Turquia, eleição decisiva
Os islamitas tendem a obter novas vitórias, na renovação do Parlamento e na escolha do próximo presidente turco. Embora o risco de fundamentalismo seja real, a eleição pode significar uma virada, ao superar o controle do exército sobre a vida políticaIgnacio Ramonet
Uma crise política grave resultou na convocação de eleições parlamentares antecipadas, na Turquia. Serão realizadas em 22 de julho. Devem-se a um impasse na eleição, pelo Parlamento, de um novo presidente da República. A escolha deveria ter sido concluída no início de maio. O candidato favorito era Abdulla Gül, indicado pelo partido majoritário AKP. Às vésperas do pleito, protestos gigantescos contestaram sua eventual eleição, que, segundo os manifestantes, poderia levar à islamização do país. O fator decisivo para a crise foi, porém, uma manifestação militar. Em 27 de abril, o comando das Forças Armadas divulgou, em seu site na internet, uma nota condenando a eventual posse de Gül.
Em resposta, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, líder do AKP, convocou eleições que renovarão o Parlamento. Espera-se uma grande vitória de sua agremiação. Este novo Legislativo indicará o presidente. Os impasses da Turquia são tema do editorial de Ignacio Ramonet, redigido antes de eclodir a crise política
É o fim de um ciclo, uma verdadeira mudança de era que esta eleição presidencial anuncia. Devido aos desafios que se apresentam para o futuro, a Europa inteira segue cuidadosamente a disputa eleitoral em curso. Necessariamente novo no posto, o presidente que ganhar em maio conseguirá restabelecer a confiança, aliviar as tensões entre as comunidades e relançar o debate com a União Européia?
Falamos, certamente, da Turquia que, em meio a violentas manifestações, elege no início de maio, por sete anos, o seu novo presidente que tomará posse no dia 16 desse mês.
Sobretudo honoríficas, as funções do presidente turco (atualmente Ahmet Necdec Sezer) conferem a ele poder de nomear juízes, reitores de universidade e o chefe do Estado-maior do exército — e de dissolver o parlamento. Não é eleito por sufrágio universal, mas pelos deputados. O parlamento está dominado (354 cadeiras do total de 550) pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) do primeiro ministro Recep Tayyip Erdogan, 53 anos, chefe do governo há mais de quatro anos e muito popular devido à boa situação da economia [1]. Por conseguinte, o candidato do AKP, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdullah Gül, é quem deveria naturalmente ser eleito.
É democrático impedir a vitória islâmica?
Onde está o problema? Embora o AKP defina-se como um partido conservador e democrata, fiel à Constituição laica estabelecida em 1922, por Mustafa Kemal Atatürk, fundador da Turquia moderna, seus oponentes o consideram antes de tudo um “islamita” e temem que um presidente procedente do Islã político faça recuar a laicidade. Em 14 de abril, em Ancara, uma das maiores manifestações de que a Turquia já teve notícia reuniu milhares de pessoas que se opõem ao candidato do primeiro ministro. O exército, cuja sombra pairou sobre a campanha eleitoral, multiplicou as vigílias e acusa o AKP de ter uma agenda islamita oculta. Erdogan desmentiu.
Realmente, uma página se vira. Os militares sentem que chegou a hora do fim da tutela que exercem sobre o país. Mas mantêm – em especial desde a chegada do general Yasar Büyükanit ao comando do exército, em agosto de 2006 – uma chantagem nacionalista, baseando-se no artigo 301 do código penal turco [2].
Os militares endureceram o tom diante das “ameaças regionais”. Pensam na Al-Qaeda e suas redes terroristas e no projeto nuclear do Irã. Mas, sobretudo, no “perigo separatista”. Acusam as autoridades do Curdistão iraquiano de fornecer apoio logístico a cerca de cinco mil combatentes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que retomaram a guerrilha nas zonas fronteiriças com o Iraque. E opõem-se à união da cidade de Kirkuk (Iraque), com suas ricas jazidas de petróleo, ao Curdistão iraquiano sob o pretexto da existência de uma minoria turcomena nessa cidade .
Tal escalada chauvinista favoreceu o regresso de velhos demônios e não é estranha ao assassinato, em janeiro passado, do jornalista turco-armênio Hrank Dink, ou à partida para o exílio do escritor Orhan Pamuk, recente Prêmio Nobel de Literatura.
Por ter mandado às calendas gregas uma eventual adesão da Turquia, a União Européia é, em parte, responsável por essa degradação política. A direita laica e os militares nacionalistas que controlam o país há oito décadas são, agora, ferozmente antieuropeus. Como se sentissem que uma adesão à Europa os levaria a perder suas prerrogativas e privilégios.
A presidência da República é um dos seus últimos bastiões. É tempo de aceitar a alternância. Esse é o preço da verdadeira democratização da Turquia.
Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.

