Um trumpismo sem Donald Trump - Le Monde Diplomatique

MUDANÇA OU RESTAURAÇÃO?

Um trumpismo sem Donald Trump

por Jerome Karabel
1 de dezembro de 2020
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Joe Biden promete promover uma restauração em Washington, no que seria uma espécie de terceiro mandato de Barack Obama. Porém, mesmo esse objetivo pouco ambicioso parece distante. Os apoiadores de Trump contestam apaixonadamente o resultado das eleições e contam com um Partido Republicano cujo poder permanece intacto

Após vários dias de suspense, Joe Biden finalmente venceu Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas, mas a vitória tímida não representa o repúdio definitivo que os democratas tinham ardentemente desejado. Na verdade, as eleições se revelaram até desastrosas para eles. Apesar do pé de meia impressionante coletado para financiar sua campanha (US$ 1,5 bilhão em apenas três meses, de julho a setembro),1 eles não conseguiram reconquistar o Senado, perderam cadeiras na Câmara dos Representantes e não foram capazes de ganhar a maioria das legislaturas estaduais, que detêm um poder considerável no sistema federal norte-americano.

A verdade perturbadora é que, sem a pandemia de Covid-19 e a catástrofe econômica que se seguiu – a taxa de desemprego atingiu o pico de 14,7% em abril, nível nunca alcançado desde os anos 1930 –, Trump teria boas condições de ser reeleito. Exposto por quatro anos às inúmeras mentiras do presidente, a suas trapalhadas durante a crise sanitária, a suas múltiplas provocações, o povo respondeu dando-lhe pelo menos 73,7 milhões de votos,2 mais que qualquer candidato republicano na história, e até 10 milhões a mais que sua própria pontuação em 2016.

Em fevereiro de 2020, a economia estava indo bem. A taxa de desemprego atingiu seu nível mais baixo (3,5%), a inflação não ultrapassava os 2,3% e, no último trimestre de 2019, o crescimento tinha progredido a um ritmo vigoroso de 2,4%. Esse dinamismo, associado à ausência de guerras de grande envergadura – em um momento em que o isolacionismo domina a opinião pública – e à vantagem que tem todo candidato que está exercendo o cargo, levou muitos cientistas políticos e economistas a prever uma vitória de Trump.3 E, se a deterioração da situação sanitária e econômica finalmente comprometeu suas chances, o cenário político norte-americano ainda assim não está livre do trumpismo.

O personagem retém o apoio de dezenas de milhões de partidários fervorosos e devotados, mas também de muitas organizações conservadoras, como o Club for Growth (Clube para o Crescimento, hostil à tributação e à redistribuição) e o Family Research Council (Conselho de Pesquisa da Família, um grupo de cristãos evangélicos que se opõe ao aborto, ao divórcio, aos direitos dos homossexuais…), e de vários meios de comunicação, como Fox News ou Breitbart News. Além disso, os ingredientes que tornaram Trump bem-sucedido em 2016 ainda estão lá: hostilidade aos imigrantes, em um país que está passando por sua transformação demográfica mais profunda em um século, animosidade racial, condescendência da elite educada em relação às classes populares e o sentimento hoje difundido de que a globalização tem servido aos interesses das multinacionais e das classes altas em detrimento da maioria.

O trumpismo é parte de uma revolta “populista” global contra as elites políticas, econômicas e culturais, sobretudo entre aqueles cuja vida foi virada de cabeça para baixo pela globalização e pela desindustrialização. Como observa John Judis, o “populismo de direita” tende a prosperar quando os partidos majoritários ignoram ou minimizam os problemas reais.4 Os democratas, portanto, carregam uma responsabilidade esmagadora pelo nascimento do trumpismo e por sua consolidação. O apoio de Bill Clinton ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que entrou em vigor em 1º de janeiro de 1994, e a pressão exercida pelo ex-presidente para facilitar a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) representaram um duro golpe no mercado de trabalho local. Segundo uma estimativa do Instituto de Política Econômica, a entrada de Pequim na OMC teria custado à indústria manufatureira dos Estados Unidos 2,4 milhões de empregos.5

(Darren Halstead/Unsplash)

Barack Obama pouco fez para mostrar que o Partido Democrata estava preocupado com o destino das classes populares: ele indicou como secretário do Tesouro alguém próximo a Wall Street (Timothy Geithner), não quis processar os banqueiros responsáveis pela crise de 2008 e não soube como proteger os milhões de norte-americanos que perderam suas casas e aposentadorias. Quatro anos atrás, os democratas pagaram um preço alto por seu frenesi de livre-comércio. De acordo com um estudo de David Autor,6 economista do Massachusetts Institute of Technology (MIT), as perdas de empregos ligadas ao desenvolvimento do comércio chinês podem ter fornecido a Trump os poucos pontos que garantiram seu sucesso nos estados industriais do Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, decisivos em sua vitória em 2016.

Historicamente visto como o “partido dos trabalhadores”, o Partido Democrata há muito experimenta uma erosão do apoio das classes populares, sobretudo entre aqueles que se declaram “brancos”. Essa tendência foi confirmada em 2020. De acordo com as primeiras pesquisas de boca de urna,7 Trump teria obtido os votos de 64% dos eleitores brancos não graduados (contra 34% de Biden). Ele também seria considerado muito popular entre os cristãos evangélicos (81% dos votos) e os habitantes de áreas rurais (65%). As circunscrições mais pobres do país, onde os conservadores começaram a criar raízes em 2000, são agora as mais propensas a votar no Partido Republicano, enquanto 44 das 50 circunscrições mais ricas – e todas as dez mais ricas – se mostram agora mais favoráveis aos democratas. Essa inversão da relação entre classe social e preferências políticas oferece um terreno fértil para um ressurgimento do trumpismo sem Trump. Na ausência de uma mudança radical de curso dos democratas, os mais pobres poderiam continuar a se voltar para os republicanos, que têm uma lista de bodes expiatórios para explicar seus problemas: imigrantes, negros, estrangeiros, as “elites”…

Não nos enganemos: o Partido Republicano se tornou um partido de extrema direita, em muitos aspectos tão virulento quanto os partidos autocráticos que atualmente governam a Hungria ou a Turquia. Tendo os adversários sido colocados de escanteio – o senador do Arizona Jeff Flake (2013-2019), o representante da Carolina do Sul Mark Sanford (2013-2019)… –, ele está agora nas mãos dos trumpistas e provavelmente ficará assim em um futuro próximo. O perigo colocado pelo “populismo de direita” é ainda maior nos Estados Unidos que em muitos países europeus, onde o sistema de representação proporcional muitas vezes relega – embora haja exceções – os partidos de extrema direita às margens do jogo político, como na Holanda (onde o Partido para a Liberdade obteve apenas 13% dos votos nas eleições parlamentares de 2017) e na Espanha (onde o Vox atingiu o pico de 15% nas eleições gerais de 2019). Os partidários do presidente norte-americano controlam um dos dois principais partidos e, por sua vez, o sistema uninominal majoritário continua sendo um obstáculo formidável ao surgimento de outras legendas. O sistema está, portanto, instalado para o surgimento de um demagogo ainda mais perigoso que Trump. Imagine o carisma de um Ronald Reagan aliado à inteligência e à disciplina de um Barack Obama…

Biden chega ao poder em um país polarizado, onde a Covid-19 exacerbou as disparidades sociais. De acordo com o Ministério do Trabalho, os Estados Unidos atravessam atualmente a crise econômica mais desigual de sua história, com o desenvolvimento do home office claramente favorecendo os mais qualificados. No auge da crise, a taxa de destruição de empregos de baixa remuneração era oito vezes maior que a de empregos bem pagos. Empregados e autônomos com diploma universitário tinham proporcionalmente quatro vezes mais chances de exercer sua atividade em casa que os trabalhadores sem diploma de ensino superior.8 Enquanto isso, os mais ricos encheram seus bolsos ainda mais. Entre 18 de março, data de início dos confinamentos, e 20 de outubro, a fortuna dos 643 bilionários do país aumentou em US$ 931 bilhões, quase um terço da riqueza total deles. Biden tem uma dívida especial com os ultrarricos que, com doações de US$ 100 mil ou mais, levantaram US$ 200 milhões para sua campanha em seis meses. Os principais centros de poder financeiro dos Estados Unidos – Wall Street, Vale do Silício, Hollywood, fundos de investimento – reconhecem nele um presidente que não corre o risco de ameaçar seus interesses.

Com um Senado que provavelmente permanecerá presidido pelo implacável senador do Kentucky Mitch McConnell, Biden encontrará grandes dificuldades para concretizar qualquer medida de seu programa. Empurrado pela direita no Senado, ele também estará sob pressão da ala esquerda de seu partido, com Bernie Sanders e Elizabeth Warren na liderança. Tal situação traria problemas até mesmo para os líderes mais determinados. Imaginem então para “Joe adormecido”…9 Sem falar que o novo presidente também terá de se distinguir das políticas de Obama, às quais lealmente serviu como vice-presidente e que levaram ao surgimento de Trump e de seu movimento. Para isso, precisaria abandonar o centrismo cauteloso que marcou toda a sua carreira, operando, como seu partido, uma virada radical.

Que forma essa virada poderia assumir? Uma estratégia popular consistiria em defender um imposto sobre os lucros excessivos, visando sobretudo àqueles que enriqueceram durante a pandemia – na linha do sistema tributário introduzido logo após a Segunda Guerra Mundial. O pacote de estímulo que o governo Biden certamente tentará aprovar poderia ser direcionado não às grandes corporações (como a de Obama em 2009), mas àqueles mais diretamente afetados pela crise: os trabalhadores de baixa renda, desempregados e donos de pequenos negócios. Biden também poderia oferecer um dispositivo verdadeiramente protetor para os milhões de inquilinos e pequenos proprietários ameaçados de despejo em plena pandemia.

Obviamente, um Senado com maioria republicana não aprovará tais medidas. Mas, ao defendê-las com tenacidade, os democratas expressariam alto e bom som seu compromisso renovado com as classes populares, no espírito do New Deal de Franklin Delano Roosevelt. Isso permitiria que eles se colocassem, durante as eleições de meio de mandato de 2022, como alternativa diante da inação dos republicanos. Essa seria a melhor forma de evitar o retorno de um novo tipo de trumpismo, ainda mais tóxico que o original.

 

*Jerome Karabel é professor de Sociologia da Universidade da Califórnia em Berkeley.

 

1 Rebecca R. Ruiz e Rachel Shorey, “Democrats see a cash surge, with a $1.5 billion ActBlue haul” [Os democratas veem um aumento de caixa, com um aporte de 1,5 bilhão de dólares da ActBlue], The New York Times, 16 out. 2020.

2 Cifra de 20 de novembro de 2020.

3 Cf., por exemplo, Jeff Cox, “Trump is on his way to an easy win in 2020, according to Moody’s accurate election model” [Trump está a caminho de uma vitória fácil em 2020, de acordo com o modelo eleitoral preciso da Moody], CNBC, 15 out. 2019.

4 John B. Judis, The Populist Explosion: How the Great Recession Transformed American and European Politics [A explosão populista: como a grande recessão transformou as políticas norte-americana e europeia], Columbia Global Reports, Nova York, 2016.

5 Robert E. Scott, “US-China trade deficits cost millions of jobs, with losses in every state and in all but one congressional district” [Os déficits comerciais EUA-China custam milhões de empregos, com perdas em todos os estados e em todos os distritos eleitorais, com exceção de um], Economic Policy Institute, Washington, DC, 18 dez. 2014.

6 David Autor et al., “Importing political polarization? The electoral consequences of rising trade exposure” [Importando polarização política? As consequências eleitorais da crescente exposição do comércio], American Economic Review, v.110, n.10, Nashville, out. 2020.

7 “National exit polls: How different groups voted” [Pesquisas de boca de urna nacionais: como os diferentes grupos votaram], The New York Times, nov. 2020. Disponível em: www.nytimes.com.

8 Heather Long et al., “The covid-19 recession is the most unequal in modern US History” [A recessão provocada pela Covid-19 é a mais desigual da história moderna dos Estados Unidos], The Washington Post, 30 set. 2020.

9 “Joe adormecido”, um dos apelidos que Trump deu a seu oponente dem



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