Suco detox e cardio training, o novo espírito da burguesia - Le Monde Diplomatique

SUAR, MAS EM BOA COMPANHIA

Suco detox e cardio training, o novo espírito da burguesia

por Laura Raim
agosto 1, 2018
Imagem por Daniel Kondo
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Competição ou solidariedade, culto do resultado ou do esforço, reino do individualismo ou aprendizagem do espírito de equipe? As forças políticas há tempos disputam os valores associados ao exercício físico. A ascensão das academias de luxo sugere uma retomada do entusiasmo burguês pelo corpo. As performances e a boa saúde justificariam o status social

“Equilíbrio do corpo e da mente”: essa é a promessa feita pelo que a revista de moda Vanity Fair chamou de “a academia mais sexy de Paris”.1 Localizada em uma mansão classificada como monumento histórico no nono distrito de Paris, a Blanche é a caçula da família Benzaquen, pioneira do fitness de luxo. Por trás da cintilante fachada art nouveau, um design ultracontemporâneo que mistura aço, concreto e granito contrasta elegantemente com colunas de mármore, espelhos convexos, afrescos e outros ornamentos originais.

Assim como na Klay, o segundo espaço da Benzaquen, lançado em 2009 no bairro parisiense de Montorgueil, um número fechado de 2.500 membros garante o conforto de estar sempre entre os seus e jamais em uma sala lotada. Mas as tarifas são um filtro ainda mais eficaz: 1.810 euros por ano. Menos que os 4.400 euros que é necessário desembolsar para a primeira matrícula anual na Ken, fundada pela mesma família em 1985 no 16º distrito de Paris. Porém, mais que os 800 euros de uma academia de nível médio da rede Club Med Gym (CMG) ou os 120 euros da opção “horário especial” da low cost Neoness. Entre as paredes da Blanche ou da Klay, constrói-se uma nova relação com o corpo, inscrita na legitimação das hierarquias sociais.

Quando questionados, os frequentadores dessas academias de alto nível explicam de bom grado que apreciam o savoir-vivre dos membros: pessoas “educadas”, que “não se metem demais”. Além disso, há “o ambiente agradável”, arejado e iluminado. Uma decoração “de bom gosto”, trabalhada com cuidado: na Klay, vigas de metal, um imenso telhado de vidro, tetos de tijolos em abóbada de ogiva. “Era um universo industrial, que lembrava uma mistura entre [os filmes] Fame e Rocky, daí o nome, que remete a Cassius Clay, como se chamava originalmente Mohamed Ali”, explica Arthur Benzaquen. “Por isso, desenvolvemos um programa esportivo em torno do boxe, da superação de si mesmo, do desempenho e do suor.”

“Um potencial Instagram monumental”

Nada a ver com o espírito refinado da Blanche, instalada na mansão burguesa do editor musical Paul de Choudens, que inspirou “um programa de equilíbrio, harmonia e bem-estar”. A atração do lugar: uma pequena piscina de borda infinita no porão, projetada como uma “caverna de meditação”, nas palavras de Benzaquen. A piscina, equipada com jatos de hidromassagem e cercada por granito preto, descansa na penumbra, iluminada apenas por um dramático sistema de iluminação natural moderno. “Quando você está sem peso na água, é mais fácil se soltar, e pode-se fazer respirações mais profundas, trabalhar a apneia”, destaca o proprietário e conhecedor do assunto. Um trabalho respiratório dos mais fotogênicos: o “potencial Instagram” do lugar é “monumental”, como diz a Vanity Fair.2 Arthur Benzaquen não esconde: “Não queremos acompanhar tendências, e sim lançá-las”.

Seguindo a trilha aberta pela Klay e pela Blanche, as academias de outrora deram lugar a “espaços de convivência”, incrementados com spas, salões de cabeleireiro, bares e restaurantes. Locais aonde não se vai apenas para gastar calorias, mas se pode trabalhar e, às vezes, até fazer reuniões profissionais – a área do restaurante é aberta a não membros. A Klay promove leituras e instalações artísticas, enquanto a Blanche conta com uma pequena sala de cinema privada no último andar. A academia pode até converter-se em espaço de eventos para ocasiões especiais, como o vigésimo aniversário da marca Pump, da Reebok, em 2009, ou, mais recentemente, o nono aniversário de inauguração da academia, comemorado no final de junho “para coincidir com a fashion week” (semana durante a qual estilistas de moda apresentam suas novas coleções). Nessa noite, um felizardo ganhou em sorteio uma associação anual à academia, além de uma garrafa magnum de Miraval, o vinho rosé produzido no domínio provençal dos atores Angelina Jolie e Brad Pitt. A sinergia entre esporte e festa logo mostrou seus limites: como não bebia álcool, o agraciado ficou satisfeito em aceitar a assinatura, mas recusou educadamente a garrafa. Sem dúvida, seria mais adequado oferecer um smoothie de proteína, bebida muito apreciada pelos membros da Klay. Mas a festa na academia pode ser um conceito lucrativo: nos Estados Unidos, membros de academias passaram a usá-las para comemorar o aniversário. Seus amigos são convidados a se juntar a eles para uma série de burpees (exercícios que consistem em encadear um agachamento, uma prancha, uma flexão, um novo agachamento e um salto).

Orgulhosa em resistir à “spaização” (transformação em spa) e manter-se como uma “verdadeira academia”, a Usine, principal concorrente da Klay no nicho das academias elegantes que combinam charme antigo e design apurado, experimenta o mesmo sucesso. Seus fundadores, Patrick Rizzo e Patrick Joly, abriram, em 2004, um primeiro endereço no bairro da L‘Opéra de Paris, numa antiga fábrica da Huileries de Fécamp, depois outro em Beaubourg, no que fora o banco privado de John Law no início do século XVIII. “Temos muita gente famosa aqui”, delicia-se Rizzo, após cumprimentar no saguão de entrada Dominique Caignart, diretor do Banque Publique d’Investissement. A Usine seduz o banco, mas também o showbiz: “Kim Kardashian e Kanye West frequentaram nosso espaço quando estiveram em Paris”, não se esquece de acrescentar nosso guia.

Segundo relatório da EuropeActive-Deloitte, 8,5% da população francesa se matriculou em uma academia em 2017, contra 13% na Alemanha, 14,7% no Reino Unido e 17,5% nos Estados Unidos. Apesar de seu atraso, nos últimos anos o mercado francês tem passado por um boom nas grandes cidades: “Quando abrimos a Usine Opéra, em 2004, havia vinte academias em Paris. Hoje são trezentas”, revela Rizzo. De acordo com a empresa de auditoria e consultoria Deloitte, em 2016 a França tinha 5,46 milhões de praticantes de esporte em recinto fechado, ou seja, 5% a mais do que em 2015. Crescimento impulsionado sobretudo pelas marcas low cost, mas também, em menor medida, pelo aumento dos estabelecimentos de luxo, normalmente em Paris: a Usine prepara-se para abrir um terceiro espaço em um prédio revitalizado da estação Saint-Lazare; os irmãos Benzaquen, uma quarta casa no Boulevard Raspail. Indicador adicional da gentrificação do leste de Paris, o bairro do Canal Saint-Martin abrigará em setembro a inauguração de um Social Sport Club. No programa dessa antiga fábrica de balões de ar quente, encontramos: “Música, drinques e quadríceps”, além de “quinoa, alegria e [músculos] isquiotibiais”.

Paralelamente às academias generalistas, desenvolvem-se espaços especializados. Mais de uma centena de academias de crossfit surgiu no país. Segundo seu inventor, o ginasta Greg Glassman, essa modalidade intensa que combina levantamento de peso, ginástica e corrida prepara “não apenas para o desconhecido, mas para o incognoscível”.3 As academias de white collar boxing (literalmente, “boxe de colarinho-branco”) são populares entre muitos executivos e diretores. Do ponto de vista do cuidado com a forma, “o boxe cobre todas as casas: condicionamento aeróbico, emagrecimento, fortalecimento muscular”, enumera Cyril Durand, fundador das academias Temple Noble Art, refutando a ideia de que se trata de fitness: “Somos um verdadeiro clube de boxe”, diz o orgulhoso empresário trintão, admirador da “coragem” de seus membros, que ousam “sair da zona de conforto” e subir ao ringue.

Rompendo com a imagem hippie do passado, os estúdios de yoga design vicejam. Eles oferecem mais de cinquenta métodos, que vão das tradicionais hatha yoga e ashtanga yoga até as versões mais originais – e muitas vezes patenteadas –, como a bikram yoga, praticada em salas aquecidas a 40 °C, a strala yoga, desenvolvida por uma modelo nova-iorquina, ou ainda a warrior yoga, inventada por uma ex-bailarina do cabaré parisiense Crazy Horse.

Em três anos, o spinning imersivo conseguiu reciclar a boa e velha bicicleta ergométrica, transportando-a para um ambiente com som e luz de discoteca. Nos estúdios da rede Dynamo, a sessão de 45 minutos se passa em uma área exígua mergulhada na escuridão, brevemente iluminada pelos flashes regulares de um spot. Quarenta bicicletas apontam para a plataforma onde pontifica o treinador-DJ, munido de seu MacBook e de um headset para guiar as pedaladas, flexões e levantamentos de peso, mas também para transmitir instruções mais espirituais. No estúdio do nono distrito onde estivemos uma manhã, “John” nos convidava, com rap e música eletrônica de fundo, a “amar a criança de 7 anos em nós” e a “nos fortalecermos fisicamente para nos fortalecermos mentalmente”.

Se a ideia do corpo como matéria a ser aperfeiçoada remonta a Esparta e desdobra-se no Iluminismo, as primeiras ginásticas foram desenvolvidas no contexto da racionalização científica das atividades humanas no século XIX. “Elas estão em grande parte subordinadas, para os homens, a fins militares (na França, a vingança contra a Prússia, no final do século XIX) e, para as mulheres, higienistas (preparar o corpo para o parto)”, resume o sociólogo do esporte Philippe Liotard. “A popularidade das academias privadas na França é muito mais recente, com o esporte, sob todas as suas formas, tendo sido apoiado por um denso tecido associativo.” Desde a década de 1950, de fato, a Federação de Ginástica Voluntária, precursora do fitness, oferecia cursos baratos, inspirados em um método sueco, em milhares de seções locais – um legado das políticas de democratização do esporte colocadas em prática pela Frente Popular. Nomeado em 1936 como primeiro subsecretário de Estado para a organização do lazer e dos esportes, o socialista Léo Lagrange mandou construir centenas de piscinas e estádios públicos para “permitir que as massas da juventude francesa pudessem encontrar na prática esportiva a alegria e a saúde”.4 “Uma concorrência desleal que criou uma zona sem igual”, pragueja Rizzo, lamentando a “cultura da gratuidade” na França, onde grassaria o infeliz hábito de “ver o esporte como um direito”.

No início dos anos 1980, Rizzo e Joly fundaram os primeiros Gymnase Clubs (depois chamados de Club Med Gym e, em seguida, de CMG), oferecendo aparelhos de musculação e cardio training (principalmente para os homens) e aulas de aeróbica (principalmente para as mulheres). “Foi o movimento da aeróbica que inaugurou a fase de mercantilização da boa forma. Não apenas a prática esportiva foi transferida para as academias privadas, como também passou a ser necessário ter a roupa certa, o sapato certo…”, explica o sociólogo Christian Bonah. Fazendo fama nos Estados Unidos, na década de 1970, por causa dos vídeos da atriz Jane Fonda, essa prática desenvolvida por um médico do Exército dos Estados Unidos teve o mérito de libertar as mulheres da cultura misógina da magreza, mostrando que elas poderiam ser sexy e musculosas.

O fenômeno atravessou o Atlântico na década de 1980 graças ao programa de TV Gym Tonic, apresentado por Véronique e Davina no canal Antenne 2 (futuro France 2), que colocou em movimento mais de 10 milhões de espectadoras em frente a seus televisores todas as manhãs de domingo. Isso porque a década iniciada pela eleição de François Mitterrand e pelo alinhamento dos socialistas franceses às lógicas de mercado “foi também a década da espetacular convergência entre esporte e dinheiro”,5 analisa o historiador das ideias François Cusset. Convergência que cristalizou a notável passagem do golden boy francês Bernard Tapie pelo Gym Tonic, em 17 de junho de 1984: “Bernard Tapie, conhecido homem de negócios, que dirige um monte de empresas, com um visual e uma forma incríveis. Como você faz isso?”, perguntavam as apresentadoras-ginastas. “Antes de mais nada, eu sou atlético”, respondia o convidado, enxugando a testa. “Isso talvez tenha me permitido, aliás, gozar de um estado de espírito que difere um pouco daquele de meus colegas. Porque no esporte aprendemos que o estado de espírito, a mente, a inteligência, nada disso existe fora do corpo. Na verdade, tudo é reflexo do estado de saúde de seu corpo. É indispensável estar fisicamente bem se você quiser estar mentalmente disposto.”

 

A saúde é a nova riqueza

Hoje, aeróbica com leggings fluorescentes e sorrisinho forçado parecem uma coisa ultrapassada e um tanto embaraçosa. A imagem de uma prática fora de moda reservada aos admiradores de Jane Fonda ou aos fãs do fisiculturista Arnold Schwarzenegger puxando ferro está gradualmente desaparecendo. “Os excessos caricaturais do entusiasmo dos primórdios”, suspira Rizzo com ternura. Mas as coisas mudaram ou foram refinadas? Como a Usine, a Klay comemora atrair muitos atores, criadores e artistas, como Thomas Lélu, artista plástico e fotógrafo que expôs no Palais de Tokyo; na academia também podemos encontrar algumas de suas obras. Mas o estabelecimento vive principalmente da assinatura de executivos e banqueiros, em busca, como Tapie, de um corpo capaz de acompanhar sua “mente”.

“Por muito tempo, os locais dedicados ao fitness foram considerados apenas lugarzinhos pequeno-burgueses para mães entediadas ou de preparação física para um ‘verdadeiro esporte’, ou seja, um esporte competitivo ou ao ar livre, na natureza”, avalia Joly. “Levamos décadas para que o fitness fosse reconhecido como um esporte em si.” De fato, se a sala de fitness absorveu os esportes existentes – transformando a caminhada em step e o ciclismo em spinning –, os exercícios concebidos para manter a forma ou perder peso passaram a ser considerados modalidades competitivas: “Agora, fitness virou esporte”, dizia em 2012 um slogan da Reebok, que acabava de criar campeonatos mundiais de crossfit.

Desde os primeiros Gymnase Clubs, o cuidado de si sofisticou-se, captando a aura esotérico-espiritual das práticas orientais (da ioga ao jiu-jítsu), mas também adotando, em um registro menos zen, os códigos da virilidade militar, com aulas de boot camp, nome do método de condicionamento físico utilizado pelo Exército norte-americano. Sob a pressão da concorrência, a oferta de cada sala não para de se diversificar, lançando mão de inovações tecnológicas (e linguísticas). Até mesmo uma marca como a Neoness oferece mais de quarenta atividades. Enquanto as academias low cost compram licenças de zumba, body pump ou sh’bam para oferecer cursos padronizados, as academias de luxo gabam-se de proporcionar experiências “únicas”, importando com exclusividade técnicas patenteadas. Na Klay, a antigravity fitness, vinda de Nova York, permite fazer ioga aérea pendurada de cabeça para baixo com um arnês. Algumas desenvolvem suas próprias criações: o u’stretch, da Usine, “permite aumentar a temperatura intramuscular e colocar em alerta diferentes sistemas de controle do corpo (propriocepção)”, enquanto a breath and stretch da Klay mistura shiatsu e sofrologia. O potencial para cruzamentos parece infinito, e algumas hibridizações soam um tanto improváveis, até mesmo antinômicas, como a boxing yoga. Reforçando a individualização da prática, o personal trainer ganha terreno. A Usine conta com uma equipe de quarenta treinadores para aulas particulares vendidas em média a 60 euros por hora.

Além da inventividade de modalidades, que já viu passarem muitas modas efêmeras, a mudança mais importante, segundo Joly, relaciona-se ao objetivo buscado: “Nos anos 1980, nosso motor era principalmente a estética: grandes bíceps para os homens, barriga lisa para as mulheres. Hoje, transformamos o esporte em saúde, com uma abordagem holística”. Rizzo nos mostra a “máquina de 29 mil euros” que analisa a composição (massa hídrica, massa gorda, massa magra) de cada parte do corpo dos novos membros, anunciando os cuidados médicos da Usine. Arthur Benzaquen também lembra a mudança da clientela da Ken no início dos anos 2000: estava ficando para trás a época “em que empresários cinquentões como Paul-Loup Sulitzer vinham fumar um charuto e comer à beira da piscina, colocando um pé na água para aliviar a consciência. Os novos membros haviam perdido dez anos de média de idade e queriam realmente cuidar do corpo, da saúde”.

“Desde a transição epidemiológica da década de 1960, já não são as doenças infecciosas que matam, mas as doenças crônicas, a começar pelo câncer e as doenças cardiovasculares”, lembra Bonah. Uma grande parte dessas doenças não transmissíveis poderia ser evitada pela redução dos chamados comportamentos “de risco”, como o consumo de tabaco e de álcool, por uma alimentação equilibrada e, claro, pela prática de atividade física. Essa é a mensagem que desde 2001 o Programa Nacional de Nutrição e Saúde (PNNS) vem se esforçando para difundir, com slogans como “Coma movimento” ou “Mexa sua saúde!”. “As pessoas estão entendendo que precisam cuidar de seu envelope corporal, assim como estão tomando consciência de que não podemos fazer qualquer coisa com a Mãe Natureza”, alegra-se Benzaquen. É difícil ignorar os riscos de uma vida sedentária, com tantos estudos ansiogênicos proliferando na imprensa. Em um artigo de 13 de junho de 2018 intitulado “Levanta e anda!”, o jornal Le Monde alertava mais uma vez seus leitores: “Ficar sentado mata”.

O padrão estético também evoluiu para integrar a exigência de saúde com a aparência do corpo: “Na década de 1990, era preciso ser magra por todos os meios, como [a top model britânica] Kate Moss, que tinha uma aparência anoréxica. Hoje é preciso ser esbelta, porém saudável, atlética e musculosa, como Gisele Bündchen”, resume a jornalista de beleza Valentine Pétry. Adepta da healthy selfie – a “selfie saudável” – no Instagram, a modelo brasileira posta regularmente fotografias de suas proezas no clube de boxe ou no estúdio de samba, quando não são os paparazzi que se encarregam de surpreendê-la em plena corrida.

Ser saudável e atlético virou tendência. “Health is the new wealth” (“Saúde é a nova riqueza”) é o credo do momento. “O tênis robusto, quase ortopédico, contagia os fashionistas”, constatou a revista feminina Elle (20 nov. 2017). O athleisure (contração em inglês de “atlético” e “lazer”) está em seu momento de glória. Leggings, tops esportivos, agasalhos de capuz e roupas de corrida invadem as ruas e os desfiles de alta-costura. Os tecidos sintéticos passaram a circular fora das aulas de ginástica, até mesmo no trabalho ou à noite. A marca canadense de roupas esportivas Lululemon foi pioneira desse movimento, lançando no início dos anos 2000 a moda das leggings de ioga… a US$ 100 cada. Depois, estilistas famosos começaram a desenhar coleções para marcas esportivas. Stella McCartney, por exemplo, cria há quinze anos peças para a Adidas.

 

Também é preciso cuidar da alma…

Com a queda no preço das calorias, o excesso de peso já não é sinal de opulência, mas de pobreza,6 assim como o desejo de parecer forte e musculoso surge em um momento no qual o trabalho nunca foi tão pouco físico, em decorrência da automação e da terciarização da economia. Já os percursos de treino “inspirados pelas forças especiais britânicas” seduzem executivos que terão poucas oportunidades de ir para o front, forçosamente em uma época na qual também a guerra foi automatizada.

O exercício físico, porém, é apenas uma das dimensões dessa injunção para conservar seu “capital-saúde”. Você também precisa comer alimentos orgânicos e sem glúten para cuidar da nutrição e meditar de maneira consciente para cuidar da alma, por exemplo, em um “bar de meditação”. A forma como Alison Beckner, consultora de lifestyle, descreve sua prática esportiva reflete essa gestão aguda, quase medicinal, do bem-estar: “Fisicamente, futebol e tênis. Emocionalmente, equitação. Espiritualmente, ioga e meditação”.7

Inscrevendo-se no movimento geral de despolitização iniciado na década de 1970, essa busca pelo bem-estar individual também se explica pela nova conjuntura econômica, assim como pelo fantasma do desemprego e da despromoção social. Sem esperança de transformar o mundo ou mesmo de controlar a vida e a carreira, cada um se contenta em tentar “liberar seu potencial” para melhorar seu corpo e sua mente. “Eu não posso fazer muito contra a injustiça no mundo”, ironiza a militante socialista Barbara Ehrenreich, em seu livro Natural Causes, “mas posso decidir aumentar em 10 quilos o peso em minha máquina de quadríceps”.8

Esse poder, no entanto, tem dois gumes: “Se a pessoa tem a sensação de ser um escultor do próprio corpo, de ser responsável por sua saúde, então ela também é potencialmente culpada por suas falhas”, observa a filósofa Isabelle Queval. Como diagnosticou o sociólogo Christopher Lasch na década de 1970, em La culture du narcissisme,9 se a política institucional foi repudiada por causa do paternalismo, em seu lugar erigiu-se um “superego severo e punitivo”.

No entanto, a obsessão contemporânea por uma vida saudável não protege contra a doença e a morte, como vêm lembrar alguns exemplos tragicômicos listados no livro de Ehrenreich: Jerome Rodale, fundador da revista Prevention e campeão da alimentação orgânica, o qual declarou que viveria até os 100 anos, morreu de ataque cardíaco aos 72. Lucille Roberts, a atlética dona de uma rede de ginástica para mulheres, que nunca comeu batata frita nem fumou, sucumbiu a um câncer de pulmão aos 59 anos de idade. Poderíamos acrescentar o exemplo do fundador da Apple, Steve Jobs, grande promotor do vegetarianismo, da naturopatia e da meditação, morto aos 56 anos de câncer pancreático. Nós tendemos a esquecer: apenas 60% dos cânceres podem ser ligados a agentes cancerígenos.

A manutenção de uma silhueta esbelta traz alguns benefícios, a começar pelo de legitimar uma condição corporal que é, em grande parte, um privilégio de classe. A superioridade social é, portanto, justificada por uma superioridade moral: manifesta-se sua capacidade de autodisciplina, autocontrole, até de sofrimento, o que pode ser visto “como um símbolo de esforço, atestando o mérito e a superação de si mesmo”, observa Queval.

Uma vez que temos o corpo que merecemos, a obesidade torna-se sinal de preguiça ou de falta de vontade. Em outras palavras, não é porque somos pobres que estamos acima do peso, é porque nos falta força de vontade que somos obesos e pobres: uma visão das coisas perfeita para desacreditar os princípios da solidariedade. Apesar de o nível social, a profissão e os sistemas de saúde pública terem um papel determinante na saúde, “a doutrina da responsabilidade individual significa que a pessoa em má forma será objeto não apenas de repulsa, mas também de ressentimento”, diz Ehrenreich. “A objeção recorrente às propostas de extensão da seguridade social é a seguinte: ‘Por que eu deveria pagar por esses degenerados que optam por fumar e comer hambúrguer?’.”

A prática regular de atividades físicas tem outra função: a da distinção social. Em seu livro The Sum of Small Things,10 Elizabeth Currid-Halkett analisa as consequências da relativa democratização dos bens de consumo “visíveis” nos Estados Unidos. Com a classe média tendo acesso, graças ao crédito, a carrões e bolsas de marca, os membros das classes superiores encontraram outras maneiras de sinalizar sua posição social e se reconhecer uns aos outros. Isso exige práticas mais sutis: utilizar sacolas de compras de algodão, beber leite de amêndoa em vez de leite de vaca, praticar kundalini yoga

Esse modo de consumo diz respeito a uma categoria social que a autora chama de aspirational class, literalmente “classe aspiracional”, o que não deixa de lembrar a “classe profissional” estudada nos Estados Unidos pelo jornalista Thomas Frank. Não se trata do 1% de Wall Street nem da oligarquia dos iates e jatos particulares, mas dos 5% ou 10% cujo comportamento “ecológico” os distingue da multidão de empurradores de carrinhos no Walmart.11 Talvez ainda mais do que as do 1%, são as escolhas de investimento dessa classe criativa urbana e liberal que “reproduzem a riqueza e a mobilidade social ascendente em detrimento da classe média”, avalia Currid-Halkett.

Nos Estados Unidos e na França, são esses cidadãos abastados que vão cada vez mais a academias, inclusive as menos caras. Nos Estados Unidos, os 20% mais ricos praticam por semana seis vezes mais exercícios que os 20% mais pobres.12 Na França, 87% dos proprietários de microempresas praticam uma atividade física, contra 48% em média para o conjunto da população.13 O aumento global da frequência às academias não conteve a prevalência de sobrepeso e obesidade, mais difundidos na parte inferior da escada social. E a ascensão do fitness low cost ou a recente adição de couve no cardápio do McDonald’s não inverterão a tendência.

 

*Laura Raim é jornalista.



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