Um futuro chamado Frieda

LITERATURA

Um futuro chamado Frieda

Acervo Online | Alemanha
por Luís Alfredo Galeni
11 de março de 2019
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Não entendemos o nosso mundo, ignoramos ou esquecemos do passado que nos foi legado e que nos constitui, nem tampouco o futuro que está por ser construído a partir de nossas ações

Perceber a existência da kalokagathia, expressão da filosofia grega traduzida como o Belo e Bom/Virtuoso, diante do mundo que está em pé diante de nossos olhos é uma tarefa difícil, pois, precisamos compreender em que tempo estamos, que mundo herdamos e legaremos às gerações futuras.

O Belo e Bom são doutrinas que estão ligadas diretamente ao tempo presente e ao tempo vindouro, pois exige de nós, segundo a visão dos gregos, uma mudança em nossas ações diante daquilo que queremos ser, em vista de um ideal que nos foi deixado. Em Os Miseráveis, de Victor Hugo, o personagem Jean Valjean, comete um furto com a finalidade de alimentar a família de sua irmã e sua ação acaba por leva-lo à prisão. Dentro da cadeia ele se transforma em um homem ruim. São 19 anos apartado da sociedade, marcado pelo brutal sistema penal francês do século XVIII. Ele se torna um misérable, não pela sua pobreza ou por ter sido privado de seu bem mais precioso, a liberdade, mas justamente por não conseguir mais ver o Bom e Belo, por ter perdido qualquer perspectiva de tempo, aprisionando-se em um passado amargurado. Quando solto, vê o mundo dar as coisas a ele. Valjean, então, cheio de rancor, recorre novamente ao crime, roubando a prataria de seu bem-feitor, o Bispo de Digne, Don Bienvenu. Entretanto, em sua fuga é pego pela polícia. No intuito de se livrar da culpa, o herói mente dizendo que a prataria foi dada a ele pelo Bispo. Levado diante do religioso pelos policiais, Don Bienvenu confirma a história de Valjean, afirmando que a prataria foi presente dado por ele ao ex-condenado. E para a surpresa maior, o Bispo entrega os castiçais a Valjean, dizendo que ele havia se esquecidos desses outros presentes.

Em um gesto muito bonito de compaixão, Bienvenu desata as correntes temporais do passado que prendem Jean Valjean, possibilitando no desolado homem o vislumbre de um presente e futuro diferentes. Após esse acontecimento Valjean altera suas ações, sem perder de vista o que ele foi e quem ele veio a ser. É verdade que o futuro que se abre ao ex-condenado não é fácil e, na figura do chefe de polícia Javert, que personifica o próprio passado que busca negar a kalokagathia, Valjean passa por intempestivas situações.

Observemos outro misérable, mas esse um alemão. Comecemos com uma fala de K., em diálogo com Frieda em O Castelo, de Franz Kafka: “Você continua sendo a amante de Klamm, distante ainda de ser minha mulher. Às vezes isso me deixa triste, é como se tivesse perdido tudo; tenho então a sensação de ter acabado de chegar à aldeia, mas não esperançoso como antes na realidade estive, e sim consciente de que só me esperam decepções e que vou ter de prová-las uma depois da outra até a última gota. Mas isso só acontece de vez em quando e no fundo confirma a existência de algo bom, ou seja, aquilo que você significa para mim”.

Essa passagem é carregada de sutilezas, pois é construída uma narrativa com o tempo passado e presente de forte valor negativo, em relação a um futuro redentor, que vai de encontro com a lógica cristã da redenção. Frieda continua a amante de Klamm e isso a coloca distante de K., ou seja, o presente contínuo da relação amorosa entre o rival e sua amada, cria uma lacuna no tempo colocando-a fora de qualquer perspectiva futura de que ambos possam estar juntos. O presente de K. o aprisiona, dando-lhe a impressão de que perdeu tudo. A “prisão” temporal de K., o joga de volta ao passado, deixando-o mentalmente na mesma situação do momento de sua chegada à aldeia, com um acréscimo, ele sente como se vivesse novamente as mesmas experiências, sabendo tudo que viria a acontecer, ou seja, suas experiências estariam privadas do sentimento de novidade, de expectativa, de futuro. K, ao fim, recua e subverte sua prisão temporal, afirmando que esse sentimento só acontece “de vez em quando”, tentando anular sua constatação melancólica. Em seguida, deposita em Frieda a significação de sua kalokagathia. Frieda é a parte boa de K., ela desperta o sentimento bom.

Para nós, Frieda é uma falsa-kalokagathia, ela é, parafraseando Nietzsche, o prazer consigo mesmo diante da coisa. Frieda não é uma existência autônoma, ela está ali para ser a esperança, a salvação de K., ele busca se salvar de sua condição misérable transformando sua amada na chave libertadora de seu calabouço de tristeza. Seu prazer está em tê-la como o seu objeto, o prazer de sua vida não é a mudança, visando ações boas, belas, virtuosas ou justas, mas sim conquistar seu objeto de desejo. Ele se salvaria através do desejo e não da ação.

O leitor, diante dessa construção narrativa é levado a se colocar em perspectiva e imaginar algum outro que redime sua vida, um objeto de desejo que venha a ser sua kalokagathia. Entretanto, caso algo do gênero esperasse K. – tal como também não nos espera – seria mais adequado sua fala estar em tom menos remissivo à sua desolação e solidão, assemelhando-se ao modo das narrativas teleológicas. K. se expressa como se precisasse acreditar naquilo que diz, altera de um tom pessimista para um otimista, mas não chega a convencer. Ele precisa depositar no outro – em Frieda – sua felicidade futura, para que o passado desolador que retorna, formando um presente desesperançoso possam ser redimidos, libertando-o. No romance não sabemos nada sobre o passado de K, sabemos apenas que ele chegou ao Castelo para trabalhar como agrimensor mas dizem-lhe que não a necessidade de tal profissional ali. K., então, passa todo o romance tentando entrar em contato com o proprietário do castelo. O livro não tem uma conclusão, não sabemos se K. é efetivado como agrimensor ou se consegue falar com o proprietário do castelo. K. é uma figura sem passado e sem futuro, preso em seu próprio desejo por Frieda e por reconhecimento na estrutura burocrática do castelo.

Assim como K., em um labirinto existencial, metafórica referência ao castelo de enigmática burocracia e administração, um sem-fim que confunde e não dá certezas palpáveis, também, a nosso modo, vivemos uma espécie de exílio no Castelo de K. Diferentemente, Jean Valjean não depositou em Don Bienvenu sua salvação, ele depositou em suas próprias ações seu próprio ideal, sua kalokagathia foi a própria expectativa de suas ações rumo ao futuro, nunca se esquecendo do passado que o constituiu e o formou. O próprio Javert, ao final do livro, reconhece a humanidade de Jean Valjan, salvando sua própria consciência, mudando sua ação. Há, assim, uma dimensão de passado e futuro na obra.

A sociedade contemporânea, talvez, se assemelhe ao enredo de O Castelo mais do que com o enredo de Os Miseráveis. A nossa busca de ideal de Bom e Belo está voltada a desejos: mitos, heróis, objetos e cada vez menos a ações. Não entendemos o nosso mundo, ignoramos ou esquecemos do passado que nos foi legado e que nos constitui. Não almejamos um futuro que está por ser construído a partir de nossas ações. Imaginamo-lo, mas não o fazemos. Imaginamos um futuro desejado e inalcançável só para confirmar a existência de algo bom, para nos consolar da miséria de nosso tempo. A dimensão histórica e temporal têm desaparecido lentamente. Como afirmou Heidegger, em situações como essa, não conseguimos constatar nem a nossa própria decadência. Decaímos sonhando um futuro inalcançável, justamente por não fazermos nada para alcança-lo. Somos misérables desejosos de um futuro chamado Frieda.

 

*Luís Alfredo Galeni é mestre em estudos da literatura e professor de História.



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