Um balanço da visão estratégica da Petrobras desde 2017

DESINTEGRAÇÃO E CURTO PRAZO

Um balanço da visão estratégica da Petrobras desde 2017

por Rafael Rodrigues da Costa
13 de março de 2019
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Para entendermos os pormenores que ocasionaram as mudanças estratégicas e gerenciais da Petrobras no governo Temer, cumpre-nos um breve olhar sobre as gestões de Pedro Parente e Ivan Monteiro

Durante o governo Michel Temer (2016-2018) a Petrobras passou por turbulentas mudanças, seja do ponto administrativo como estratégico. Estas seguiram acompanhas pelas intempéries do cenário político-jurídico, como a crise da Lava-Jato e a greve dos caminhoneiros, mas também marcada pelos interesses de grupos organizados, como o agronegócio, o mercado financeiro e as petrolíferas estrangeiras.

Nesse período, a Petrobras oscilou de uma gestão prioritariamente voltada para a redução do endividamento da companhia no curto-prazo – que incluía um amplo programa de desinvestimentos atrelado a uma política agressiva de preços – para assumir uma visão estratégica mais pragmática, que embora compreendesse a importância de realizar uma gestão cautelosa de sua dívida, ao mesmo tempo buscou preservar a estratégia enquanto empresa integrada.

Para entendermos os pormenores que ocasionaram as mudanças estratégicas e gerenciais da Petrobras no governo Temer, cumpre-nos um breve olhar sobre as gestões de Pedro Parente e Ivan Monteiro.

A preocupação com o endividamento veio desde a administração Bendine, mas foi com Pedro Parente que a obsessão com a alavancagem da dívida foi elevada a prioridade de gestão. Com o intuito de reduzir o endividamento de 5,1 da relação dívida líquida/Ebitda para 2,5 em cinco anos, Parente propôs, em janeiro de 2017, um ostensivo programa de desinvestimentos de US$ 21 bilhões, que previa a venda de ativos em negócios relacionados ao refino e petroquímica, além de distribuição e transporte.

Na teoria, a estratégia pretendia otimizar o portfólio da empresa para focalizá-la em seus negócios com maior retorno financeiro, isto é, a exploração e produção (E&P) de óleo e gás. Na prática, isso significou a redução total dos investimentos de 37%, caindo de US$ 76 bilhões em 2015 para US$ 48 bilhões em 2017, e a subutilização do parque de refino, cujo percentual de uso da capacidade das refinarias caiu de 79% em outubro de 2016 para 67% em janeiro de 2018; além da hibernação das fábricas de fertilizantes nitrogenados etc.

Todo esse movimento de redução de mercado da Petrobras foi seguido por significativas mudanças regulatórias no setor, como a alteração da lei de partilha, a flexibilização na política de conteúdo local e uma maior celeridade no calendário de leilões. Essas mudanças, consequentemente, facilitaram não só a entrada das petroleiras estrangeiras como também garantiram a compra de bens e serviços aos fornecedores de seus países de origem.

Nessa mesma época, ainda, a Petrobras se desfez de inúmeros blocos exploratórios de petróleo (como o BM-S-8, incorporado pela Statoil) e campos do pré-sal (como os de Iara e Lapa, arrematados pela Total) em transações que também privilegiaram, em geral, as grandes petrolíferas internacionais, com destaque para as norte-americanas e chinesas.

No entanto, a mais famosa marca da gestão Pedro Parente na Petrobras foi a mudança na política de preços dos combustíveis com paridade ao mercado internacional. Iniciada em julho de 2017, ela alterou a temporalidade dos reajustes, que passaram a ser diários em vez de mensais. Essa mudança, combinada com a subtilização do refino da Petrobras, abriu um espaço importante para as importadoras de derivados de petróleo, que aumentaram a sua participação para 24% no mercado interno no mesmo ano.

A consequência é que a Petrobras aproveitou-se da conjuntura internacional, em um momento de escalada acelerada do preço do barril do petróleo, para tentar resolver seus problemas de financiamento no curto prazo, o que acabou por desorganizar a estrutura de custos de diversos setores da indústria e de serviços, sobretudo o de transporte, uma vez que o preço da gasolina vendido pelas refinarias da companhia aumentou cerca de 35% em menos de três meses – ocasionando, assim, o ensejo à greve dos caminhoneiros e, posteriormente, dos petroleiros.

A paralisação dos caminhoneiros, por sua vez, causou graves danos políticos e econômicos ao governo – que, a fim de contornar a crise, apresentou, além do subsídio aos combustíveis, a demissão de Parente e a indicação de Ivan Monteiro como resposta às reivindicações de revisão na política de preços da Petrobras.

Ao assumir o cargo, em junho de 2018, Ivan Monteiro reconheceu, a despeito da necessidade de continuação da redução do endividamento, a relevância da atuação da Petrobras em outros segmentos da cadeia parapetrolífera, como o necessário reposicionamento da empresa na gestão do refino e renováveis, além de uma gradual retomada na expansão dos investimentos da companhia. A reorientação estratégica de Monteiro ficou ainda mais evidente após a divulgação do Plano de Negócios e Gestão (PNG) 2019-2023, em dezembro de 2018, no qual algumas diretrizes denotam uma inflexão na condução da Petrobras.

A primeira delas é a retomada da expansão nos investimentos em upstream. A fim de acelerar suas atividades de E&P, os investimentos projetados para os próximos cinco anos devem crescer quase 15%, saindo de US$ 60,3 bilhões para US$ 68,8 bilhões até 2023. É uma mudança significativa, sobretudo quando se observa que nos três últimos PNGs os investimentos desse segmento sofreram uma redução de quase US$ 20 bilhões.

Por outro lado, no dowstream, a estratégia é diametralmente oposta. Isso porque a Petrobras indica uma redução da sua participação no refino (de 100% para 60% do mercado interno) ao mesmo tempo em que mantém os investimentos no patamar atual dos três últimos PNGs, entre US$ 12 bilhões e US$ 13 bilhões. Além disso, não há previsão de novos investimentos no refino após a conclusão do segundo trem da RNEST.

Conforme sublinhou Rodrigo Leão (2019),[1] as novas diretrizes da Petrobras, embora menos pragmáticas do que a gestão Parente, ainda assim mantiveram-se míopes frente às oportunidades internas que devem surgir nos próximos anos. Com as estimativas de crescimento da produção de petróleo em cerca de 5% ao ano, que devem fazer a produção se aproximar dos 3,2 bilhões de barris/dia em 2023, bem como o consumo de combustíveis, pelo menos no setor de transporte, que devem aumentar cerca de 2% ao ano no próximo triênio, a Petrobras do governo Temer encerrou menos endividada, mas também menos estratégica.

 

*Rafael Rodrigues da Costa é mestrando em Ciências Sociais pela Unifesp, pesquisador visitante do NEC/UFBA e auxiliar de pesquisa no INEEP.

 

[1] Rodrigo Leão, O reposicionamento estratégico da Petrobras, Valor Econômico, 7 jan. 2019.



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