Socialismos: entre a reticência e o ponto final - Le Monde Diplomatique

Socialismos: entre a reticência e o ponto final

por Roberta Traspadini
8 de outubro de 2019
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São tempos sombrios. Tanto do lado de quem trabalha para o aniquilamento de outros mundos possíveis e necessários como no interior dos que tentamos viver diferente, há confusões instaladas. Em meio às confusões, tudo se torna difuso. E no difuso se dispersa a possibilidade de captar, mais de perto, o que a fotografia não é capaz de explicitar no movimento real de nossos viveres.

Breve apontamentos introdutórios
… não é fácil apagar o socialismo da memória dos povos e muito menos convencer a imensa maioria da humanidade, para a qual a solução dessas questões aparentemente elementares ainda continua pendente, de que o socialismo foi somente um equívoco dos que não haviam compreendido que a história acabou. Para esta humanidade explorada e carente, a história nem sequer começou. O camponês do Nordeste do Brasil tenta ingressar nela todos os dias, amontoando-se em paus-de-arara que o conduzem às regiões mais prósperas do Sul, para descobrir, nas favelas do Rio de Janeiro ou de São Paulo, que continuam lhe negando a entrada. (Ruy Mauro Marini, 1993, duas notas sobre o socialismo)

Em 1993 o mestre Ruy Mauro Marini escreve um belo texto, em plena era neoliberal capitaneada pelos estragos sociais, econômicos e culturais da primazia do Consenso de Washington sobre América Latina, reforçando a centralidade do socialismo. 26 anos nos separam do texto de Marini. No entanto, a acentuação das desigualdades é tão visível que se torna vital reconsiderar, em tempos de banalização do sentido das palavras, o que entendemos por socialismo.

Vale considerar também que vivemos um desencontro entre gerações e o momento mais duro da perda, por idade, doenças ou desaparecimentos diversos, de muitos e muitas pessoas que nos ajudariam, com sua pedagogia do exemplo, explicar como o termo ganha vida na cotidianidade das lutas pela sobrevivência, conformadas na consciência coletiva de que o socialismo se conjuga no plural em meio a um processo daninho, e enfermo, de primazia, não sem contradições, da sociedade do eu, do não, das mutilações.

São tempos sombrios. Tanto do lado de quem trabalha para o aniquilamento de outros mundos possíveis e necessários como no interior dos que tentamos viver diferente, há confusões instaladas. Em meio às confusões, tudo se torna difuso. E no difuso se dispersa a possibilidade de captar, mais de perto, o que a fotografia não é capaz de explicitar no movimento real de nossos viveres.

Sou socialista. Como socialista do meu tempo, de trevas e brechas, e com minhas limitações como ser social – que são maiores que as que hoje reconheço – reivindico textos clássicos e práticas milenares que, no caso da América Latina, antecedem ao socialismo real vivenciado pela União Soviética em 1917, ou mesmo pela Comuna de Paris em 1871.

Na América Latina, cito ao menos duas experiências que exigem uma reflexão, com giro epistêmico sobre o que entendemos por socialismo, como verbo contínuo no transitivo.
A experiência da Independência do Haiti, que como processo vai de 1791-1804 e toda a história anterior plasmada em uma compreensão ímpar sobre as ervas, a natureza como espaço de resistência e as contestações a ordem, no que entendemos como quilombos, que, infelizmente, no caso brasileiro são pouco ou nada reconhecidos.

A experiência da Revolução Mexicana que de 1910-1914 constituiu outros giros sobre o debate da terra, do trabalho e da dignidade, em pleno território que já havia sido saqueado, agora não mais pelo processo colonial espanhol e sim pela potência hegemônica dos EUA entre 1846-1848 perdendo mais de 50% de seu território na guerra. A revolução mexicana, mesmo não saindo de uma ordem de desenvolvimento mercantil, instaurou diversos processos de participação, mobilização e luta que deveriam integrar nossa memória e história sobre o papel dos e das camponesas, indígenas e povos africanos no continente em seus múltiplos processos de libertação.

Essas entre outras experiências compõem um arsenal de possibilidades criativas para pensar o hoje á luz do que sempre tivemos no território latino: resistências, produções de brechas, histórias não oficiais repletas de sentidos históricos que ainda pulsam em nossas veias latinas: a relação de sociabilidade entre seres humanos, natureza e demais seres vivos.

Como socialista meu ponto de partida é o real concreto e me espanta como, a cada dia, aprendo mais sobre aquilo que foi aniquilado historicamente de nossa memória de luta do continente, no que Fernando Baez chamará de Destruição Cultural da América Latina.

As múltiplas experiências desse continente de contínuo envenenamento intencional contra as práticas populares milenares dos povos que resistem, nos ensinam que o socialismo como práxis, encontra elementos nas histórias vividas anteriores à sua própria produção intelectual sobre o tema. Isto sem contar o que desconhecemos acerca das resistências advindas das histórias e memórias do Oriente, da África, das condições de lutas dos sujeitos de diversos territórios que vão além dos propagados a partir da centralidade que ganha a Europa e posteriormente os EUA como divulgadores da história universal a partir de seus pontos de vistas.

Elencarei, de forma didática, em 27 itens, o que entendo por meu/nosso socialismo a partir da imersão cotidiana em diversos territórios cujo viver está sitiado por diversas células políticas de afastamento do humano de sua sociabilidade inerente. Como exercício proponho o diálogo em vez do silêncio, a abertura em vez do isolamento, a reflexão em vez do dogma.
Provavelmente alguns socialismos, como práxis, não caibam no meu/nosso socialismo. O certo é que a recíproca é verdadeira. Afinal, “nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai”
27 pontos entre reticências: meu/nosso socialismo

1. Sou socialista. E tenho a convicção de que parte expressiva do que vivemos de forma naturalizada não cabe nele. Isso inclui as mesquinharias, pequenezas, visões distorcidas sobre quem sabe mais, quem chega mais perto de uma hegemonia inclusive dentro do próprio entendimento sobre o que cabe e não cabe no termo e seu real sentido/significado.

2. Sou socialista e vivo contradições reais entre uma mulher nascida para ser com os outros e educada, no modo de produção vigente, para afastar-se do outro que é apresentado/a como inimigo/a. Creio no socialismo como movimento repleto de dúvidas porque ancorado no que se vive, infelizmente uma desigualdade brutal, mas projetado para um real processo em que o viver tenha sentido para além do dinheiro, está tudo muito distante do cotidiano real.

3. No socialismo que defendo, porque vivo, a liberdade é apenas uma palavra difícil de dar significado real, difícil demais de explicar. Ela exige que a diversidade se apresente como possibilidade e que a unidade nessa diversidade não mate o plural. O avesso do avesso do que vivemos na era dos padrões estereotipados. Padrão de beleza, padrão de consumo, padrão de vida, e, não menos importante, padrão de dívida.

4. No socialismo ainda não vivido por parte expressiva da humanidade em tempos de cóleras generalizadas, a liberdade somente pode ser explicada quando vivida. E ela, a liberdade, anda de mãos dadas com a democracia. Outra palavrinha tão visivelmente inexistente, ainda que muitos a reivindiquem como espectro no mundo político-jurídico formal. No mundo em que vivemos não conseguimos nos acercar do sentido real de liberdade. E contraditoriamente todos e todas nos acercarmos mais e mais a um universo em que nos sentimos, de diversas formas, aprisionados/as.

A liberdade que defendo não trata somente do vento no rosto, do corpo no sol, do ir e vir para onde se queira. Ela a liberdade, expressão daquilo que de fato nunca tivemos, tem a ver com condições objetivas reais em que todos e todas possam de fato viver com possibilidades de escolhas: sobre o que comer, como viver, com quem relacionar-se, onde e com quem ir-vir, a quem e de que forma amar. Ela é menos direito e mais beleza, no entanto, no mundo do direito injusto, nem a liberdade é bela, tampouco a beleza é livre.

5. No socialismo, como práxis, cabe muita gente que vive de forma digna ainda que a vida os/as maltrate por tentarem, no limite de suas quase inexistências, escolher viver de formas-conteúdos distintos ao que o modus operandi lhes exigiu, definido de forma prévia a sua própria existência como ser. Esses e essas, apesar de se aproximarem aos valores socialistas, nem sequer sabem o que significa o termo, mas a dignidade que espelha dos seus olhos é socialista para mim.

6. O socialismo que comungo exige revisões pessoais e críticas contínuas exatamente porque vivo em um mundo de muitas deformações, mutilações, amputações sociais. E quanto mais me acerco dos despenhadeiros cheios de gente, às mutilações cada vez mais precoces, mas vejo que o caminho apontado como alternativa dentro dessa ordem abnega o sentido mesmo de vida. O que me torna ainda mais convicta no socialismo que defendo como transição rumo a um outro sentido de vida para muitos, até que chegue para todos e todas.

7. O socialismo que vivencio nasceu e se desenvolve no território popular, nos convívios das ruas, nas aprendizagens religiosas, antes mesmo de que eu lesse um livro de autores e autoras socialistas. Foi o convívio com muita gente que queria outro mundo que me fez enxergar que algo estava errado naquilo que todos aparentemente vivíamos como progresso. Ele nasce, como o de muitos e muitas, sem ser nominado, mas vivido no plano da desigualdade social. Ele é sempre humanista, tem um que de idealista, mas ao se fixar na aprendizagem acumulada vai desfazendo esses campos minados que insistem em co-existir tamanhas as atrocidades do mundo mercantil.

8. O socialismo a que pertenço tem raízes profundas e se ancora na compreensão de que, enquanto houver um modelo desigual de produção-apropriação privada ancorado na exploração e na opressão de muitos corpos e de muitas vidas e terras, todos os males se intensificarão.

9. O socialismo que me penetra, convoca e potencializa, parte do ponto de vista de que defender as causas populares, e nos vermos como pertencentes às mesmas, em todos os tempos-espaços-lugares que estejamos, é atuar com justiça, valores e princípios verdadeiramente humanos e solidários. O que na atual conjuntura deve implicar nossa revisão sobre o modelo de desenvolvimento que defendemos cujas raízes históricas são extrativistas, exploradoras-opressoras.

10. Meu/nosso socialismo nunca foi centrado em ocultamentos, nem em mentiras, como se houvessem duas pessoas: a que propaga uma coisa e vive outra. Não! Essa é uma prática violenta de disseminar a mentira como verdade. Não creio que a desigualdade estrutural dos planos salariais, da economia formal ou informal, seja capaz de denominar quem é mais ou menos socialista pelo tipo de consumo que consegue empreender com o que ganha com a venda ou o emprego de sua força de trabalho. Na sociedade em que vivo a medida, de fato, do ganho ou não, passa pela produção-apropriação da riqueza produzida por muitos e acumulada por poucos. E eu, como muitos e muitas, apesar de não compormos a base da pirâmide de renda dos nossos países, estamos muito distantes de integrarmos o banquete dos acumuladores de capital. Simples assim o fato! Renda é muito diferente de riqueza. Ainda que algumas rendas possam gerar posses, para que gerem riqueza, há um salto substantivo sobre o sentido e significado do viver.

11. Meu/nosso socialismo tampouco é opressor-explorador de diversos corpos no meu ou em outros territórios. Sou trabalhadora e, infelizmente, como parte de muitos/as de nós, tenho meus quinhões de dívidas. “Vivo bem, como bem, moro bem” melhor do que grande parte dos meus pares que vivem para pagar contas, sem sequer ter direito mínimo a alguma segurança no mundo do trabalho, relegados à informalidade e à exclusão. Mas, ser melhor remunerada que meus pares, não me torna ímpar em relação aos sem terras, sem tetos, sem dores/medos, dissabores. Temos em comum contas a pagar, pessoas para cuidar e vivemos sitiadas entre o que não reconhecemos mais dos sentidos que nos tornariam, em algum momento de nossa história, verdadeiramente humanos. Fomos tão endurecidos que a ternura perdeu espaço no nosso cotidiano individual-coletivo.

12. No meu/nosso socialismo há uma total divergência entre o viver e a forma mercantil que dito viver se transformou. Processo de coisificar os seres e as relações em que tudo é definido pelos preços taxados pelos donos dos monopólios que, no seu afã de fazer dinheiro virar mais dinheiro, tendem a fazer os preços subirem, às custas de nossos sofrimentos diversos, conscientes ou não disso. Deveria ser condição reflexiva pensar sobre o significado, na atualidade do “viver bem”, da “qualidade de vida” a que chegamos nessa sociedade. Em especial na condição desigual tributária sobre todo tipo de consumo, seja para circular no mercado formal e/ou informal, a regra é quem ganha menos, ao consumir, paga mais, bem mais.

Essa situação desigual, naturalizada, condiciona à indignidade parte expressiva dos seres humanos que são obrigados a pagar serviços privados, em meio a destruição dos direitos sociais, com medo de não conseguir viver minimamente caso lhes ocorra algo: se paga plano de saúde, se paga seguro de carro, se paga creche e escola para filhos, se paga plano de aposentadoria, se paga cuidados com pessoas mais novas e/ou mais velhas e, não menos importante, se paga a lápide da família em vida, já pensando no preço/peso que fica aos que permanecerem vivos após sua morte.

13. Meu/nosso socialismo é feito de indignação contra todo tipo de miséria humana cometido contra nós, contra a natureza e contra os demais seres vivos. É repleto de luta contra a coisificação da vida, dos seres, dos territórios em nome de uma ideia única e limitada de ordem e progresso.

14. Meu/nosso socialismo é cheio de perguntas: em especial sobre o que plantaremos para que as futuras gerações façam sua própria semeadura criativa e colham outros processos abrindo caminho a novos horizontes para as gerações que virão depois delas.

15. Meu/nosso socialismo nunca mandou ninguém para a fogueira, tampouco acusou as periferias como lugar de toda pobreza. E é capaz de rever e se posicionar contrariamente aos que, em nome do socialismo, utilizaram das artimanhas que tanto negamos.

16. Meu/nosso socialismo se ancora na possibilidade de trabalhar lado a lado com quem de fato vive, ao menos tenta sobreviver, em um mundo cada vez mais difícil.

17. Meu/nosso socialismo nunca desmereceu ninguém por não ser socialista e nunca usou de espaços acadêmicos como propaganda política. Mas, sim, sempre se posicionou e se posicionará. Afinal, ser, viver os princípios socialistas, expõe que temos método, ciência, consciência de que outros modos de vida foram, são e serão possíveis. E que o que se entende por desenvolvimento, técnica e tecnologia estará sempre em um grande debate aberto, em disputa. É, portanto, campo político, ato político e verdadeiramente amoroso.

18. Meu/nosso socialismo não é uma falsa ideologia, tampouco um dogma. É uma convicção do mundo da refletida-ação, de que é possível ressignificar o viver para além do ter que submeter e esmagar nosso verdadeiro ser.

19. Meu/nosso socialismo também acende alertas para dentro do campo progressista. E não aguenta mais tanta picuinha sobre quem é mais socialista, mais poderoso/poderosa, mais egocêntrico/a. Quem são ou não os/as autores/as que são as principais referências de um dogmatismo que insiste em negar muitas experiências concretas. A perda de tempo e o mal estar provocados pelas vaidades e egos no interior do que se concebe como campo progressista são tão grandes e daninhos que, infelizmente, tendem a ser mais perversos em intensidade que as próprias mazelas geradas pela forma-conteúdo do capital contra e sobre o trabalho. Ou seja, não bastasse ter que lutar para sobreviver em meio às opressões/explorações, também somos obrigadas/os a resistir às arrogantes ofensivas de quem diz ter a tutela sobre o que é e como deve ser ou sentir-se a revolução. Esse comportamento infantil e histórico tem afastado, se é que em algum momento acolheu, a maior parte dos e das trabalhadoras de uma unidade e associação programática. Cisões cotidianas de sujeitos que encontram-se em condições de trabalho precárias nas mais variadas expressões reais nos territórios de nossas cidades.

20. Meu/nosso socialismo conhece, a cada dia, novos artistas, novos autores, novos sujeitos nos seus territórios do viver. E entra em contato com experiências de resistências em todo o mundo. Assim, ao se enraizar na teoria da ação, meu/nosso socialismo cansa tanto do absolutismo da riqueza capitalista, como da prerrogativa arrogante de quem detém a patente, na esquerda, sobre ser socialista. Meu/nosso socialismo adora a batalha das ideias mas se cala ante tanto vazio de ignorar o que uns fazem com medo de que este fazer anule aquilo que sequer temos por sermos socialistas, contra-hegemônicos, portanto, à ordem vigente.

21. Meu/nosso socialismo se conjuga na terceira pessoa do plural ainda por ser reconhecida, como sujeito coletivo, porque encontra um monte de gente fazendo diversas coisas legais nos territórios.

22. Meu/nosso socialismo estuda, respira, inspira e transpira. Ao se renovar, vive, corrige e revê, continuamente, seus processos a partir da destruição do que aprendeu e da reconstrução em outros modos, coletivos, do que, no individualismo atual construiu de forma distorcida.

23. Meu/nosso socialismo não nega que há socialistas vinculados a diversas religiões e ou espiritualidades para além delas, que há pessoas que vivem o socialismo sem nunca ter se aproximado às teorias que o ancoram, e que há socialismos como campos de disputas imersos em um mundão de contradições.

24. Meu/nosso socialismo tem classe, não nega a centralidade latino-americana da raça, do gênero e da sexualidade, porque conseguiu acumular com o que antes ainda não havia aprendido tamanha as castrações pelas quais passou.

25. Meu/nosso socialismo é internacionalista mas pulsa a partir do latino-americanismo em que habitamos como territórios do viver, fazer, cujas heranças milenares, ainda vivas, nos trazem muitos processos históricos possíveis sobre o porvir. Esse desconhecido, mas nosso, mundo comum, diverso e plural latino, do ser indígenas, do ser negros, do ser mulheres, do ser popular.

26. Meu/nosso socialismo não é rede globo, não é meios de comunicação hegemônicos, não é hegemonia ainda quando se exerce a crítica à ordem vigente atual. Ele é muito distante desse jogo do poder real. Está enraizado nos mangues, nos campos, nas grotas e nos morros, territórios em que a maioria, ao ser expulsa de seu próprio ambiente, foi se assentando como “pobres” donos de novas moradas (seja país, região, seja bairros).

27. Meu/nosso socialismo não começou no século XXI, menos ainda é datado pelo socialismo real do século XX. E por isso, como socialista tenho dificuldades de entender a relação indissociável que estabelecem entre PTismo e socialismo. Conheço sujeitos socialistas que ainda disputam e constroem o PT, assim como conheço sujeitos nesse partido, cujo modelo que defendem, se ancora no capitalismo com “rosto humano”. Mas meu/nosso socialismo não é petista. E nem sei, se com o que vivo, ele teria alguma designação à esquerda hoje sem contradições. Afinal, não há nenhuma legenda partidária de direita ou de esquerda, no Brasil e no mundo, que não tenha muitas tendências em contínuas disputas no tempo. E meu/nosso socialismo é evidente na tendência que segue: o trabalho e o amor ao povo em primeiro plano, abrigado em boas companhias da filosofia da práxis. Nesse caminho estou/estamos acompanhadas por muita gente de alto escalão.

As rosas da rosa:
Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres. (Rosa de Luxemburgo)
Meu/nosso socialismo anda lado a lado com o de muita gente fantástica que sabe e explica, com diferentes níveis de abstração, por que vivemos como vivemos e o que deveríamos fazer para assim não mais viver.

No entanto, meu/nosso socialismo anda perseguido por todas as partes. Ora por ignorância, ora por pedância, ora por um mero ato (in)voluntário de negação do poder ser que necessitamos reivindicar e construir. Em tempos de crises brutais, ele, meu/nosso socialismo aparece, na superfície das relações, como algo simples como se pudesse ser visto a olho nu pelos que se consideram anti-socialistas.

Em tempo: não podemos esconder aquilo que produzimos há anos e que dá sentido à beleza de nossas trajetórias, memórias e histórias. Tampouco devemos ocultar nossas reflexões e no que de fato acreditamos e lutamos por defender. Eu, e muitos de nós, como Gonzaguinha, “acredito é na rapaziada/mulherada, que segue em frente e segura o rojão!!!”.

Reticências x Ponto Final!
Para aqueles e aquelas ávidos/as pela morte da diferença, que reivindicam o fim do socialismo em geral, ou de algum tipo de socialismo em particular, estejam dentro ou fora do campo progressista, ou na barbaridade da ideia restrita de progresso mercantil, sugiro a RETICÊNCIA como ato criativo no lugar do PONTO FINAL. A reticência é um recurso extraordinário para a política, pois permite muitas possibilidades de abrir-se para conhecer e desfechar a partir de outros lugares, referências, outros sentidos possíveis para a vida.

Vivemos tempos de intolerâncias a glútens e à lactose, mas de tolerância a diversos e violentos processos de envenenamento em massa via alimentos, via produção de mentiras como verdades.

Vivemos em tempos de estômagos, pensamentos e sentimentos atolados no mar de lama da aparência como expressão de verdade. Em tempos assim, de mediocridade dispersada por diversos âmbitos, pedir para que o ponto de interrogação seja uma possibilidade dialógica, torna-se exagerado.

Na era dos pensamentos enlatados, cujos rótulos ninguém alcança ler as instruções, comer ou medicar-se torna-se, sinônimo de botar para dentro, engolir, mas nunca será igual a alimentar-se, saborear os gostos daquilo que, com tempo e a calma que exige para ser digerido. Vale para o alimento e para o pensamento.

Em tempos de letras e pensamentos miúdos, as RETICÊNCIAS viram recurso de vida para nós, socialistas. Condição eminentemente humana de possibilidades de compreensões em aberto sobre o viver e o sentir de milhares de pessoas excluídas da condição humana pelo modo de ser/somente se ter, do capital.

Talvez, ante a barbárie de acusações sem sentidos, as RETICÊNCIAS nos salvem das fogueiras e dos pontos incisivamente finais colocados sobre o que significa ser, sentir, atuar como socialista.

TALVEZ(…).Talvez também meu/nosso socialismo, em alguma geração, consiga pensar junto e construir pontes rumo ao comunismo.

Mas há uma exclamação importante! Meu/nosso socialismo é verbo no transitivo! Transita entre a evidência da miserável condição humana atual e a possibilidade de restabelecimento da humanidade em outro parâmetro societário, com bases nas histórias da história! Meu/nosso socialismo é movimento e tem como condição de existência, em meio à barbárie, afetar-se, indignar-se ante as opressões vividas por muitos dos nossos, das nossas.

Meu/nosso socialismo é recheado de humanidade, beleza, afetos, utopias e brindes às naturezas. É verbo transitivo. E como tal, está sempre aberto ao devir. Se não for assim, não tende a ter, como princípio ativo, outra relação com a vida e os demais seres e a natureza com os quais compartilha dito viver, estejam próximos fisicamente ou não.

Meu/nosso socialismo é verbo que se conjuga, comparte, no plural. Portanto, está sempre rodeado de uma diversidade de nós. Porque é seu, e é meu, nosso socialismo agrega, diverge, mas é incapaz, na diferença, de mandar um dos seus/das suas, pela divergência, para o isolamento, o abandono, a destruição social Infelizmente essa é uma prática comum da esquerda e da direita..

Um brinde, em meios às dores, ao verbo conjugado junto: SOCIALIZAR!

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño (…)
Mercedes Sosa

 

Roberta Traspadini é professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), curso de Relações Internacionais, atualmente em cooperação técnica no Departamento de Ciências Sociais na Universidade Federal do Espírito Santo (DCSO/Ufes). Coordena o projeto Saberes em Movimento e o Observatório de Educação Popular na América Latina.



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