo gênero das “formas breves”.

A linguagem de Lobo é marcada pela economia verbal, pelo lirismo e pela igual importância entre o dito e o não dito. O que leva alguns textos a se aproximarem dos koans, pequenas narrativas ou enunciados da tradição zen que provocam deslocamentos: em vez de oferecer uma conclusão ou uma explicação, o koan cria um paradoxo, uma espécie de impasse que convida à percepção a se aguçar.
Esse princípio aparece em textos que frequentemente trazem uma interrupção de expectativa, uma suspensão ou a impressão de retorno ao início. A obra também revela o diálogo de Lobo com autores que fizeram da brevidade, do absurdo, do sonho e da fabulação instrumentos para investigar a experiência humana. Tais como Rimbaud, Kafka, Borges, Hilda Hilst e Edgar Allan Poe.
A atmosfera fantástica, a ambiguidade e a capacidade de transformar uma situação aparentemente corriqueira em pergunta sobre a existência suscitam uma sabedoria brincante que atravessa todo o livro. É justamente na combinação entre densidade e leveza que Pequenas fábulas encontra sua força estética.
As narrativas breves assumem uma forma rarefeita, aproximando-se da poesia, e as “pequenas fábulas” de Rogério Leite Lobo deixam de ser apenas narrativas sobre moralidade para se tornar uma maneira lúdica e rigorosa de olhar para aquilo que há de contraditório, absurdo e profundamente humano em todos nós.
Ana Luiza Rigueto é jornalista e pesquisadora.

