“Somos todos gregos” - Le Monde Diplomatique Brasil

DUZENTOS ANOS DE UMA GUERRA DE INDEPENDÊNCIA QUE AINDA DESPERTA PAIXÕES

“Somos todos gregos”

Edição 164 | Grécia
por Samuel Dumoulin
1 de março de 2021
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Há dois séculos, em março de 1821, os gregos levantaram-se para acabar com a dominação otomana. Com oito anos de duração, essa guerra de independência fascinou diversos intelectuais europeus. Alguns, como o poeta Lord Byron, decidiram até juntar-se aos combatentes. Como explicar tamanho entusiasmo?

“Quem se lembra hoje da emoção que apenas o nome ‘Grécia’ despertava, entre 1821 e 1829?”, perguntava-se Edgar Quinet em 1857.1 O entusiasmo era intenso, queimava para aqueles que, tal como o poeta britânico Lord Byron, uniram o gesto à palavra a ponto de ir morrer junto aos muros de Mesolóngi. Seu objetivo: ajudar os gregos a se livrarem da opressão turca. No início do século XIX, o Império Otomano já havia ultrapassado o Mar Egeu havia quatro séculos. Reinava absoluto sobre a população grega ortodoxa, apropriando-se de suas terras e restringindo seus direitos. Em 1821, quando os gregos se revoltaram, logo receberam muitos apoios do resto da Europa. 

As origens desse movimento, denominado filelenismo, são múltiplas. Antes de tudo, a esperança de que a revolta grega pudesse reacender a chama da contestação em um continente que sufocava sob a proteção da Santa Aliança. As potências que venceram Napoleão – Áustria, Prússia, Rússia e Inglaterra em particular – empenharam-se, após a Batalha de Waterloo, em restabelecer a ordem no Velho Continente. As três primeiras decidiram, em 1815, ser “solidárias na manutenção da ordem pública”, isto é, sufocar qualquer início de chama revolucionária, se necessário recorrendo a uma intervenção militar. Os 23 anos de guerra (1792-1815) que incendiaram a Europa surgiram, segundo elas, das centelhas da Revolução Francesa. Para que o continente recuperasse a paz, a chama revolucionária deveria ser apagada.

Klemens von Metternich foi o principal guardião da Europa. Chefe do governo austríaco e verdadeira alma da Santa Aliança, ele elaborou essa política durante o Congresso de Viena (outubro de 1814 a junho de 1815). Fez do conservadorismo sua religião: “O primeiro elemento moral em mim é a imobilidade”, admite em suas memórias. Mais jovem, havia sido embaixador na França, país que permaneceria a seus olhos “a grande fábrica de revoluções, a caverna de onde sai o vento que sopra a morte sobre o corpo social”.

Oficialmente, o Reino Unido, que se vangloriava de ter uma abordagem mais liberal das relações internacionais, não figurava entre os novos guardiões da Europa. Entretanto, seu ministro das Relações Exteriores, lorde Castlereagh, não se distinguia muito dos membros continentais da Santa Aliança: “O acordo atual das potências é a única segurança perfeita contra as brasas revolucionárias que estão incubando mais ou menos em todos os Estados da Europa”. Uma única tática, portanto: “Deixar de lado as pequenas rivalidades dos tempos ordinários e… juntos apoiar os princípios estabelecidos da ordem social”.2 Nos anos que se seguiram ao Congresso de Viena, os fragmentos da revolução, ex-sans-culottes da França, espalhados pelos golpes da repressão, só se reuniam sob a forma de sociedades secretas, desprovidas de eficácia política.

Crédito: Unsplash
O turco, bárbaro primitivo

A Grécia, porém, despertou! Justamente uma sociedade secreta, a Filiki Eteria, nascida alguns anos antes em Odessa, aproveitou-se de uma rebelião em Epiro – ocupada pelas tropas do sultão Mamude II – para dar o sinal da insurreição. Em um mês, em abril de 1821, todo o país estava conflagrado. Imediatamente, os intelectuais, os artistas e os jornalistas do Ocidente se declararam a favor da nação helênica. 

Eugène Delacroix, em seu quadro O massacre de Quios – não se sabe se sua fama se deve ao manifesto estético que ele representa ou ao grito de indignação que lança – denuncia o calvário dos habitantes de uma pequena ilha grega escolhida pelo sultão para servir de exemplo. Duas exposições, reunindo mais de cem quadros com temas gregos, foram especialmente organizadas; a primeira recebeu 30 mil visitantes.3 Os homens das letras não ficaram para trás. Charles-Augustin Saint-Beuve, Alfred de Vigny, Alphonse de Lamartine, Gérard de Nerval, o cancioneiro Béranger, mas também Benjamin Constant, Jean-Baptiste Say e François-René Chateaubriand: todos mergulharam suas penas no Mediterrâneo para estender o canto homérico. Em 1829, ápice da mobilização literária, Victor Hugo publicou Les orientales. Oito anos antes, um jornalista ironizava: “Aposto que o número de odes já ultrapassa o número de soldados armados que a Grécia dispõe para se opor a seus cruéis opressores”.4 Ao todo, mais de quatrocentos livros e brochuras relativos à Grécia foram publicados entre 1821 e 1830.5

Como explicar tal admiração? É que a Grécia, aos olhos de grande parte da elite cultural ocidental, era uma terra à parte. O poeta britânico Percy Shelley, autor de um poema intitulado “Hellas”, resumiu, em 1822, o sentimento comum: “Somos todos gregos. Nossas leis, nossa literatura, nossa religião, nossas artes têm suas raízes na Grécia”.6 A dívida contraída com a pátria de Péricles jamais poderá ser honrada. Shelley prossegue: “Se a Grécia não tivesse existido, seríamos ainda selvagens e idólatras”. Enfim, os intelectuais ocidentais celebraram menos o combate de uma população oprimida que o esplendor da civilização antiga à qual eles próprios se apresentavam como herdeiros.

Tal concepção levou a pintar o adversário com os traços de um inimigo da civilização – sobretudo se ele fosse muçulmano. A vontade de lutar contra o islã atraiu uma parte daqueles que, levando o engajamento ao extremo, tornaram-se voluntários e embarcaram para o Oriente com uma cruz vermelha pendurada no peito. Longe de se opor, a exaltação idealista da Antiguidade grega e a acusação de que o turco era um bárbaro primitivo constituíram as duas faces de uma mesma lâmina, a qual Chateaubriand manejou sem nenhuma delicadeza: “Nosso século verá hordas de selvagens destruírem a civilização renascente de um povo que civilizou a terra?”.7

Com uma opinião pública atiçada pela imprensa que restabelecia os fatos com muita imaginação – as atrocidades cometidas pelos gregos eram, por exemplo, sistematicamente mantidas em silêncio –, os comitês de apoio se multiplicaram dos dois lados do Atlântico.8 Eles organizaram coletas e improvisaram uma ajuda humanitária antecipada (víveres, vestimentas, fundos). No entanto, além do auxílio pontual a populações sofridas, o movimento perseguia um objetivo mais ambicioso, cujo fracasso Victor Hugo resume em verso: “Em vão mendigamos um exército a nossos reis”. Pois esse era exatamente o objetivo dessa mobilização: forçar os governos da Europa, cujo poder de fogo era mais impressionante que o dos sucessores de Lord Byron, a prestar socorro aos gregos, correndo o risco de entrar em conflito com a Sublime Porta, o Império Otomano.

No início, para os principais dirigentes europeus, o equilíbrio geopolítico continental devia ser preservado. Foi resultado de uma sábia dosagem estabelecida durante o Congresso de Viena, o qual, aliás, garantiu as fronteiras turcas. Além disso, tal intervenção poderia ser compreendida como um sinal verde à subversão: para Metternich, isso era impensável. Ainda mais pelo fato de que os insurgentes declaravam se inspirar na Revolução Francesa – alguns de seus textos foram diretamente traduzidos das Constituições de 1789 – e sonhavam com uma república. Os dirigentes da Santa Aliança julgaram então fundamental esperar, embora a confissão cristã das vítimas do sultão atormentasse alguns deles. Quando, em janeiro de 1822, uma delegação grega foi enviada ao Congresso de Verona “para pedir a ajuda da Europa cristã, ela nem foi recebida”, relata a historiadora Anne Couderc.9 Somente o Reino Unido reconheceu aos gregos, em 1823, o status de beligerantes.

Três anos depois, golpe de cena. Em 1826, Londres rompeu com a frente unida das potências continentais e estabeleceu um acordo secreto com a Rússia que previa a criação de um Estado grego subordinado ao Império Otomano. A manobra britânica visou prevenir uma intervenção unilateral do novo czar Nicolau I e tirar a liderança europeia da Áustria. Se a França, reintegrada ao Acordo Europeu em 1818, se uniu à iniciativa anglo-russa, não foi o caso da Prússia nem da Áustria, que temiam que essa promessa de autonomia grega se transformasse em independência real. E então, lamentou Metternich, com “a emancipação política dos gregos, o triunfo de uma nova revolução na Europa será consumado”.

O futuro lhe daria razão sobre um ponto: o processo desencadeado pelo protocolo secreto de São Petersburgo não se traduziu unicamente na morte da Santa Aliança, que desapareceu de fato. Conduziu também à independência grega, com peripécias militares que incluíram, após a recusa do sultão, a destruição da frota otomana (aliada aos navios egípcios) por uma esquadra anglo-franco-russa na Baía de Navarino, em 20 de outubro de 1827, seguida de uma guerra russo-turca (1828-1829), ao fim da qual o Império Otomano teve de se render.

No entanto, esses eventos teriam consagrado o triunfo dos intelectuais filelenos e o advento da “aliança liberal” temida por Metternich? A natureza do jovem Estado grego permite responder. Proveniente do Protocolo de Londres, assinado em 3 de fevereiro de 1830 entre o Reino Unido, a Rússia e a França, a Grécia independente se tornou uma monarquia. À sua frente, as potências signatárias queriam um príncipe oriundo das famílias reinantes da Europa. Como Leopoldo de Saxe-Coburgo Gota renunciou ao trono da Grécia para se tornar rei da Bélgica, após algumas hesitações, Oto, filho de Luís I da Baviera, assumiu o poder. O jovem rei – com 17 anos – desembarcou em Nafplio, no Peloponeso, em fevereiro de 1833, e só outorgou uma Constituição a seu país dez anos depois. A nova nação revelou-se limitada no plano territorial e pouco viável economicamente. Englobava apenas um terço daqueles que então se consideravam gregos.10 As cantilenas dos escritores liberais em favor da “civilização” levaram a uma derrota do liberalismo político. E os gregos tiveram de esperar até 1875 para conhecer um regime parlamentar. Nós exaltamos a Grécia, louvamos o Partenon, seguimos os passos de Ulisses e Aquiles; herdamos uma monarquia absoluta de direito divino, que era também apenas um Estado simbólico.

O embaixador da Rússia em Constantinopla, que não concordava com a acusação austríaca de excessiva tolerância, resumiu nestes termos a estratégia conduzida por seu país a partir de 1826: “Restaurar e consolidar a ordem de duas maneiras: colocar um termo aos escândalos e às cenas violentas que fariam a humanidade estremecer, e destruir a revolução na Grécia, estabelecendo ali um governo compatível com os projetos magnânimos das potências e a paz da Europa”. Enfim, tudo deveria mudar para que tudo ficasse como estava…

Reduzidos à condição de súditos pelas monarquias autoritárias que haviam presidido o nascimento de seu Estado e privados de uma definição política de sua associação, os helenos foram reconduzidos, no início de sua independência e à guisa de identidade compartilhada, a um pertencimento étnico supostamente comum. Atrelada à frustração gerada pela estreiteza territorial do novo Estado, a emergência de uma identidade grega fundada em critérios étnicos continha a semente do nacionalismo. Este iria irromper durante a segunda metade do século sob o nome de “Grande ideia”, o sonho de reunir em um mesmo reino todos os gregos da Europa e da Ásia. Ao glorificar no Ocidente uma Grécia eterna e imaginária, poetas e propagandistas indiretamente foram os promotores disso.

 

*Samuel Dumoulin é professor de História no ensino médio francês.

 

1 Citado por Hervé Mazurel, “‘Nous sommes tous des Grecs’. Le moment philhellène de l’Occident romantique, 1821-1830” [“Somos todos gregos”. O momento fileleno do Ocidente romântico, 1821-1830], Monde(s), n.1, Rennes, 2012.

2 Eric J. Hobsbawm, L’Ère des révolutions, 1789-1848 [A era das revoluções, 1789-1848], Hachette, Paris, 2002 (1. ed. 1969).

3 Denys Barau, “Médiatisation de la guerre d’indépendance grecque et mouvement philhellène” [Midiatização da guerra de independência grega e movimento fileleno], Le Temps des Médias, n.33, Paris, inverno de 2019.

4 Le Miroir, 9 dez. 1821. Citado por Frédérique Tabaki-Iona, “Chants de liberté et de solidarité, pour la Grèce et la Pologne” [Cantos de liberdade e de solidariedade, para a Grécia e a Polônia], Mots. Les Langages du Politique, n.70, Paris, 2002. 

5 Denys Barau, op. cit.

6 Citado por Hervé Mazurel, op. cit.

7 François-René de Chateaubriand, Note sur la Grèce [Nota sobre a Grécia], Le Normant, Paris, 1825.

8 O movimento fileleno, verdadeiramente internacional, teve, ao longo de todo o conflito, várias bases sucessivas: Suíça, Londres, Paris e enfim o nordeste da América.

9 Cf. Anne Couderc, “L’Europe et la Grèce, 1821-1830. Le Concert européen face à l’émergence d’un État-nation” [A Europa e a Grécia, 1821-1830. O acordo europeu diante da emergência de um Estado-nação], Bulletin de l’Institut Pierre-Renouvin, n.42, Paris, outono de 2015. As citações do parágrafo seguinte são provenientes, salvo menção contrária, desse estimulante artigo.

10 Hervé Georgelin, “Réunir tous les ‘Grecs’ dans un État-nation, une ‘grande idée’ catastrophique” [Reunir todos os “gregos” em um Estado-nação, uma “grande ideia” catastrófica], Romantisme, n.131, Paris, 2006.



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