Tensões, relações e movimentos de familiares de pessoas presas
Confira o prefácio inédito do livro Nos arredores da prisão: tensões, relações e movimentos de familiares de pessoas presas, da antropóloga Natália Lago e lançado dia 17 de setembro pela editora Hucitec
Desde a década de 1990, o Brasil tem assistido a um crescimento vertiginoso de sua população carcerária, impulsionado por políticas de endurecimento penal e pela ampliação dos dispositivos de criminalização. Nesse mesmo intervalo, os estudos sobre o sistema prisional ganharam mais densidade na agenda de pesquisa das ciências sociais brasileiras, superando enfoques tradicionalmente centrados no tema da ressocialização. Consolida-se, assim, uma leitura mais refinada da prisão como tecnologia de gestão das desigualdades estruturais que operam historicamente na produção e reprodução da ordem social. Parte significativa dessa produção acadêmica recente tem conferido centralidade às experiências das mulheres no sistema penal, articulando as dimensões de gênero a outros marcadores sociais da diferença e introduzindo no debate temas como subjetividade, afeto e cuidado. Também ganharam relevo os estudos que se debruçam sobre as trajetórias de mães e companheiras de presos, mulheres que mobilizam discursos afetivos – em especial os vinculados à maternidade – como formas de denúncia, resistência e reivindicação de direitos.

É nesse campo em expansão que se inscreve com força este trabalho de Natália Lago. Com sensibilidade, escuta e aguda inteligência analítica, a autora percorre as fronteiras entre os estudos de gênero e os estudos de prisão, oferecendo uma contribuição original, substantiva e eticamente comprometida.
A pesquisa que sustenta este livro articula três contextos etnográficos distintos – a fila de visitas e uma hospedaria para mulheres de presos em uma cidade do interior paulista; as atividades da associação Amparar, composta por familiares de pessoas encarceradas; e as disputas em torno da prática da revista íntima – para lançar luz sobre os efeitos extramuros do sistema prisional, privilegiando as perspectivas e experiências das mulheres que orbitam esse universo. Ao acompanhar mães, companheiras, irmãs que reorganizam seus afetos, rotinas e deslocamentos em função da manutenção dos vínculos com os presos, Natália revela, com sensibilidade e lucidez, como essas mulheres absorvem em seus corpos e trajetórias os impactos do encarceramento – e como, a partir desse lugar, constroem formas de cuidado, ação coletiva e resistência.
Por meio de relatos e trajetos diversos, habilmente concatenados, Natália nos convida a compreender que a prisão não apenas retira corpos do convívio social, mas também reconfigura afetos, temporalidades e geografias. Os efeitos da política de encarceramento se materializam nos deslocamentos longos e cansativos até cidades transformadas em cidadelas carcerárias, nas sacolas de mantimentos preparadas com esforço, nas filas intermináveis, nas interpelações abusivas e nas revistas vexatórias sofridas pelas visitantes. Ao eleger as visitas prisionais como ponto privilegiado de observação, Natália nos mostra que essas mulheres são peças fundamentais no funcionamento informal da própria prisão. Levam roupas, remédios, notícias e afetos. Sustentam a sobrevivência dos encarcerados. E, ao fazê-lo, tornam-se alvo de desconfiança, vigilância e humilhação – tensionando permanentemente os limites entre cuidado e controle, entre presença e apagamento.
No entanto, Natália nos mostra mais. Se a prisão impõe sofrimento, ela também compõe o repertório de ferramentas que essas mulheres mobilizam para lidar com os perigos da travessia. Em seus esforços cotidianos e coletivos para prover apoio mútuo, orientação jurídica e referências concretas aos seus familiares, essas mulheres tecem redes que desafiam o isolamento e o silenciamento. Pelas relações ambivalentes de submissão, cooperação e disputa que são obrigadas a manter tanto com agentes e instituições estatais quanto com atores situados em suas margens (inclusive o chamado “crime organizado”), reinventam práticas de resistência, cuidado e política em um dos cenários mais áridos da vida social brasileira contemporânea.
A cidade-cárcere emerge, neste livro, como polo de trânsito e de espera, onde, principalmente aos fins de semana, mulheres atravessam longas distâncias para visitar seus familiares presos. Muitas delas se hospedam em pensões familiares, como a de uma das interlocutoras centrais da pesquisa, cuja subsistência também depende da economia local que gira em torno da prisão. Natália mergulha nesse universo com escuta atenta, explorando as tensões desse ambiente de desconfiança e sensação de cerco, que demandam um estado de alerta permanente.
Ganham centralidade na análise da autora as categorias mobilizadas pelas próprias interlocutoras – “mulheres de preso”, “outras mulheres”, “amantes”, “prostitutas” – que funcionam como marcadores morais e sociais nas interações entre as mulheres, organizando pertencimentos, distinções e exclusões. A figura da “mulher de preso” é reivindicada como símbolo de fidelidade, sofrimento e resistência – aquela que acompanha, apoia e sofre junto. Essa posição confere certa legitimidade moral no contexto da fila de visitas, onde o corpo e a presença são julgados à luz de códigos tácitos de respeito e dever. Em contraste, “as outras mulheres”, sobretudo aquelas percebidas como possíveis rivais afetivas ou sexuais, tornam-se alvos de suspeita, repreensão e rumores, associadas a comportamentos considerados “fora da linha” ou contrários à moralidade esperada. As “amantes” e “prostitutas”, por sua vez, ainda que envolvidas em práticas semelhantes de cuidado, visita e envio de mantimentos, são evocadas como ameaças simbólicas à respeitabilidade da “mulher legítima”. Assim, evidencia-se a materialização de uma gramática de gênero e sexualidade, na qual as distinções operam como dispositivos de controle, vigilância e moralização entre as próprias mulheres.
Natália não se limitou a observar e descrever esses processos: ela os vivenciou. Sua presença em campo, marcada por uma performance de gênero não prevista naquele espaço, por estar só e sem um homem preso a quem visitar, despertou olhares, suposições e questionamentos. A autora incorporou esses incômodos como parte constitutiva de sua etnografia, convertendo fricções em matéria analítica. Na esteira da boa tradição antropológica, Natália reconhece o campo como espaço de camadas entrelaçadas de diferença, disputa e interpretação. E nos oferece, com isso, um testemunho poderoso sobre imagens e relações de gênero no entorno do cárcere, bem como sobre os próprios limites e potências do fazer etnográfico.
Ao acompanhar de perto a trajetórias de uma liderança da Amparar – associação constituída majoritariamente por mães e companheiras de homens presos – a autora nos conduz pelos caminhos de um coletivo que se constrói no entrelaçamento de cuidado e insurgência. A Amparar é, ao mesmo tempo, espaço de escuta e acolhimento e arena de confronto político com o Estado – este que, ausente como garantidor de direitos, se faz presente como operador de controle e punição. Nas audiências públicas, nas denúncias de violações, nas negociações precárias com instituições, revela-se a ambivalência dessa relação que obriga familiares a se moverem entre o embate e o apelo. Nesse cenário, a linguagem do afeto – especialmente a da maternidade – é mobilizada como estratégia política, conferindo às mulheres uma autoridade moral singular na denúncia da violência institucional. Enquanto a “mulher de preso” é frequentemente atravessada por ambivalências morais, suspeições e disputas simbólicas, a “mãe de preso” tende a ocupar uma posição de dor legitimada, reconhecida e promovida como figura de escuta pública e autoridade afetiva.
Nessas passagens do livro em que trata dos modos de encarnar a experiência de perda, humilhação e resistência como ferramenta de mobilização, Natália Lago nos oferece uma chave potente para compreender o ativismo como prática cotidiana de sobrevivência e subversão. Mas não deixa de expor, com delicadeza e lucidez, as fraturas internas do coletivo que se manifestam em disputas por legitimidade, assimetrias no acesso ao capital político, tensionamentos entre familiares, advogados, ONGs e ativistas. A Amparar, espaço de resistência, é também um espelho dos paradoxos que atravessam a luta por justiça em um sistema que criminaliza seletivamente corpos e afetos, mesmo enquanto depende, parasitariamente, da mobilização desses sujeitos.
Entre os diversos dispositivos por meio dos quais o sistema penal se projeta para além dos muros da prisão, a revista íntima se destaca como um dos mais cruéis e reveladores. A exposição forçada do corpo, o desnudamento e os agachamentos exigidos durante o procedimento são descritos por várias interlocutoras da pesquisa como formas de violação e humilhação que ultrapassam a dimensão jurídica, alcançando o plano da dignidade e da moralidade corporal. Embora legalmente proibida, essa prática persiste sob novas formas e justificativas, como o uso de scanners corporais – ainda assim percebidos por muitas mulheres como instrumentos invasivos e degradantes.
Natália analisa os discursos conflitantes em torno da revista íntima, mapeando os diferentes enquadramentos mobilizados por agentes estatais, organizações de direitos humanos, defensorias públicas e, sobretudo, pelas próprias mulheres de presos. Evidencia que esses discursos mobilizam as hierarquias de gênero e moralidade já comentadas: mães são frequentemente apresentadas como vítimas legítimas, enquanto companheiras e “amásias” são alvo de estigmatização dentro e fora das prisões. Como bem observa a autora, trata-se de uma disputa por posições de respeitabilidade nas relações com o sistema penal – uma disputa que não se limita à tensão entre segurança e direitos humanos, mas envolve uma complexa trama institucional, na qual documentos legais, campanhas de advocacy, percepções corporais e experiências de humilhação se entrelaçam.
Assim, este livro nos oferece uma análise notável dos efeitos sociais e políticos mais amplos do encarceramento em massa. Traz uma cartografia sensível e apurada das formas pelas quais o Estado penal se inscreve em vínculos, corpos e afetos. Mostra também que nas frestas desse regime de controle emergem estratégias de vida, de cuidado e de resistência. É uma obra necessária para quem quer compreender os labirintos do sistema prisional no Brasil – e, sobretudo, as vidas que perseveram em atravessá-los com coragem, inteligência e solidariedade.
Júlio Assis Simões é professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e pesquisador-líder do Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS), na mesma instituição.
Serviço
Nos arredores da prisão: tensões, relações e movimentos de familiares de pessoas presas
Natália Lago
1 ed. São Paulo, Hucitec, 2026
Coleção Antropologia Hoje
242 páginas

