Taiwan: o barril de pólvoras do século XX - Le Monde Diplomatique

INCORPORAÇÃO CHINESA À ORDEM CAPITALISTA

Taiwan: o barril de pólvoras do século XXI

por Eduardo Migowski
24 de junho de 2020
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Se uma potência quiser dominar a China continental, antes, será preciso controlar o estreito. O oposto também é verdadeiro. Se Pequim desejar assegurar a sua soberania, deverá se preocupar com os laços geopolíticos da ilha

Taiwan é uma pequena ilha montanhosa, de aproximadamente 36 mil quilômetros quadrados, banhada pelos mares da China meridional e da China Oriental, e sem grandes recursos naturais. 

Sua história recente, contudo, confunde-se com o enredo da política mundial dos dois últimos séculos. O motivo está na proximidade de Taiwan com o que hoje é conhecido como sendo a China continental. Tal característica geográfica coloca a ilha numa posição estratégica em relação a diferentes interesses geopolíticos. 

Se uma potência quiser dominar a China continental, antes, será preciso controlar o estreito. O oposto também é verdadeiro. Se Pequim desejar assegurar a sua soberania, deverá se preocupar com os laços geopolíticos da Ilha. Na história recente, portanto, Taiwan foi (e continua sendo) um espaço de tensão, epicentro do choque provocado pelo contato entre o Ocidente e o Oriente. Essa particularidade do estreito nos ajuda a entender os interesses em disputa ao longo dos dois últimos séculos da história humana. 

A incorporação da China ao sistema mundo, cujo centro dinâmico era o continente europeu, pode ser dividido em quatro fases. A primeira, datada a partir da primeira Guerra do Ópio (1838/42), seria caracterizada pela fragmentação territorial. Até então a China era um Império relativamente estável e que, desde o século XVI, era controlado pela Dinastia Quing. 

A Guerra do Ópio terminaria com a assinatura do Tratado de Nanquim, 1842, considerado pelos historiadores como o primeiro de uma série de acordos desiguais. Foram esses tratados que forçaram o ingresso dos chineses na ordem econômica capitalista, na condição de país dependente. 

O impacto provocado por tamanha transformação, sobretudo num povo que até aquele momento se considerava o centro do universo, provocaria uma profunda e duradoura crise de identidade, que se estenderia por aproximadamente um século. A China seria reiteradamente humilhada e obrigada a ceder sua soberania ao jogo imperialista ocidental. 

Para piorar, no apagar das luzes do século XIX, em 1895, ocorreria a Guerra Sino Japonesa, que selaria mais uma vergonhosa derrota do país, submetendo o Império aos interesses da nação vizinha, que, pouco antes, era tributária do imperador chinês. Após o conflito, a soberania da Ilha de Taiwan seria transferida para os japoneses. O Tratado de Shimonoseki foi a maior humilhação da já desgastada Dinastia Quing. 

O resultado foi a queda definitiva do Império em 1912 e o início do período republicano, que, na divisão que está sendo proposta neste texto, iniciaria a segunda etapa da incorporação chinesa à ordem contemporânea.

Esse período, que se estende até 1949, pode ser caracterizado tanto pelo esforço de reunificação do país quanto pela disputa entre os dois principais grupos políticos, nacionalistas e comunistas, a respeito de qual seria a conformação político-ideológica da China pós-imperial.

Tal duplicidade explica tanto o motivo da união entre nacionalistas e comunistas, no momento em que ambos buscavam a reunificação nacional, quanto, posteriormente, a guerra civil que definiria qual seria o rumo da política nacional. 

Em 1949, momento em que a China ressurgiu unificada e que selou a vitória dos comunistas, iniciaria a terceira fase da inserção do país no sistema internacional. Esse é também o contexto em que a história dos dois lados do estreito é separada definitivamente e o conflito entre as “duas Chinas” é estabelecido.

No interior de um mundo hostil à ideologia marxista, a diplomacia chinesa aturaria de forma defensiva, visando, no âmbito doméstico, a consolidação do Partido Comunista e, nos assuntos externos, a proteção do país das investidas imperialistas das duas superpotências da Guerra Fria, União Soviética e Estados Unidos. 

Esse é o ponto central para compreendermos as aparentes contradições da política externa chinesa nessa terceira fase. O sistema internacional, que havia emergido após o fim da Segunda Guerra Mundial, seguia a lógica da chamada Doutrina da Contenção, cujo principal objetivo era barrar o avanço do comunismo ao redor do mundo. 

A China, pós-1949, é inserida de forma involuntária num arranjo global que estava sendo construído para impedir a sua existência. Assim, Taiwan passaria a ser vista como uma fonte permanente de desestabilização do governo comunista. Tal tensão ainda seria acentuada quando, em 1954, a Ilha assinaria um acordo de defesa mútua com os Estados Unidos, evidenciando o papel do estreito como posto avançado dos interesses imperialistas ocidentais.  

A aproximação entre Taipei e Washington, porém, não havia sido realizada para conter a China continental, mas o comunismo. A intenção era impedir a emergência de novas experiências revolucionárias no continente asiático. As medidas diplomáticas que estavam sendo adotadas em relação à China, portanto, eram parte de uma estratégia geopolítica mais ampla e que tinha a União Soviética como principal antagonista. 

Caso houvesse uma ruptura entre as duas principais potências do bloco comunista, fato que ocorreria em 1960, a posição chinesa no contexto da Pax Americana poderia ser radicalmente alterada. Foi o que ocorreu. A emergente rivalidade no interior do bloco comunista seria entendida pelos estrategistas norte-americanos como oportunidade para isolar ainda mais os russos. 

Doravante, a incorporação da China comunista à comunidade internacional passaria a ser percebida como algo vantajoso aos interesses hegemônicos. O ano de 1971 seria lembrado tanto pelo histórico encontro de Nixon com Mao Zedong como pela incorporação da China continental às Nações Unidas e, consequentemente, a expulsão de Taiwan do organismo multilateral.

A mudança, contudo, seria na forma e não de conteúdo. A política externa de Washington continuou atuando para isolar a União Soviética e a de Pequim ainda era orientada pelo desejo de autonomia e estabilidade interna. 

No caso de Taiwan, o impacto seria maior. Sem o poder econômico da parte continental, a Ilha via sua influência política desmoronar no instante em que o PCC deixou de ser visto como ameaça ao status quo capitalista. 

O que poderia ser feito? A resposta de Taipei a essa conjuntura desfavorável foi bastante interessante. A ideia seria equilibrar a crescente vulnerabilidade política da Ilha através de introdução dos valores que, em tese, deveriam ser protegidos pela comunidade internacional. Isso explica o motivo de Taiwan, regida formalmente por uma Lei Marcial (suspensa apenas em 1987), iniciar uma lenta e gradual abertura política. Em suma, havia a percepção de que, se o país fossa reconhecido como uma democracia, a sustentação da sua soberania passaria a ser dever da comunidade internacional, protegendo o estreito de possíveis investidas do lado continental.

A partir de 1978, capitaneada por Deng Xioping, a China começaria a promover um conjunto de reformas que buscavam a transição para uma economia de mercado. Aos poucos, o país iria se afastando do comunismo e conformando um “capitalismo com características chinesas”, culminando, em 2001, com a entrada do país comunista na Organização Mundial do Comércio. 

O liberalismo, contudo, ficou restrito à esfera econômica. Em 1989, ano do chamado Massacre da Paz Celestial, ficou evidenciado que o Partido Comunista Chinês não tinha intenção de seguir na direção da abertura política. O fechamento da China continental, na mesma época em que Taiwan incorporava os valores ocidentais, teria forte impacto na forma como a política internacional seria conduzida nas décadas subsequentes.

Foi nesse contexto que o comunismo deixou de ser uma ameaça à Pax Americana. Como demonstrou o economista Brenco Milanovic, após a queda do muro de Berlim, o capitalismo não teria mais rivais. Ele seria soberano. O mesmo, porém, não pode ser dito a respeito da hegemonia norte-americana. Há quarenta anos, a China passa por uma modernização vertiginosa, numa velocidade poucas vezes vista na história humana. 

Tal crescimento foi, por algum tempo, compensado pelo dinamismo da economia norte-americana, que também apresentava taxas robustas de crescimento. Recentemente, contudo, sobretudo a partir de 2008, a expansão chinesa passou a ser muito mais expressiva que a dos seus concorrentes. Aos poucos, ficaria evidente que, de fato, o capitalismo não teria rivais no século XXI, porém, o eixo dinâmico do sistema produtivo mundial seria deslocado para o continente asiático. 

É nesse clima de rivalidades emergentes entre Pequim e Washington que, em 2013, Xi Jinping se torna presidente e tem início a quarta e última fase da incorporação chinesa à ordem capitalista. Em maio de 2013, durante uma visita à América Latina, Xi Jinping declararia que: “beneficiaremos não apenas o povo chinês como também os outros povos do mundo. A realização do sonho chinês trará ao mundo a paz, e não agitação; oportunidades, não ameaça” (JINPING, pp 69, 2020). 

A declaração do presidente, feita numa área que historicamente esteve dentro da esfera de poder norte-americana, ilustra bem qual é a tendência da política externa chinesa na atual fase. O país asiático não está satisfeito apenas em garantir a própria segurança, mas deseja assumir uma influência na política mundial compatível ao seu peso econômico. Em outras palavras, a quarta fase da política externa chinesa está sendo marcada pelo esforço de projeção da influência da nação asiática ao redor do mundo. Movimento que, logicamente, levará ao acirramento dos conflitos sistêmicos.

Doravante, portanto, a tendência é que a diplomacia norte-americana seja estruturada para conter a expansão da influência mundial de Pequim. E, nesse caso, Taiwan novamente será o epicentro dos terremotos provocados pelos choques da geopolítica do século XXI. 

A diferença é que, dessa feita, a posição da Ilha é fundamental para conter as ambições chinesas e não mais o comunismo. Taiwan está no centro da estratégia diplomática das duas principais potências mundial. Do ponto de vista de Pequim, o estreito deixa o país vulnerável às investidas externas que buscam a desestabilização do país. Para Washington, a independência da Ilha é parte fundamental para a manutenção da sua hegemonia. 

As tensões tendem a se agravar. Em 1996, após um ameaçador exercício militar da china continental aos arredores do estreito, os Estados Unidos reafirmaram seu papel de fiador da independência de Taiwan e deslocaram a poderosa Sétima Frota da Marinha norte-americana para a região. Sem opção, os comunistas recuaram. Nos anos seguintes, contudo, os investimentos militares do país asiático aumentaram de forma expressiva, sobretudo no que diz respeito à tecnologia submarina, com o objetivo de fazer frente aos porta-aviões norte-americanos que atuam no Pacífico. Ou seja, a tendência é que recuos desse tipo sejam mais raros.

Não seria exagero dizer que, nos últimos vinte séculos da história humana, a China só não foi a maior potência mundial em dois deles. Justamento os dois últimos. Numa perspectiva história, portanto, a recente ascensão do antigo Império do Meio nada mais é que a retomada de um protagonismo mundial que sempre pertenceu ao país asiático. 

Tal afirmação é verdadeira, porém incompleta. Sim, até o século XIX a civilização chinesa era sem dúvida a mais poderosa. Ser uma potência no século XXI, contudo, é muito diferente das experiências hegemônicas do período pré-revolução industrial. A dinâmica, nesse caso, é outra. Se quisermos entender o século XXI pela lente da experiência histórica, nosso olhar não deve ser voltado para os antigos imperadores, mas para a Europa dos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. 

Nesse período, havia uma ordem estabelecida, protagonizada pelos países de industrialização mais antiga, sobretudo Inglaterra e França, que passaria a ser abalada pelo rápido crescimento de uma Alemanha recentemente unificada. E, num mundo que já havia sido repartido durante o imperialismo, a projeção mundial do Império Alemão invariavelmente entraria em choque com os interesses estabelecidos das nações até então hegemônicas:

Cientistas políticos podem dizer que o fato de Alemanha e Inglaterra ficarem em lado opostos na Grande Guerra foi premeditado. Foi resultado do choque entre um poder global superior sentindo que a supremacia lhe escapava e que havia um desafiante que ascendia. Raramente tais transições são administradas pacificamente. O poder dominante é frequentemente arrogante, querendo dar lições ao resto do mundo sobre como conduzir seus negócios e muitas vezes insensível aos temores e às preocupações das potências menores. Tal poder, como era então a Inglaterra e hoje são os Estados Unidos, inevitavelmente resiste às intimas percepções de seu declínio, e o que ascende fica impaciente para conseguir sua parcela do que está em oferta, sejam colônias, comércio, recursos ou influência (MacMillan, p.58)    

A diplomacia chinesa afirma, com razão, que o futuro da política global dependerá da forma como serão conduzidas as relações bilaterais entre Washington e Pequim. O problema, porém, encontra-se além da vontade individual dos governantes. 

Como observou a historiadora Margaret MacMillan, historicamente, é fácil perceber que tais transições são marcadas pela instabilidade geopolítica. A supremacia global norte-americana é garantida pela presença militar do país, são quase oitocentas bases ao redor do mundo, pela centralidade do dólar como moeda de referência do comércio internacional, e pela defesa da democracia e dos direitos humanos como valores universais. A ascensão chinesa abalará tais pilares, que sustentaram a Pax Americana ao longo das décadas anterior. 

O que virá pela frente? Nesse momento, é impossível prever como será o final da transição em curso. A história não se repete nem como tragédia e nem como farsa. O passado, contudo, é útil para que os erros também não se repitam. Pois, como a Primeira Guerra Mundial demonstrou, as consequências podem ser drásticas e irreversíveis. E, dessa feita, Taiwan é barril de pólvora que poderá movimentar as engrenagens apocalípticas da guerra. O futuro da humanidade seguirá os próximos capítulos da história de Taiwan.

Eduardo Migowski é professor formado em História, mestre em Filosofia pela PUC/Rio e atualmente faz doutorado em Ciência Política na UFF. Escreve também regularmente para a Revista Voyager.

 

Referências

JINPING, Xi. A governança da China (v.1). São Paulo: Contraponto. 2020; 

MACMILLAN, Margareth. A Primeira Guerra Mundial: a guerra que acabaria com as guerras. São Paulo: Globo Livros. 2014

MILANOVIC, Branko. Capitalismo sem rivais: o futuro do sistema que domina o mundo. São Paulo: Editora Todavia. 2020.



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