Ultraprocessados, ultraesfomeados e o sistema agroalimentar moderno

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Ultraprocessados, ultraesfomeados e o sistema agroalimentar moderno

por Elaine de Azevedo
3 de maio de 2021
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Alguns parágrafos são suficientes para mostrar como o sistema agroalimentar dominante e o agronegócio andam junto com os alimentos ultraprocessados e formam uma trindade indissolúvel que causa desequilíbrio ambiental, insegurança alimentar, fome, doenças, desigualdades sociais e desesperança

O agronegócio faz parte do sistema agroalimentar hegemônico, também chamado de convencional ou moderno. É um sistema porque tem muitas partes interconectadas, cujo objetivo não é produzir soberania nem segurança alimentar. É, na real, uma dinâmica de caráter econômico que busca alta produtividade de alimentos de baixa qualidade e alta durabilidade e gera concentração de renda para poucos e desequilíbrio ambiental.

O sistema se inicia em grandes áreas de terras expostas por ecossistemas destruídos e florestas queimadas, que excluem os pequenos agricultores e acabam com a possibilidade de uma divisão fundiária mais equitativa. O solo nu e empobrecido é preparado com o uso intenso de fertilizantes à base de NPK, que promovem o cultivo de monoculturas fragilizadas, e, como todo organismo malnutrido e solitário, sofre e fica vulnerável, atraindo os diversos indicadores desse desequilíbrio: insetos, larvas, ácaros, fungos e plantas invasores – simplificadamente chamados de “pragas da agricultura”.

Para combater essas doenças, na verdade um desequilíbrio artificialmente causado, o sistema utiliza agrotóxicos: pesticidas, nematicidas, fungicidas, herbicidas e outros parentes da família cida, um sobrenome originário do latim que significa “morte”.

Para cultivar e colher nas grandes áreas de monoculturas que interferem na biodiversidade e envenenam não só os cultivos, mas também as águas, os solos e o ar, o sistema precisa de maquinário e emprega poucos humanos. Além disso, faz uso de transporte baseado em petróleo para levar essas culturas a longas distâncias; às vezes ultramar, bem longe de sua origem. Seguem junto com a exportação nossa paisagem, a fertilidade de nossos solos, nossa água e nossa soberania. O destino desse grãos é, majoritariamente, virar proteína animal ou agrocombustível. Até aqui o sistema pode ser também chamado de agronegócio.

Se trocar as monoculturas de grão por extensas áreas de capim para rebanhos bovinos criados no pasto, com ração feita de grãos e drogas veterinárias ou por aves e suínos confinados sobrevivendo graças a antibióticos, temos o sistema da carne industrial. Este termina nos frigoríferos para oferecer proteína animal para poucos aqui e para muitos lá fora.

O sistema continua quando estaciona caminhões de cana, soja, milho e trigo nos pátios da indústria alimentar, que se abraça com a indústria química para transformar monocultura em alimentos que durem muito nas prateleiras, produzam saciedade e adição, custem pouco e iludam os comedores.

Para que durem muito, o sistema os torna estéreis por meio de impactantes procedimentos industriais, como irradiação, secagem, refinamento, altas temperaturas e pressão, apertização e hidrogenação. Depois de sofrerem os impactos desses procedimentos, os alimentos perdem qualidade e precisam de uma maquiagem. Assim, para corrigir as imperfeições, acrescentam-se vitaminas, minerais e aditivos químicos sintéticos – corantes, aromatizantes, emulsificantes etc., para dar cor, sabor, crocância, odor, maciez e aparência de comida perdidos durante o processo industrial. E essa indústria também utiliza restos de carne e leite para produzir produtos cárneos e lácteos de baixa qualidade e mais acessíveis.

E assim, mascarados com poucos grãos integrais, açúcares, sal, gorduras hidrogenadas, vitaminas e sabores artificiais, sob as promessas de um corpo perfeito, endossados por estudos científicos financiados pela própria estrutura que os produz e protegidos por embalagens atraentes e rótulos de “saudáveis”, “funcionais”, “lights”, “diets” e “naturais”, os produtos das monoculturas são vendidos nas grandes redes varejistas.

Isso tudo acontece com o apoio da mídia, que fomenta a ilusão dos consumidores e a corruptibilidade de governos e parlamentares, insensíveis aos apelos ambientais e de saúde coletiva do povo que os elegeu.

O sistema agroalimentar não acaba aqui. Torna-se cúmplice da lógica hospitalocêntrica que transpassa o binômio saúde/doença e da indústria médico-farmacêutica, que oferece procedimentos e medicamentos para diagnosticar e tratar as doenças e os dissabores causados por esses produtos do agronegócio, mais conhecidos como alimentos ultraprocessados.

agroalimentar
(Infográfico: Mauro Pinheiro)

Sistema agroalimentar, ultraprocessados e doenças

Entre os desequilíbrios causados por esses alimentos envenenados e ultraprocessados estão a obesidade, de um lado, e a insegurança alimentar e a desnutrição, de outro.

Além desse quadro paradoxal, podemos relacionar o consumo desses alimentos, incluindo os in natura convencionais, a diversos tipos de câncer, cujas taxas aumentam a cada ano; imunodepressão; desordens neurológicas, desde enxaquecas até depressão, suicídio, Alzheimer, autismo, deficiências cognitivas e hiperatividade em crianças; esterilidade em adultos; aborto e problemas congênitos em bebês; dermatoses; doenças respiratórias; anemia; resistência a antibióticos e alergias. Esse é o saldo de um pacote que inclui fertilizantes+agrotóxicos+drogas veterinárias+aditivos sintéticos, além de transgenia, irradiação e outras tecnologias agroalimentares.

Destaco ainda as preocupantes repercussões dos sistemas industriais de produção animal, sua alta domesticação e o consequente estreitamento indesejado entre pragas selvagens e atividades humanas que vêm causando alerta sobre o surgimento de supervírus por cientistas como Rob Wallace em seu livro Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência (Elefante, 2020). Esse biólogo alerta que, nas grandes granjas de criação animal confinada, os microrganismos estariam encontrando as melhores condições para o aprimoramento de sua patogenicidade – a capacidade de infectar humanos – e para o aumento de sua virulência – a capacidade de nos causar danos.

As gripes suínas, aviárias e a doença da vaca louca ainda não foram suficientes para compreendermos tais alertas. Esperamos que o novo coronavírus nos torne mais atentos e nos dê tempo para lutarmos contra aquele que é o maior impacto desse sistema e pode ser a cartada final sobre a vida no planeta: o aquecimento global, causado pelas maciças emissões de gases de efeito estufa, resultado da queima de combustíveis fosseis e das mudanças no uso da terra, como o desmatamento, para produzir proteína animal, ultraprocessados e concentração de renda.

 

Todos que comem esses produtos adoecem, mas quem mais sofre?

Quem mais sofre as repercussões desse sistema são os pequenos agricultores familiares e as comunidades tradicionais remanescentes do mundo rural, obrigados a migrar para as franjas das grandes cidades para serem explorados, junto com os grupos sociais mais vulneráveis socialmente – negros e, especialmente, mulheres negras – que não foram contemplados com terra, herança ou acesso a educação e saúde, e no campo, nas florestas e nas cidades passam fome ou só comem alimentos de alta densidade energética, envenenados, de baixo custo e qualidade, que promovem saciedade, insegurança alimentar e diversas enfermidades supracitadas. Os mesmos alimentos ultraprocessados que, por incrível que pareça, também seduzem muitos que poderiam comer comida orgânica, de origem familiar, local, variada e fresca. A comida de verdade.

 

Aglomeração de (ir)responsáveis

Metade do povo brasileiro fez um casamento desastroso com esse atual governo em 2018. Uma relação bem honesta na verdade, porque, durante o turbulento contrato de núpcias, o atual presidente nunca escondeu que priorizaria os corresponsáveis pelo agravamento da insegurança alimentar e pela destruição ambiental.

Os amantes? Muitos. O site De Olho nos Ruralistas destaca quase duas dezenas de associações e sindicatos1 do agronegócio ligados à produção de soja, algodão, cana-de-açúcar, leite, fumo e pecuária, além do poderoso e discreto Instituto Pensar Agropecuária, que banca, silenciosamente, a Frente Parlamentar Mista da Agropecuária (apelidada de bancada ruralista).

De variados modos, os amantes verde-amarelos são mantidos financeiramente pelos cafetões do agronegócio, que subsidiam essa onerosa paixão entre o Estado e o agronegócio: empresas nacionais e multinacionais, como Bayer, Basf, DuPont, Syngenta, Aurora, Seara, 3M, JBS, Nestlé, Frimesa, Danone, Suzano, Klabin, Bunge, BRF, além de Souza Cruz e Phillip Morris e entidades financeiras, como Banco do Brasil, Santander, Itaú, Sicredi, B3 (ex-Bovespa) e o banco holandês Rabobank. E seus acionistas, consciente ou inconscientemente.

Como se vê, são muitos atores que atuam no palco desse sistema agroalimentar – o agronegócio, a mídia, a publicidade, a ciência, os supermercados, o Estado. Todos dançam a música orquestrada pelas grandes corporações que produzem insumos, tecnologia, maquinário, ultraprocessados, concentração de renda, desemprego rural, destruição ambiental, doenças, insegurança alimentar e fome nos países em desenvolvimento. E, à frente, o maestro, nosso conhecido neoliberalismo.

Da parte do Estado, o presidente do Brasil tem assumido as cláusulas de seu acordo nesse sistema. Desde 2019, o governo desestrutura as políticas de segurança alimentar e de bem-estar social que beneficiaram durante alguns anos quem produz comida no país, como o Bolsa Família, o Pronaf e o Programa de Aquisição de Alimentos (que já chegou a beneficiar 129,8 mil agricultores familiares em 2012). No dia em que assumiu o governo, o presidente destituiu o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional e enfraqueceu a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Extinguiu o Ministério de Desenvolvimento Agrário, que apoiava a agricultura familiar, e congelou diversas modalidades de financiamento para esse setor. Enquanto desmonta o sistema que produz comida, o governo fortalece o Ministério da Agricultura, que agora destina 85% da verba da agricultura para o agronegócio de exportação de commodities e de produção de ração e agrocombustíveis. Também vem desqualificando a Companhia Nacional de Abastecimento e sua política pública de criar estoques regulares para manter o preço baixo de alimentos básicos, como arroz e feijão. Pressionada pelos interesses das grandes empresas alimentares, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, atacou recentemente o Guia Alimentar da População Brasileira, que desaconselha o consumo de ultraprocessados.2 Desde que foi eleito, o presidente já liberou cerca de mil novos agrotóxicos para agradar a amantes e cafetões. Também ignora a violência no campo e a morte de ambientalistas e agricultores e criminaliza movimentos que lutam pela reforma agrária, um direito garantido na Constituição. Mais recentemente, já com cerca de 15 milhões de desempregados, 19 milhões de brasileiros esfomeados, 9% da população em situação de insegurança alimentar grave, mais de 50% de famílias obrigadas a cortar o consumo de itens essenciais e com o país batendo novamente à degradante porta do Mapa da Fome,3 o governo está interferindo na mais antiga e eficiente política pública de alimentação: o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Ele exige a inserção de alimentos ultraprocessados na alimentação escolar e o aumento de carnes e derivados, bem como a saída de nutricionistas que zelam pela qualidade nutricional e alimentar dos cardápios escolares.

Esse show de horrores acontece sob o aumento das taxas de serviços básicos (água, eletricidade e gás), a desestruturação do Sistema Único de Saúde e o corte do auxílio emergencial e em meio à maior pandemia e crise sanitária mundial, que já matou mais de 400 mil brasileiros.

 

Quem responsabilizar?

A multiplicidade de atores e a complexa rede de poderes acabam por possibilitar o esquive da responsabilidade das incontáveis repercussões econômicas, sociais, ambientais e éticas e sobre a soberania, a segurança alimentar e a saúde coletiva resultantes desse perverso sistema. E, como não é possível colocar a culpa em um ator, todos acabam isentos.

Ironicamente, a responsabilidade de mudar o sistema acaba caindo sobre o consumidor, que, com seu poder de compra, poderia mudar o quadro. Nós, comedores, temos nosso papel nesse sistema, mas que esse clamor não desvie a responsabilidade e acabe por culpabilizar a própria vítima, vítima essa que não é o comedor privilegiado, que pode optar por alimentos de verdade, mas aqueles que vivem em desertos alimentares, sem emprego, sem políticas de bem-estar, recebendo ocasionalmente uma cesta básica repleta de alimentos de baixa qualidade.

Diante dessa denúncia, que nos deixa desiludidos e impotentes, é bom lembrar que existem outros sistemas. E, para matar, não minimizar, a fome dos brasileiros e garantir sua saúde, só com um Estado que apoie um sistema agroalimentar responsável. Essa possibilidade a gente define nas urnas.

 

Elaine de Azevedo é nutricionista e socióloga, professora da Universidade Federal do Espírito Santo e autora do livro Alimentos orgânicos, do podcast Panela de Impressão e da Escola Livre ComidaETC.

 

1 Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja, Associação dos Produtores de Soja, Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal, Associação Brasileira da Indústria do Fumo, Associação Brasileira do Agronegócio, Associação Brasileira de Produtores de Algodão, Associação Brasileira de Proteína Animal, Sindicato Nacional das Indústrias de Alimentação Animal, União da Indústria da Cana-de-Açúcar, Indústria Brasileira de Árvores, Associação Nacional de Defesa Vegetal, Viva Lácteos, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Conselho das Entidades do Setor Agropecuário, entre outras.

2 “Tereza Cristina determinou recuo sobre Guia Alimentar brasileiro, mostram documentos”, Época, 12 out. 2020.

3 Dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan). Disponível em: http://olheparaafome.com.br.



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