Software e gênero em ‘Rejeição’, de Tulathimutte
Rejeição, mais novo romance de Tulathimutte, escrito em formato de e-mail, imagina a resposta de uma casa editorial que recusa o livro que acabamos de ler
Que suspeição seja o sentimento com o qual, quase naturalmente, a crítica recebe a romancistas que almejam abordar “o contemporâneo” não parece mais dizer muito. Entre as letras estadunidenses, essa seria uma ressalva levantada ao menos desde 1996, quando o polêmico ensaio de Jonathan Franzen acerca do declínio do romance social reanimou em terras norte-americanas a posição marginal a qual ocupa a “literatura séria” no país. Quando nos deparamos com lançamentos recentes, como Vidas Tardias (cuja tradução brasileira sintomaticamente desnacionaliza o título original), as lamúrias literárias de Franzen parecem de fato vindicadas: travestidas de esforço estilístico, tentativas de crítica social facilmente mostram a miopia excessivamente endógena que parece nutrir boa parte da imaginação literária recente do país, e já não mais sabemos em que camada de meta-pós-ironia nos situar.
Em romances como Vidas Tardias, que buscam trazer luz às contradições e hipocrisias da juventude americana “alternativa”, a sátira diante da estetização política e seu consequente desengajamento parece antes se desdobrar em autopastiche. As armas da crítica, no “romance sobre o contemporâneo”, se voltam contra sua própria textualidade. Como resultado, temos ficções cuja forma supostamente “ousada” é tão ou mais tediosa e previsível quanto esta tão alienada realidade da qual creem seus autores estarem à parte.

Quão grata fora a surpresa de não ver essa fórmula se repetir em Rejeição, mais novo romance de Tulathimutte e recentemente traduzido para o português brasileiro. Não que seu autor pareça desavisado do sempre iminente risco da autoparódia, com o qual joga o capítulo conclusivo da obra. Escrito em formato de e-mail, Tulathimutte imagina a réplica de uma casa editorial, que recusa o livro que acabamos de ler. Tentador aqui seria dar espaço a uma indulgência hegeliana, e afirmar que talvez a única forma de terminar um livro com tal título seja com sua própria rejeição. Como se somente ao prospectivamente ironizar a recepção de sua obra ela possa, de fato, ser aceita. De fato, Tulathimutte explora características suas – as personagens quase sempre partilham de sua etnia, de seus interesses profissionais ou de entretenimento, e, muito provavelmente também, o autor tenha suas próprias experiências com o sentimento que dá título ao livro. Mas as boas doses de humor com as quais progressivamente entremeia tais referência permite-lhe afastar acusações de “mera autoficção” ou narcisismo literário.
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Na esteira humorística que entoa o romance, leitores da geração de Roth e Updike certamente encontrarão ecos. Tulathimutte faz parte dessa linhagem de escritores americanos que tão bem soube explorar o puritanismo sexual que assola a dita terra da liberdade, e cuja inventividade gráfica para trazer à tona os pontos onde nossos desejos se mesclam, quase em igual medida, ao bizarro e ao hilário em nada deixam dever às descrições de um Complexo de Portnoy ou Teatro de Sabbath. Os méritos particulares de Tulathimutte se encontram, no entanto, em saber dar continuidade a essa tradição sem com isso lhe perder a acidez característica. Fetiches, fixações, culpas e fantasias se atualizam pela mediação de telas e algoritmos, bem como expandem para diversos gêneros e sexualidades o que nas obras de Roth eram notadamente perspectivas heterossexuais e masculinas. Povoam as páginas de Rejeição personagens não-binários, homossexuais, incels, esquerdomachos com o mesmo esmero literário e sem se ensimesmar em seu “lugar de fala” o autor.
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Há decerto algo de uma ambivalência feliz em “gênero” – o português nos permite que designe tanto gêneros textuais quanto condutas de orientação sexual. Ambivalência essa que vem a calhar especialmente para falar sobre os méritos formais de Rejeição que, junto ao seu humor e à já comentada multiplicidade do sexual, julgo ser o ponto alto da obra. Dividido em sete conto-ensaios à sua maneira independentes, embora não sem abdicar de referências e menções internas entre si, o livro é escrito com constante recurso a “gêneros” nativamente digitais. Para além do já mencionado capítulo em formato de e-mail, há ali trocas de mensagens; posts em fóruns online; tweets. Todos com a respectiva coloquialidade que lhes cabe, passando pelo uso de emojis às abreviações empregadas por usuários. Mais do que mero floreio estilístico, no entanto, Tulathimutte encontra uso inovador para tal multiplicidade textual: vemos como anseios e desejos são progressivamente gramaticizados de acordo com as plataformas de escolha. A ideia aqui seria aproximar literatura e software enquanto dispositivos de subjetivação, ou seja: enquanto modos de produção de desejo e de individuação.
Que a literatura exerça papel constitutivo em nossas subjetividades parece-nos hoje lugar comum: leitores certamente lembrarão do amor-romântico como uma invenção (ao menos parcialmente) literária, do Werther de Goethe à Crepúsculo e as fanfics de Wattpad; dos modos específicos de intersubjetividade ensejados pela prática epistolar; de formas de sofrimento, como o bovarismo desde Flaubert ou à textualização da tuberculose na literatura vitoriana. O que ainda permanece incerto até agora – ou ao menos permanecia, até Rejeição – seria a maneira como engajamentos textuais digitais cumprem papel similar.
Se a modernidade reconhecera na literatura sua máquina gramatical por excelência, hoje este papel parece ser assumido por softwares. Dentre os contemporâneos de Tulathimutte que partilham desta intuição, destaca-se também Damion Searls, cuja estreia em Analog Days (ainda sem tradução prevista) acompanha a trama de nativos digitais relutantemente fazendo as pazes com a nostalgia fetichizada pelo analógico. Se para a geração de Searls, tal como em sua novela, o blog seria o “gênero” literário de internet por excelência, Tulathimutte avança em territórios atualmente em voga, como redes sociais e fóruns anônimos. Pois talvez seja hora de levarmos a sério como o Twitter e os chans estejam para Bee e Craig, personagens de Tulathimutte, tal qual os diários estiveram para o Malte de Rilke ou para o Humbert, de Lolita.
Mais do que condená-los como a causa de todo o mal (como faz o mesmo Franzen com que iniciei esta resenha) ou mesmo ignorá-los do alto de nossa torre de babel, cabe-nos perguntar pelas condições de possibilidade para reinvenção que nos ofertam os novos gêneros de internet. Sem talvez o medo de cairmos no tão característico autopastiche que assombra a literatura “crítica” americana no século XXI. Em Rejeição, Tulathimutte não parece temer nada, abrindo antes novos (e tão aguardados) caminhos para experimentação formal. Caminhos através dos quais, com sorte e talvez resistindo aos e-mails de rejeição, o romance social “contemporâneo” possa ainda exibir fôlego crítico.
Pedro Pennycook é doutorando em filosofia na Universidade do Kentucky.

