Um arremedo de democracia - Le Monde Diplomatique

PARAGUAI

Um arremedo de democracia

por Raphaëlle Bail
1 de junho de 2003
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Suspeitos de terem organizado o seqüestro da mulher de um rico empresário, dois membros do movimento Pátria Livre foram encontrados presos e torturados. O poder paraguaio foi pego em flagrante. Seu aparelho de repressão, com métodos herdados da ditadura, continua na ativa.Raphaëlle Bail

Aos 13 anos de idade, a “democracia” paraguaia está mergulhada desde fevereiro de 2002 numa novela político-judiciária macabra e rocambolesca. Enquanto María Edith Debernardini, mulher de um rico empresário, desapareceu há várias semanas, os investigadores dos serviços de polícia judiciária explicam que ela foi vítima de ativistas de um movimento político de esquerda que optou por se financiar através dos seqüestros. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), acrescentam eles, não procedem desta maneira?

Dois “suspeitos”, Juan Arrom, membro dirigente do movimento Pátria Livre (fundado em 1990) e Anuncio Martí, jornalista e militante do mesmo movimento, são nominalmente citados. Mal são assim designados e desaparecem. Eles têm o perfil perfeito de culpados em fuga. Suas famílias e as mídias que cobrem o caso acabariam por lhes encontrar in extremis, prisioneiros e torturados numa mansão nos subúrbios de Assunção.

Puro stroessnerismo

Por que a polícia fez tudo para impedir as famílias de encontrar as duas vítimas e o governo se obstinou em fazer de Arrom e Marti culpados, acusando-os de ter organizado seu próprio seqüestro?

As questões não tardam a despontar: por que, antes deste epílogo, a polícia fez tudo para impedir as famílias de encontrar as duas vítimas? Por que o governo se obstinou em fazer de Arrom e Marti culpados, acusando-os de ter organizado seu próprio seqüestro? Extenuado, com as marcas da tortura ainda visíveis em seus punhos, Arrom daria sua versão dos fatos. “Fui detido pela polícia. Quiseram me indiciar, com meu movimento, por seqüestro e me fazer confessar uma conspiração imaginária contra o governo, que incluiria o Pátria Livre e todos os outros partidos de oposição. No fundo, este método é puro stroessnerismo”.

O poder paraguaio foi, então, pego em flagrante: herdada da época do ditador Alfredo Stroessner, sua natureza profundamente repressiva apareceu cruamente. Está a cada dia um pouco mais evidente que os dois homens foram vítimas do aparelho repressivo do Estado.

Com o retorno da democracia no Cone Sul, o Paraguai parecia se alinhar a seus vizinhos: em 1989, Alfredo Stroessner, forçado ao deixar o poder depois de 35 anos, deixou atrás de si uma das ditaduras mais negras e mais cruéis da região. Ao menos 150 mil pessoas teriam passado pelas prisões da ditadura e se contabiliza de mil a três mil mortos e desaparecidos num país de 5,6 milhões de habitantes1



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