Tremor no teto no mundo - Le Monde Diplomatique

MATÉRIA DE CAPA / TIBETE

Tremor no teto no mundo

por Mathieu Vernerey
4 de maio de 2009
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A crise tibetana ameaça transbordar para outras regiões onde germinam ideais de independência, como o Xinjiang e a Mongólia Interior. Com sua festa olímpica posta em risco, os dirigentes chineses parecem aturdidos diante da situação, e não sabem como conciliar a imagem internacional com a estabilidade interna

Dois meses depois, as manifestações ocorridas no Tibete em março de 2008 continuam repercutindo intensamente. Naquela ocasião, durante quinze dias, milhares de tibetanos ganharam as ruas de diversas cidades e enfrentaram as forças armadas chinesas com bandeiras e palavras de ordem a favor da independência. A repressão não tardou e as imagens que furaram o bloqueio midiático posto em ação pelo governo de Pequim chocaram o mundo.

Na vanguarda da frente de contestação estavam os monges budistas. E a presença deles não deixou de ser uma surpresa, já que os manifestantes, assim como os policiais, usaram métodos violentos, ao passo que as formas de luta defendidas pelos religiosos são, supostamente, pacíficas. Entre os alvos dos amotinados estavam também civis das etnias han e hui 1, o que levou muitas pessoas a supor que a revolta tivesse igualmente motivações étnicas.

As manifestações alcançaram seu clímax no dia 10 de março, 49º aniversário do levante nacional contra a intervenção chinesa 2. Foi justamente após a derrota daquele movimento que o Dalai Lama se exilou na Índia, seguido por milhares de refugiados. Naquela época, embora tenha acolhido o governo do Tibete, o primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru optou por não reconhecê-lo. E tampouco o fizeram as Nações Unidas.

O Tibete havia sido invadido pela China nove anos antes, em 1950. Mas as pretensões chinesas sobre o território tibetano são antigas. Surgiram na época da dinastia mongol dos Yuan (1279-1368) e voltaram a se manifestar sob a dinastia manchu dos Qing (1644-1911). A partir dos destroços do império mongol, que havia dominado toda a Ásia, as campanhas militares empreendidas pelos Yuan deram à China sua extensão máxima no sentido Oeste, alcançando o território tibetano. Porém, a dominação da área logo sofreria reveses: entre os Yuan e os Qing, houve um longo intervalo em que reinou a dinastia Ming (1368-1644). Mais interessada nas conquistas marítimas, esta deu espaço para que os príncipes mongóis plasmassem uma política durável no Tibete.

Em 1578, interferindo nas querelas religiosas internas do Tibete, o soberano mongol Altan Khan apoiou a primazia do chefe da linhagem Gelugpa 3, ao qual deu o título de Dalai Lama (Oceano de Sabedoria). Em 1642, Gushi Khan, por sua vez, afirmou a autoridade política do quinto Dalai Lama e reforçou os vínculos outrora estabelecidos entre mongóis e tibetanos, conforme o princípio do Choe-Yon (Guia-Protetor): os mongóis aceitavam a liderança espiritual do guia tibetano; em troca, os tibetanos aceitavam a proteção militar do príncipe mongol. Esse tipo de relação também se estabeleceu com a China manchu e com outros reinos vizinhos, dependendo das alianças.

A vulnerabilidade do Tibete vem, portanto, dessa histórica ingerência externa, mais mongol do que chinesa. Aliás, foi por isso que os tibetanos recorreram, em 1720, ao reforço chinês para expulsar os mongóis. E, em 1792, apelaram aos nepaleses. Nesse período, os Qing se empenharam em reorganizar, segundo os seus interesses, a administração tibetana. Sem sucesso. Com o colapso da dinastia Qing, o líder chinês Sun Yat-sen instituiu, em 1912, a República de Nanquim. Um ano depois, o Tibete proclamou sua independência.

Em 1914, um acordo tripartite foi firmado em Shimla entre representantes britânicos, chineses e tibetanos. Reconheceu-se uma forma de suserania da China, que se recusou a tratar o Tibete em termos de igualdade. No entanto, enquanto os chineses enfrentavam sérios conflitos internos (o confronto entre os “senhores de guerra” e, depois, a guerra civil entre comunistas e nacionalistas) e invasões estrangeiras (inglesa, francesa, russa e japonesa), o Tibete viveu uma independência de fato entre 1913 e 1949. Em 7 de outubro de 1950, pouco mais de um ano depois de Mao Tsé-tung proclamar a República Popular da China, as forças armadas chinesas invadiram o território tibetano. Paradoxalmente, os representantes da China Nacionalista (Taiwan) na Organização das Nações Unidas não se valeram dessa agressão para atacar seus arquiinimigos comunistas. Sua alegação de que se tratava de uma questão interna chinesa obteve ganho de causa na ONU 4.

Em 1951, mediante pressão militar, Mao impôs um acordo de 17 itens que sacramentava o “retorno do povo tibetano ao seio da pátria”. Em contrapartida, concedeu ao Tibete um estatuto de autonomia que previa a manutenção “do sistema político vigente”, bem como “do status, das funções e dos poderes do Dalai Lama”. Ora, para os tibetanos, o Dalai Lama era, ao mesmo tempo, chefe espiritual e temporal do país, o que ia contra os termos apresentados. Logo ficaria claro também que os outros pontos acordados no documento não seriam respeitados pelos chineses.

Ao chegar ao exílio em 1959, o Dalai Lama denunciou formalmente esse “acordo”, estabeleceu um governo, dotou-o de um parlamento e organizou a comunidade dos refugiados. Ao mesmo tempo em que proclamava sua determinação de lutar pela independência, o líder expressava a intenção de “criar condições favoráveis a negociações em busca de uma solução pacífica”5. Em 1979, quase três anos após a morte de Mao, o novo “timoneiro” chinês Deng
Xiaoping comunicou aos tibetanos que, “fora a independência, tudo podia ser discutido” 6. Assim, até 1985, quatro delegações do governo exilado foram autorizadas a visitar o Tibete 7, para atestar os “progressos” realizados pela administração comunista.

Em 1988, naquela que ficou conhecida como a “Proposta de Estrasburgo”, o Dalai Lama renunciou oficialmente à independência em prol da autonomia e da união com a China. Porém, em março de 1989, o diálogo foi interrompido devido à repressão de uma das mais importantes manifestações contra a autoridade chinesa, ocorrida por ocasião do 30º aniversário do levante de 1959. Empenhado em retomar as negociações, o Dalai Lama reiterou a proposta de “autonomia verdadeira” em um contexto de soberania chinesa. Seis novos encontros sino-tibetanos foram realizados entre 2002 e 2007, mas os protestos de março passado e a repressão subseqüente paralisaram as negociações.

Sem dúvida, a religião budista é um elemento constitutivo da identidade tibetana, mas isso não explica tudo. No Tibete atual, o sentimento nacionalista deriva principalmente da rejeição à China. Ainda que grande parte da população pareça resignada, essa repulsa se exprime de modo cada vez mais exacerbado. Marginalizados no seio da sociedade chinesa e sem gozar dos benefícios do desenvolvimento da China, os tibetanos estão às voltas com a sinização de seu país, inundado por colonos da etnia han. Guiado pela lógica colonial, o investimento econômico na região tem resultado em fracasso. Sintoma disso, a revolta de março se estendeu a outras cidades tibetanas além de Lhasa – um fato inédito.

A contestação mobilizou tanto leigos quanto religiosos, que portavam a bandeira do Tibete junto com o retrato do Dalai Lama. O guia espiritual, que goza de uma autoridade intacta e amplamente reconhecida dentro e fora do país, continua sendo o cimento da unidade nacional. De maneira canhestra, as próprias autoridades chinesas reconhecem isso quando afirmam que é preciso travar uma “luta de vida ou morte contra o Dalai Lama e sua claque” 8. Mas a verdade é que uma nova geração está emergindo, menos submissa à influência do dirigente religioso.

Desde que o Dalai Lama renunciou oficialmente à independência, reafirmando sua política de abertura e diálogo com Pequim, a questão tornou-se um tabu. De maneira mais explícita, em outubro de 2002, ele exigiu que os militantes refreassem as manifestações antichinesas no mundo inteiro, a fim de criar uma “atmosfera favorável ao diálogo”. Tal apelo, que frustrou muitos partidários da causa tibetana, deixou a China em situação confortável. Sem ser publicamente contestado e passando a gozar de uma respeitabilidade inédita, o governo chinês desfez-se da autonomia em um estalar de dedos. Os independentistas mostram-se descontentes com isso, mas não têm idéia de que caminho seguir.

Ao contrário do que as aparências sugerem, os exilados não compõem um movimento unificado. Seus diferentes agrupamentos divergem muitas vezes, mas nenhum deles consegue formular uma proposta nova, seja em substituição, seja paralela à linha do governo no exílio. Ao mesmo tempo, devido ao carisma do Dalai Lama, a maioria dos tibetanos de dentro do país considera legítimo o governo no exílio. O dirigente máximo parece imune à desconfiança gerada a partir da renúncia à independência e da incapacidade de chegar a uma solução concreta para a questão tibetana.

Não obstante, deve-se distinguir a ação diplomática de seu governo no exílio daquela exercida pelo Parlamento, que pretende representar todos os tibetanos, inclusive os que vivem na China. A base eleitoral do Parlamento é a comunidade exilada na Índia e no Nepal, conforme a filiação desta às três regiões tradicionais do Tibete histórico. Nele também estão representadas as cinco linhagens religiosas (Bonpa, Nyingmapa, Kagyupa, Sakyapa e Gelugpa – ver nota 3), assim como as diásporas da Europa e da América do Norte. Esse complexo cruzamento de “circunscrições” não garante, porém, o debate político.

Um dos problemas é que o Parlamento funciona sem partido. A Constituição provisória não faz a menor referência a esse sistema de representação, apesar das reformas políticas que possibilitaram a separação dos poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), o direito de voto e a eleição por sufrágio universal. Ter instituições democráticas não bastará para instituir uma democracia enquanto perdurar a ausência de expressão partidária. Ainda mais quando se considera a clivagem, não formulada, mas real, entre independentistas e autonomistas.

Nas últimas eleições legislativas realizadas pelos tibetanos no exílio, em março de 2006, alguns deputados se declararam favoráveis à independência, mas não mantiveram o compromisso com essa idéia durante o mandato. Afinal, é difícil exprimir uma opinião diferente daquela propagada pelo Dalai Lama. Qualquer discordância é imediatamente percebida como uma oposição ao líder espiritual. Mesmo assim, um número crescente de parlamentares apóia a independência e alguns sugerem um reagrupamento à margem da instituição oficial. Para eles, as possibilidades de manobra são restritas em virtude de muitos fatores desfavoráveis: a situação precária dos refugiados, a frágil tolerância da Índia, a pressão dos governos estrangeiros pela manutenção do status quo e as represálias chinesas contra os tibetanos do interior.

No entanto, a caixa de ressonância midiática oferecida pela proximidade dos Jogos Olímpicos trouxe-lhes um elemento novo: a oportunidade de denunciar ao mundo a dominação chinesa. Na Índia, as cinco principais organizações independentistas se uniram para realizar uma marcha de retorno ao Tibete, iniciada no dia 10 de março passado. À mobilização, prontamente obstruída pelas autoridades indianas, seguiu-se uma nova onda de manifestações. Passeatas irromperam em Lhasa e outras localidades.

Mas a radicalização do país ainda não dispõe de uma verdadeira “voz” política. Do outro lado do balcão, o atual presidente chinês, Hu Jintao, sabe dos riscos que os fatos novos comportam. Secretário do Partido Comunista do Tibete durante as manifestações de 1989, foi ele que, na ocasião, ordenou pessoalmente a repressão e decretou a lei marcial. Na época, Jintao teve certeza de que o tremor no Teto do Mundo foi o precursor dos acontecimentos da Praça da Paz Celestial 9.

A crise do Tibete ameaça transbordar para outras regiões onde germinam reivindicações identitárias, como a dos uigures de Xinjiang e a dos mongóis da Mongólia Interior. Pequim parece aturdida diante da situação. Com sua festa olímpica ameaçada, os dirigentes chineses não sabem como conciliar a preservação de uma boa imagem internacional com a manutenção da estabilidade interna.

 

*Mathieu Vernerey é jornalista.



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