Um sonho californiano - Le Monde Diplomatique

Alternativa energética

Um sonho californiano

por Agnès Sinaï
5 de julho de 2009
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O século XXI não terá a mesma exuberância de energia do anterior: o esgotamento iminente do petróleo é incontestável. De olho num futuro com outra matriz energética, o Vale do Silício se apresenta como uma nova Arábia Saudita, utilizando a tecnologia para transformar celulose em etanol

Vinte quilômetros ao sul de São Francisco, às portas do Vale do Silício, nos Estados Unidos, a companhia Solazyme Inc. persegue um novo sonho. Após o boom dos semicondutores, é aqui que centenas de laboratórios procuram o Graal do século XXI: um combustível sintético à base de microalgas, tão potente quanto as energias fósseis. Para seu cofundador e presidente, Harrisson Dillon, a Solazyme é “a única empresa de biotecnologia microbiana que conseguiu fabricar um combustível com propriedades equivalentes às do petróleo”.

O procedimento permanece secreto, e Dillon, evasivo: trata-se de uma técnica de transgenia à base de micro-organismos reconstituídos geneticamente. No fim de 2008, a Solazyme anunciou ter produzido um querosene para aviões derivado de microalgas e que teria apresentado todos os critérios de estabilidade para voos de grande altitude. O objetivo da empresa, que recebeu US$ 75 milhões de investidores em capital de risco, é tornar-se uma “companhia de combustível renovável”, graças a uma tecnologia que permite reconstituir em uma semana um processo de decomposição das algas que levaria centenas de milhões de anos.

Com uma operação que evoca a transmutação dos alquimistas, já é possível, segundo Dillon, acelerar a fermentação desse fitoplâncton, misturando-o a resíduos de madeira e outros materiais celulósicos que servem para alimentá-lo em digestores1 industriais. Nesse meio confinado, não há necessidade de fotossíntese, artificialmente provocada por manipulações genéticas. A alga é transformada em óleo, que pode tanto ser combustível como servir de alimento, ou então destinar-se à indústria química.

Os investidores que apostaram nessa tecnologia esperam resultados. O esgotamento iminente do petróleo não é mais contestado desde que o Relatório Hirsch, publicado em 2005 pelo Departamento de Energia americano, recomendou que se preparasse uma transição para outras fontes, prevendo a falta dos combustíveis fósseis no futuro2. Sem dúvida, o século XXI não terá a mesma exuberância energética do XX, mas o Vale do Silício se apresenta como uma futura Arábia Saudita, capaz de transformar celulose em etanol e algas em petróleo.

Além disso, as algas têm uma propriedade quase milagrosa: elas devoram o dióxido de carbono. Com sua utilização, espera-se ser possível transformar todas as emissões de CO2 das indústrias pesadas em combustível sintético, refinado em biorreatores construídos próximo às 619 usinas térmicas americanas. O famoso sequestro de carbono matará dois coelhos com uma cajadada só: absorverá as emissões das instalações pesadas e as transformará em combustível.

A Sapphire Energy, uma concorrente da Solazyme, sonha conseguir produzir, até 2018, 455 milhões de litros de combustíveis à base de algas por ano, seguindo esse tipo de procedimento. Apoiada por Bill Gates e pela família Rockefeller, a Sapphire gaba-se de já poder substituir integralmente o petróleo por esse novo combustível em suas unidades. Entre estas, a biorrefinaria integrada, ao sul do estado do Novo México, é a primeira disposição com vocação comercial de produção de combustíveis à base de algas. O problema é que o custo de uma instalação como essa poderia chegar a US$ 1 bilhão para uma produção insignificante dentro dos padrões de consumo americanos.

Para David Fridley, especialista do Lawrence Berkeley National Laboratory, “a energia produzida deve poder alimentar todas as etapas necessárias para sua própria fabricação. Se não se chegar a esse resultado, as alternativas não são de fato alternativas, são apenas suplementos”. Mas os biodigestores, estejam eles em meio confinado ou a céu aberto, requerem grandes quantidades de energia, pois precisam fazer circular milhares de metros cúbicos de água para encher as instalações, mantê-las a temperatura constante e evitar sua evaporação, já que o Vale do Silício fica em pleno deserto. Sendo assim, é preciso lembrar que o maior usuário de eletricidade na Califórnia é a estação de bombeamento que conduz a água do norte do estado até o vale de Los Angeles, subindo as montanhas de Tehachapi.

Contemplando seu pomar e suas vinhas, Fridley inquieta-se com a capacidade de “amnésia espacial e ambiental” de seus contemporâneos, que não percebem a vulnerabilidade do conjunto do sistema energético, do qual depende também a produção alimentar.

Outro que também não crê na propagada nova tecnologia3 é André Angelantoni, cofundador da Post Peak Living, uma organização de aconselhamento voltada a políticos e particulares. Para ele, a ciência e as companhias do Vale do Silício nunca serão capazes de substituir as energias fósseis em prazos suficientemente curtos, a preços competitivos e na quantidade necessária. O crash seria irreversível e se daria por premissas há muito perceptíveis: “Nós estamos nos confrontando com uma série de problemas globais – financeiros, energéticos, climáticos – que já chegaram a tais proporções que suas consequências não podem mais ser evitadas. Cada novo problema se soma ao anterior. É um pouco como se tivéssemos vivido para além de nossos meios e nos déssemos conta de que os cofres estão vazios”, expõe Angelantoni, que ainda assim acredita em estratégias de adaptação e diminuição energética para enfrentar o abismo.

Atravessada pela falha geológica de San Andreas, vítima de incêndios gigantescos e de secas consecutivas, a Califórnia é um território onde se misturam psicologia da catástrofe e otimismo tecnológico. Baseado em Sebastopol, uma “cidade em transição” (transition town4) que se comprometeu com políticas de redução das emissões de gás de efeito estufa, o Post Carbon Institute reúne uma rede de economistas, biólogos e pensadores do mundo do pós-petróleo5. A vulnerabilidade das sociedades baseadas em energias fósseis está no centro da reflexão desse think tank, que tem Richard Heinberg como um dos porta-vozes mais proeminentes. Jornalista, autor de diversas obras sobre o tema, ele sustenta, em Power Down6, a necessidade de reduzir deliberadamente o consumo de energia, para não sofrermos as consequências da escassez de combustíveis a baixo custo. Para Heinberg, a prioridade na Califórnia deveria ser implementar estratégias de transição, à imagem das  transition towns preconizadas por Rob Hopkins7, cofundador britânico da Transition Network.

Duzentos quilômetros ao norte de São Francisco, em Willits, um povoado de 13.500 habitantes encravado no coração de um campo cortado por vales e sequoias milenares, Jason Bradford, engenheiro da computação, retira seu adubo orgânico do Mendonesian Café, um restaurante-associação instalado na única rua comercial desse Far West ecológico. Nas paredes do estabelecimento, citações anônimas, como “A liberdade advém do momento em que você a define”, dividem espaço com obras de artistas locais. Bradford poderia fazer carreira no Vale do Silício, mas decidiu dedicar seu tempo para colocar em prática suas convicções. Ele realiza suas atividades principalmente em domicílio, em suas hortas e no pomar, onde cultiva sementes e colhe parte da alimentação diária de sua família. O único carro fica estacionado na frente da casa, enquanto ele percorre a cidade de bicicleta.

Redator de uma página na internet com informações sobre a energia e o pós-petróleo, The Oil Drum8, Bradford anima a associação Willits Economic LocaLisation (Well), que prega a emergência de uma solidariedade local liberta da dependência dos fluxos globais. Um filme emblemático, The End of Suburbia9, que questiona os limites da urbanização horizontal, serve para lançar o debate.

Contemplando seu adubo orgânico revitalizado pelas minhocas, Bradford imagina que é preciso mudar tanto o discurso como o estilo de vida, substituir um hábito negativo por outro saudável, como o de cultivar uma horta e zelar pelo bom estado dos solos, esquecidos pela inconsciência geral: “A Califórnia foi atingida pela dissonância cognitiva. Nós edificamos nossas sociedades a partir de uma dívida ecológica gigantesca, que se paga com certa ansiedade. Arrumar aquilo que estragamos deveria ser nossa ocupação principal”. E para isso precisaríamos até de uma terapia coletiva, como incita The Story of Stuff, um filme de animação baixado mais de 5 milhões de vezes da internet e que denuncia a sociedade de consumo10.

Na entrada do pomar de Bradford encontramos Marilyn, coordenadora dos Grateful Gleaners, exército de catadores encarregados da coleta do lixo. Ela veio recolher frutas e legumes para distribuir às escolas e associações de caridade do lugar e se diz convencida da necessidade de reforçar a coesão da comunidade frente a situações extremas11.

Microexperiências para a classe média “sofisticada”? É em Richmond, um subúrbio operário de 300 mil habitantes famoso por sua taxa de criminalidade elevada, que diversas associações batalham para criar empregos “verdes”, seja em hortas de inserção ou na produção de painéis solares, a fim de compensar a falta de postos de trabalho. Assim, as associações como Green for All e Solar Richmond colocam em prática a filosofia que Van Jones, novo conselheiro do presidente Barack Obama para os empregos verdes, gostaria de generalizar.

Nessa cidade do leste da baía de São Francisco, a refinaria da Chevron, a segunda maior da Califórnia, com uma capacidade de estocagem de 15 milhões de barris, foi responsável por uma série de vazamentos tóxicos na área. Após esses episódios, centenas de cidadãos se mobilizaram contra os projetos de extensão da companhia. A prefeita de Richmond, Gayle Mac também comprou a briga e parece determinada a devolver o orgulho a sua cidade. Em novembro de 2008, após uma batalha política homérica, uma medida que obriga empresas como a Chevron ao recolhimento de uma contribuição maior do que aquela paga pelos pequenos comerciantes, obteve 51% dos votos em um referendo com a população. O grupo petroleiro já começa a sentir o prejuízo.

Em suas iniciativas, Loughlin conta com o apoio do plano de desenvolvimento do presidente Obama, o Stimulus Package, votado em fevereiro. Desde então, Richmond já recebeu uma subvenção de quase US$ 1 milhão para financiar as energias alternativas e outras opções sustentáveis, tais como cobrir os tetos dos prédios comunais com painéis solares, gerando os empregos “verdes” locais.

Nos subúrbios de Richmond circulam grupos de adolescentes desempregados. Talvez eles sejam futuros camponeses urbanos no quadro da promoção dos circuitos curtos agrícolas. “Nossas hortas comunais crescem espalhadas por toda a cidade”, comenta Mac Loughlin. “Nós temos até uma associação que trabalha em favor do ‘5% local’. É uma coalizão que recomenda que 5% dos gêneros alimentares sejam produzidos localmente, a fim de limitar o impacto dos deslocamentos de mercadorias”, diz.

Ainda que essa filosofia seja trabalhada aqui de maneira experimental, pressente-se que a situação poderia mudar e fazer emergir, para além das miragens high tech, um povo de horticultores reconciliados consigo mesmos.

 

*Agnès Sinaï é jornalista e coordenador do Atlas do meio ambiente de Le Monde Diplomatique.



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