A ESTÉTICA DA SUBMISSÃO

Tradwives e a performance da feminilidade conservadora

O movimento das tradwives tem ganhado visibilidade nas redes sociais ao dialogar com projetos conservadores que reforçam papéis de gênero rígidos. Mais do que uma escolha pessoal, esse fenômeno simboliza a naturalização de desigualdades históricas ao exaltar a dependência e submissão feminina como ideais a serem seguidos. Em vista disso, é preciso compreender como modismos conservadores moldam percepções sociais e influenciam a vida das mulheres

Fonte: Estevão, 2025

O movimento das tradwives (traditional wives, ou mulheres tradicionais) tem ganhado cada vez mais visibilidade, sobretudo nas redes sociais, onde influenciadoras compartilham rotinas centradas na dedicação ao marido, à maternidade e ao lar. Mais do que uma escolha de estilo de vida, o fenômeno resgata um passado marcado pela rígida divisão de papéis de gênero e pela valorização da família nuclear como modelo único. A performance, construída por meio de discursos, conselhos de “feminilidade” e uma estética que associa obediência à elegância, traduz uma dinâmica cultural que se conecta diretamente ao avanço do conservadorismo contemporâneo.

A ascensão desse fenômeno não se explica apenas pelo apelo “nostálgico”, mas pelo diálogo direto com projetos políticos ultraconservadores em diversas partes do mundo. Partidos e lideranças da extrema direita têm investido na retórica da “restauração da ordem” e na defesa dos “valores tradicionais”, apresentando-se como barreiras às políticas de equidade de gênero e à autonomia reprodutiva. Nesse contexto, as tradwives operam como peças de legitimação simbólica: suavizam os mecanismos de ação do conservadorismo ao transformá-los em um ideal de vida doméstico, feminino e aparentemente inofensivo.

É nesse contexto que a imagem de Ivanka Trump, durante a posse de Donald Trump em 20 de janeiro de 2025, ganhou enorme repercussão. Vestida com um conjunto monocromático verde e apresentando-se de forma sóbria, Ivanka evocou comparações imediatas com a estética de O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), obra distópica de Margaret Atwood que retrata um regime teocrático e totalitário nos Estados Unidos. A semelhança com as Esposas – mulheres casadas com os Comandantes, que sustentam e legitimam o sistema de exploração das Aias – foi vista como um gesto carregado de simbolismo político.

Como destacou Bleiker[1], as imagens visuais são performances que circulam politicamente e, por isso, tornam-se importantes instrumentos na “guerra das imagens”, sendo capazes de moldar opiniões, percepções e influenciar debates. Assim, a fotografia de Ivanka não pode ser compreendida como uma escolha casual, mas como parte de uma performance que traduz a estética da feminilidade conservadora. Sua presença encarna o mesmo espírito que sustenta o movimento das tradwives: a legitimação de papéis de gênero rígidos, ocultada pelo discurso da elegância e disciplina. Ao mesmo tempo em que desperta admiração em setores conservadores, essa estética também funciona como instrumento de naturalização de retrocessos em relação aos direitos das mulheres.

Propaganda de uma marca de gravata na década de 1950. Crédito: boredpanda.com

O atual avanço do movimento dialoga diretamente com o momento pelo qual países do mundo vivem, em especial o Brasil, com o avanço de diversas pautas conservadoras, e por vezes retrógradas, que parecem querer suprimir direitos conquistados por minorias durante décadas de luta[2] [3].

Um dos argumentos para o avanço desse fenômeno é a percepção de que essas mulheres escolheram a família ao invés do feminismo. No entanto, essa ideia não encontra respaldo na realidade, tendo em vista que, como prega Beauvoir[4], o feminismo busca libertar a mulher das condições sociais e simbólicas que a colocam em posição de subordinação e subalternização. Assim, o feminismo não impõe um modelo único de vida, mas defende a autonomia da mulher para decidir o que deseja para si, seja construir uma carreira, dedicar-se à família ou conciliar ambas as escolhas, até porque, trabalho doméstico também é uma forma legítima de trabalho[5].

Ademais, outro ponto relevante é que, no cenário econômico-social atual, optar por não trabalhar fora é uma realidade acessível a poucas mulheres, devido principalmente às limitações financeiras. Segundo dados do IBGE, a renda média mensal da população brasileira é de R$ 3.057,00 (três mil e cinquenta e sete reais), sendo que as mulheres ganham, em média, 20,9% a menos que os homens. Entre as mulheres negras, a desigualdade é ainda mais acentuada: elas recebem menos do que os homens, independentemente da raça ou etnia, e também menos que as mulheres brancas, com uma diferença que pode chegar a 110%.

O Brasil possui uma população majoritariamente feminina, na qual a maioria das mulheres é negra e está – historicamente – alocada em sub-empregos, trabalhos informais ou trabalhos formais de baixa remuneração; logo, não trabalhar fora, para parte significativa desse grupo, nunca foi uma opção[6]. Dizer, mesmo que indiretamente, que essas mulheres se dedicam menos à família, por não terem a possibilidade de se concentrar exclusivamente nela, revela uma visão limitada da realidade social e histórica, tendo em vista que muitas dessas mulheres são as responsáveis por prover e manter a casa e a família, evidenciando, assim, como o movimento tradwife é nichado e voltado para segmentos específicos de mulheres com condições socioeconômicas privilegiadas.

Outro ponto importante, ao optar por esse estilo de vida, é a questão da dependência financeira que essa escolha pode acarretar. Por reforçar uma ideia patriarcal, de que o homem é o único responsável por prover a casa, o poder e o controle econômico ficam concentrados no marido, o que pode colocar a mulher em posição de submissão por não deter autonomia financeira, já que a subordinação econômica é uma forma estrutural de opressão feminina, limitando liberdade e escolhas de vida[7]. Além disso, em um país como o Brasil, em que os casos de feminicídio e violência contra a mulher, infelizmente, aumentam a cada dia, a hipossuficiência financeira só seria um elemento dificultador para que a mulher possa romper com situações de abuso e agressão.

Diante disso, é importante refletir sobre como modismos que evocam um modo de vida conservador impactam a sociedade, especialmente em relação ao gênero, política e cultura. Estilos de vida como o das tradwifes são apresentados a muitas mulheres, em grande parte jovens, como um modelo ideal, sem que sejam discutidos os possíveis contrapontos e limitações dessa escolha. Torna-se igualmente necessário analisar criticamente quem ou o que impulsiona esses movimentos, bem como o contexto sócio-político em que movimentos como esse estão sendo fomentados, para compreender as implicações mais amplas dessa tendência.

 

Isabela Tabarelli Cabral é graduanda em Políticas Públicas (UFABC) e Coordenadora do Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas (CAMPP).

Michele Ferreira é advogada, pesquisadora e mestranda em ciências humanas e sociais (UFABC).

Bibliografia

BOLZANI, Isabela e MOURA, Rayane. Rendimento mensal do brasileiro bate recorde e fica em R$ 3.057 em 2024, diz IBGE. G1, 08 de mai. de 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/05/08/rendimento-mensal-do-brasileiro-bate-recorde-e-fica-em-r-3057-em-2024-diz-ibge.ghtml. Acesso em 01 de nov. de 2025.

CARTA CAPITAL. Mapa da Violência mostra recorde em casos de feminicídio no País. Carta Capital, 11 de jun. de 2025. Disponível em:  https://www.cartacapital.com.br/sociedade/mapa-da-violencia-mostra-recorde-em-casos-de-feminicidio-no-pais/. Acesso em 01 de nov. de 2025.

ESTADÃO. Brasil tem 6 milhões a mais de mulheres, e homens são maioria em só 2 estados. UOL, 22 de ago. de 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2025/08/22/as-mulheres-tem-razao

ESTEVÃO, Ilca Maria. Ivanka Trump: looks de posse geram críticas e comparações. Metrópoles, 26 jan. 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas/ilca-maria-estevao/ivanka-trump-looks-de-posse-geram-criticas-e-comparacoes.

FORBES BRASIL. ONU aponta retrocesso nos direitos das mulheres em um a cada quatro países. 6 mar. 2025. Disponível em:  https://forbes.com.br/forbes-mulher/2025/03/onu-aponta-retrocesso-nos-direitos-das-mulheres-em-um-a-cada-quatro-paises/. Acesso em: 22 jun. 2025.

G1. Tradwife: quem são as mulheres que fazem sucesso mostrando rotina de dedicação exclusiva ao lar. G1 Pop & Arte, 29 maio de 2024. Disponível em:  https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2024/05/29/tradwife-quem-sao-as-mulheres-que-fazem-sucesso-mostrando-rotina-de-dedicacao-exclusiva-ao-lar.ghtml. Acesso em…

MANEZOTTI, Priscilla. Desigualdade no Brasil atinge principalmente mulheres negras. Agência Brasil, 28 de mai. de 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/educacao/audio/2024-05/desigualdade-no-brasil-atinge-principalmente-mulheres-negras. Acesso em 01 de nov. de 2025.

MOURA, Rayane. Mulheres ganham 20,9% a menos que os homens no Brasil, diz governo. G1, 07 de abr. de 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2025/04/07/mulheres-ganham-209percent-a-menos-que-os-homens-no-brasil-diz-governo.ghtml. Acesso em 01 de nov. de 2025.

[1] BLEIKER, Roland. Mapping visual global politics. In: Visual global politics. Routledge, 2018. p. 1-29.

 

[2] FUKUSHIMA, Kátia Alves; FERRAZ, Ana Targina Rodrigues. A ascensão da extrema direita e as consequências para as democracias. Argumentum, v. 13, n. 2, p. 4-7, 2021. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/4755/475571195001/475571195001.pdf.

[3] NUNES, Tarson. A ascensão da extrema direita e os impasses da esquerda contemporânea. Brasil de Fato, 21 mar. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/03/21/a-ascensao-da-extrema-direita-e-os-impasses-da-esquerda-contemporanea/. Acesso em: 2 jul. 2025.

[4] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2020.

[5] FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. Editora Elefante, 2019.

 

[6] GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista ciências sociais hoje, v. 2, n. 1, p. 223-244, 1984. Disponível em: https://elizabethruano.com/wp-content/uploads/2019/07/Gonzales-1984-Racismo-e-Sexismo-na-Cultura-Brasileira.pdf.

[7] FEDERICI, Silvia. O patriarcado do salário: notas sobre Marx, gênero e feminismo (v. 1). Boitempo Editorial, 2021.

 

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