Um tal de Stalin Martínez - Le Monde Diplomatique

MIAMI-HAVANA, O VAIVÉM U

Um tal de Stalin Martínez

por Françoise Barthélemy
1 de maio de 2000
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O dentista Martínez está de mau humor. Seu querido e velho ventilador entregou os pontos, de noite. E tudo leva a crer que sua mulher Idalys, dançarina do Tropicana e que ele tanto ama, o está enganando com um motorista de táxiFrançoise Barthélemy

Anos 90. O dia-a-dia em Havana é um quebra-cabeça… Na estrada, indo para o hospital onde trabalha por 300 pesos mensais, o dentista Martínez transpira em sua bicicleta chinesa, a pesada e lenta Fredesvinda. Está de mau humor. Seu querido e velho ventilador entregou os pontos, de noite. Tudo leva a crer que sua mulher Idalys, dançarina do Tropicana e que ele tanto ama, o está enganando com um motorista de táxi da Associação Nacional de Motoristas de Aluguel Revolucionários. Desgraça. Por fim, nesse dia lamentável, ele acaba sem querer indo parar em Miami, quando o barco que normalmente pega é desviado por alguns músicos, que decidem fugir. Chichi, o Maldito, um colega, o chama pelo abominado nome: Stalin.

— É meu nome mesmo — reconhece, sem se decidir a levantar a voz nem a cabeça — mas não gosto dele.

Lênin, Stalin e Stalina

— Escuta isso, escuta — continua o Maldito, dirigindo-se a Wilbert, que acabava de colocar no fogo cascas de banana amassadas. Na escola o professor o chamava: “Stalin Martinez!”, e ele respondia: “Presente!” E aí nós dizíamos: “Stalin, porcão, cara de bobão!”

Por que nosso dentista tem esse nome? A história é a seguinte: seu pai, um galego que migrou para Cuba, cuja ele venera até hoje, apaixonou-se pelas idéias comunistas durante a segunda Guerra Mundial e deu a seus filhos os nomes de Lênin, Stalin e Stalina. Hoje, apesar de doutora em Pedagogia, a filha negocia seu charme para angariar dólares e abrir um paladar, um desses pequenos restaurantes para turistas de cozinha típica. Quanto a Lênin, o filho mais velho, antes advogado e dirigente do Partido, partiu o coração da família quando decidiu, em 1980, fugir para os Estados Unidos pelo porto de Mariel. Renegado por sua mãe, seu irmão e sua irmã, o Lênin exilado transformou-se em Leo, the best clown in town. Foi trabalhando como palhaço que ele conseguiu se virar em Miami. E é na varanda de sua casa, onde tosta ao sol para parecer um balsero, que o compañero Stalin, vindo do México, vai dar.

Paixão pelo país e necessidade de deixá-lo

Assim é o momento de seu embarque de última hora, numa verdadeira jangada: “Ele nunca havia visto uma bússola, nem manobrado um veleiro, nem pegado num leme. Poderia chegar a Key West, ou ir parar no dia seguinte em Cuba, se perder no mar ou ficar louco devido à insolação, ou ainda acabar no fundo do Atlântico.”

Originalmente concebido como um roteiro de filme, este último romance de Jesús Diaz, menos ambicioso que os anteriores [1] mas muito saboroso, consegue nos fazer ouvir, ver e cheirar, graças a uma linguagem solta, com deslizamentos contínuos de um lugar para o outro, o drama de um indivíduo ligado a seu povo, dividido entre a paixão por seu país e a necessidade de deixá-lo. Muita dor. São temas que Jesús Diaz permeia com um humor devastador sob o qual se esconde a tristeza.

Jesús Diaz,

Fale-me um pouco de Cuba

, traduzido do espanhol por Jean-Marie Saint-Lu, ed. Métailié, Paris, 1999, 233 páginas.



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