UMA TRAGÉDIA LATINO-AMERICANA PARA REPENSAR O MASCULINO

Sobre Meu corpo é testemunha, de Maurício Rosa

Meu corpo é testemunha, de Maurício Rosa, finalista do Prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura, narra paixão queer e repensa “virtudes” heroicas masculinas

“Maria me beijou a boca / e zarpou”. Assim, com a amada que parte e a impotência de quem ficou, é que começa Meu corpo é testemunha, novo livro do poeta paulistano Maurício Rosa, publicado pela editora Laranja Original.

Seu teor trágico está anunciado desde o primeiro poema, “Antígona América”, que introduz Maria, “ela, minha travesti”, e sua personalidade impetuosa: “um nome amotinado entre os peitos / e a certeza de matar / antes de ser enterrada / viva”. Nessa tragédia latino-americana contemporânea, escrita em versos, conhecemos a história de Maria, que, ‘por atrapalhação do destino’,s já foi homem.

Os poemas são narrados sob o ponto de vista de um eu lírico tomado por uma paixão sem trégua, vivida pelo prisma de sua interrupção e sob a ânsia da volta da amada: “te preciso viva Maria / ou mesmo se morta apareça e direi a esses estúpidos: / ela voltou // eu disse // eu disse que ela ia voltar // e dobrem as suas línguas: // aqui um homem chora”.

Meu corpo é testemunha
Crédito: Laranja Original

Todo o ímpeto de violência que atravessa os poemas se consuma como implosão, em uma espécie de imobilidade contrariada. Quem vai para o mundo, enquanto isso, é Maria. Ela é quem decide partir, uma “Ulisses partida”, como é caracterizada pelo narrador eu lírico. Lança-se em uma aventura da qual não tomamos parte, tampouco o narrador parece ter conhecimento.

Parecem deslocadas, assim, as “virtudes” próprias ao arquétipo de figuras heroicas masculinas, de superação da fraqueza e da covardia, que encontram seu ápice na demonstração de força e na gana de conquista. Em Meu corpo é testemunha, é Maria quem parte para fazer a própria sorte, “tinha no beiço roxo / o prisma da justiça / olhos de quem só desiste / quando o facão golpeia / acutila e lanha / a última sorte”. Ao eu-lírico, sem nome, anônimo e inerte, resta padecer a ausência.

Com versos precisos e universo sonoro e visual próprios, os poemas contêm elementos da prosa narrativa, como enredo, nexo temporal, personagens. Mas sustentam, ainda, a singularidade lírica em suas composições. As imagens vibrantes e corporais intensificam a paixão queer que o leitor acompanha sem rodeios, sempre à iminência da interrupção.

Meu corpo é testemunha, quarto livro de Maurício Rosa, foi finalista do Prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura. Nele, as imagens agrestes e limítrofes, a negação das virtudes heroicas e a tensão entre lírica e narrativa fabulam o fracasso, não pela via obstinada de sua recusa, mas como parte integrante do jogo relacional. O corpo masculino é imaginado sob outro ângulo. Desobrigado da conquista e da violência, enfim, testemunha sua própria rendição.

Ana Luiza Rigueto é jornalista.

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