Três histórias de amor - Le Monde Diplomatique

Três histórias de amor

por Juliano Giassi Goularti
27 de novembro de 2019
compartilhar
visualização

Passados quatro séculos desde que William Shakespeare escreveu Romeu e Julieta, a peça continua viva como nunca. Adaptada para o teatro, cooptado para o cinema, apropriado para os quadrinhos, afinado para ópera e ajustado para novelas e séries de TV, Romeu e Julieta transcendeu a fronteira do tempo e rompeu a barreira do espaço. Publicado no século XVI, no início da carreira Shakespeare, a peça de teatro se tornou a mais famosa história de amor da literatura. Nem mesmo o ódio entre os Montecchio e os Capuleto foi capaz de afastar o amor de Romeu e Julieta.

Romeu começa a peça apaixonado por Rosaline. Mas expressa sua decepção por não ter seu amor correspondido. Assim Romeu vai numa festa organizada pela família Capuleto para esquecer Rosaline e vê pela primeira vez Julieta. Ao ver Julieta esquece Rosaline em apenas um olhar, em uma fração de segundo. Romeu diz que Julieta é a mulher mais linda que ele já viu a vida inteira. Antes de Romeu conhecer Julieta, ele ama Rosaline, sobrinha de Capuleto e prima de Julieta. De domingo para segunda-feira na festa dos capuletos Romeu e Julieta se conhecem. Namoram na segunda-feira. Casam na terça-feira e na quarta-feira tem sua primeira e única relação sexual. Na quinta-feira morrem. Um amor que vai de domingo à noite até quinta-feira. Um amor intenso, o mais famoso na história universal, que durou não mais do que quatro dias. Quatro dias! Julieta não seguiu as ordens de seu pai. Seguiu seu coração. Rompeu com o conselho paterno e sua desobediência resultou num desfecho trágico, sua morte.

Histórias de amor e justiça social

Muito diferente do romance fictício de Romeu e Julieta é o amor intenso, profundo e real amor de Simón Bolívar e Manuela Sáenz1 e de Giuseppe Garibaldi e Anita Garibaldi. Um amor entrelaçado pela revolução, pela guerra e pelos ideais de liberdade e justiça social. Um amor muito diferente de Romeu e Julieta. Apesar da diferença de enredo e desfecho, o amor de Bolívar e Manuela e de Garibaldi e Anita também começou no primeiro olhar e enfrentou resistência familiar por parte dos pais de Manuela e do tio de Anita. Antes de Bolívar se apaixonar por Manuela foi casado com María Teresa e Garibaldi enamorado por Manuela, sobrinha de Bento Gonçalves. A febre amarela separou María Teresa de Bolívar e o destino de Garibaldi foi pelear em Santa Catarina ao lado das tropas de Canabarro também o separou de Manuela de Paula.

A vida social e política da equatoriana Manuela e a brasileira Anita estão conectadas. Por determinação dos pais, Manuela se casou com o rico comerciante inglês James Thorne e Anita com o sapateiro Manoel Duarte. O resultado é que ambas vivem um amor infeliz e arranjado. Tudo muda para Manuela quando o general Bolívar montando em seu cavalo branco entra com seus soldados em Quito e para Anita quando capitão Garibaldi toma o porto de Laguna e percorre no lombo de seu cavalo baio as ruas da cidade. Manuela atira um boque de rosas em Bolívar, chamando a atenção do general, e Anita enrolada na bandeira da república Rio-Grandense desperta o olhar do capitão Garibaldi.

Entrelaçadas pelo triângulo: amor, revolução e liberdade, Manuela e Anita renunciam o casamento arranjado pelos pais para lutar bravamente ao lado do exército de Bolívar e de Garibaldi. Enfrentando todo o tipo de preconceito social, de gênero e religioso, Manuela Sáenz, A Libertadora do Libertador, e Anita Garibaldi, A heroína dos dois mundos, vão para o campo de batalha lutar pela glória da revolução e pelos oprimidos do império. Se, por um lado, Manuela salvou Bolívar de um ataque orquestrado por aliados de Santander, por outro, Anita fugiu da prisão dos imperiais em Curitibanos levando um tiro de raspão cortando seu cabelo. Pela liberdade e revolução Bolívar percorreu 90 mil quilômetros pela América Latina, incluindo barco, mula, cavalo e a pé. Percorreu mais quilometragens do que Júlio César, Napoleão Bonaparte, Aníbal Barca e Carlos Magno juntos. Já Garibaldi, pelos mesmos ideários, cruzou o Atlântico, lutou no Brasil, no Uruguai e na Itália.

Assim como a história fictícia de Romeu e Julieta de Shakespeare, a história real de amor do general Simón Bolívar e Manuela Sáenz e do capitão Giuseppe Garibaldi e Anita Garibaldi romperam o perímetro do tempo e continua vivo na memória de uma das mais fantásticas histórias de amor, liberdade e revolução. O grande feito é que a história de Bolívar e Garibaldi seria incompleta sem o amor de Manuela e Anita. A guerra pela América Espanhola Independente e pela república do Rio Grande, embora não realizado, jamais será contada sem a bravura de Manuela Sáenz e do heroísmo de Anita Garibaldi.

Não obstante, se uma peça eurocentrista de amor fictício que durou não mais de quatro dias se tornou a mais famosa história de romance trágico da literatura universal, o que se dirá do amor real entrelaçado pelas campanhas de libertação e revolução de Simón Bolívar e Manuela Sáenz e de Giuseppe Garibaldi e Anita Garibaldi?

Juliano Giassi Goularti é doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp



Artigos Relacionados

Abastecimento

Arroz: uma crise anunciada

Online | Brasil
por Sílvio Isoppo Porto
Feminismos transnacionais

Uma reflexão sobre os desafios da construção do feminino nas telenovelas

por Rosane Svartman

Trabalho remoto, saúde e produtividade na perspectiva de gênero

Online | Brasil
por Patrícia Maeda

Contradições no acolhimento de refugiados no Brasil

Online | Brasil
por Juliana Carneiro da Silva
INDÍGENAS, A ÚLTIMA BARREIRA

Todas as coisas ruins que acontecem vêm de pessoas civilizadas

Online | Brasil
por Marcilia Brito
TEATRO

Despejo da Cia. Pessoal do Faroeste envergonha e empobrece São Paulo

Online | Brasil
por Eliane Alves da Silva, Benedito Barbosa, Francisco Comaru
Resenha

Destruir a democracia

Online | Brasil
por Fábio Zuker
PANDEMIA

Planos de saúde dão uma “banana” para seus clientes

Online | Brasil
por Leandro Farias