Somente nos cinemas
Em A menor das tempestades, novo livro de Josoaldo Lima Rêgo, a estética elucida tempos ásperos
A mesa “A pedra dá à frase seu grão mais vivo”, dos poetas Edmilson de Almeida Pereira e Josoaldo Lima Rêgo, mediada pela autora de Ano passado, Júlia de Carvalho Hansen, no festival Poesia no Centro, teatro Cultura Artística. Auditório cheio e o tempo aberto na rua Nestor Pestana, que ladeia a praça Roosevelt. Vozes, aplausos e textos que, assim como as nuvens, disseram a que veio. O ar quente e úmido encontrou o frio seco de São Paulo para agradecer os grãos ditos em pedra, papel e poema. Segundo Davi Arrigucci Jr., “a poesia é capaz de nos dar uma coisa que só ela dá”. Assim, A menor das tempestades arrasta em direções diversas as sedimentações do mundo. Estamos, então, em algum lugar entre a Linha do Equador e o Trópico de Capricórnio. Em terra que só é possível aplacar Gravuras, primeiro capítulo da obra:
“A chuva nunca passa
Da janela da escola
toda manhã é longa”
“A encosta no caminho
guarda a ponta de osso
da história do lugar”
Josoaldo Lima Rêgo proporciona uma espécie de fotografia crônica de coisas, lugares e sentimentos que só poderiam ser ditos por estética lapidada à mão, do fio à meada, letra a letra. É possível voltar à infância e sentir o cheiro da folha impressa na engrenagem do mimeógrafo, ouvir o barulho da chuva batendo na janela da escola, tatear o caderno, lápis, ruídos de apontador. Dia de prova ou exercício valendo nota, o relógio que parece se movimentar apenas quando saímos de lá, morada de segundos distantes. Sinal de fim da aula e o caminho da volta em imagens que podemos enxergar na ribanceira do bairro. O autor percorre um país de miudezas proporcionais a uma máquina de fazer palavras: “a língua segue em faísca”.

“viagem sem fole
o som guerreia
a sanfona não verga
forró no canavial
virada no cão
uma rabeca
braba cantiga
a viola reproduz o giro
do vento no Jacarandá
som de mangue
mergulho na lama
outra longe infusão”
O segundo capítulo, “A menor das tempestades”, título que dá nome ao livro, parece sonorizar uma terra fundada na lama do mangue, rufando os tambores do maracatu de baque solto, de lanceiro, caboclo de lança, extraindo componentes da cultura de um Brasil profundo, dos trabalhadores rurais, das mãos que cortam a cana-de-açúcar, no timbre da rabeca e, cenário que remete também à Siba e a Fuloresta: “Cruzeiro, cruzeiro da Bringa; no batente da capela; eu acendi uma vela; pelo que aconteceu. Voa a cigarra; quando lembra da batalha; como se rasga a mortalha; com quem brigando morreu.” Infusão em território do sol e do diabo, demonstrando habilidade de filmar com as palavras, e, no horizonte, o vento balançando as folhas do Jacarandá. O fole roncou sobre um nordeste que não é pitoresco, conexão bluetooth na lama. De fina estética, meticulosamente cronometrado ao seu tempo, vislumbrando a beleza simples ou doméstica, tão perto da gente, o semantizar da fábula.
“Muitas vozes” é o derradeiro e memorável capítulo, onde vemos uma fotografia de Claudia Andujar, fotógrafa que dedicou grande parte da vida aos Yanomami e uma das principais de sua geração.
rosto e lâmina
olhos imensos
de fogo
e
equilíbrio
breve voo
sobre
a grande rodovia
do Norte
desaparecer é
o começo o ritual
a técnica
Josoaldo Lima Rêgo escreve mais com substantivos do que com verbos, que são lotados de coerência poética em cosmos que não vemos facilmente por aí. Para se ler no Sudeste, onde a maior comunidade nordestina vive, maior que a da Liberdade, inclusive, vale ressaltar ao leitor que será preciso enxergar além dos semáforos, do trânsito, dos aplicativos de fast-food, dos carros importados e dos viadutos costumeiros, ou ainda das problematizações da classe média, presa ao seu modo de vida e aos valores morais tão presentes na ficção produzida na metrópole. “A menor das tempestades”, freneticamente imagética, está em cartaz e pode colocar a sua pipoca longe do guaraná. Obra que pode ser acompanhada por um delicioso cuscuz com manteiga de garrafa. Afinal, a poesia brasileira é capaz de dar ao mundo uma coisa que só ela dá, e Josoaldo é uma voz de força e multidão.
Sobre o autor:
Josoaldo Lima Rêgo nasceu em Coelho Neto (MA), em 1979. Poeta e geógrafo, publicou, pela 7Letras, os livros Paisagens possíveis (2010), Variações do mar (2012), Máquina de filmar (2014), Motim (2015), Carcaça (2016) e Sapé (2019). Já pela Editora 34, A menor das tempestades (2024). É professor na Universidade Federal do Maranhão.
Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). É colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

