Uma data emblemática na História do Brasil
Nunca é demais dizer que parte da desigualdade social e racial que funda nosso país decorre de um passado longínquo que deixou, por meio de ferros e grilhões, sua marca no tempo presente
“O dia 13 de maio, é um dia muito bonito. Todos os pretos se reúnem, meu Deus do céu, para saravá São Benedito” – Ponto de Jongo, comunidade do Quilombo São José da Serra.
Como é possível perceber na letra do ponto acima, o 13 de maio é um dia que se tornou emblemático para a memória histórica de muitas comunidades brasileiras, principalmente para diversos grupos afrodescendentes. A ideia de tratar a referida data a partir de significados plurais, por vezes até mesmo dissonantes, é uma denúncia viva da diversidade cultural e das disputas que circulam em torno dela. Para alguns, em uma leitura um tanto ultrapassada e reducionista, a data é creditada como marco da assinatura da Lei Áurea, que colocou, dentro de parâmetros legais, a proibição da escravidão no Brasil. Medida tardia, uma vez que o Brasil foi a última região da América a realizar tal feito, recaem sobre essa vertente críticas às inconclusões que permaneceram ancoradas nessa lei; se por um lado, definia a proibição de tal prática no papel, por outro não ofereceu qualquer subsídio para quem viveu a realidade condicionada pelo sistema escravista.
Nunca é demais dizer que parte da desigualdade social e racial que funda nosso país decorre de um passado longínquo que deixou, por meio de ferros e grilhões, sua marca no tempo presente. Apesar de essa não ser a única narrativa que podemos inferir desse período, além da obviedade encontrada nas bases materiais erguidas neste país, somos formadas, enquanto pessoas, pelas significações e saberes que dão sentido a elementos basilares, desde simples gestos, nas expressões corporais, na presença de um vocabulário denso confeccionado por múltiplas referências, nossas práticas de cura e demais conhecimentos que persistem em nossos entendimentos de vida como um todo.
Também não é secundário deixar de apontar que, de alguma maneira, a referida lei criou um entrave jurídico para uma realidade que costumeiramente se beneficiou da exploração da carne e do trabalho do próximo, de pessoas que vieram pelo Atlântico em situações condenáveis, como bem demarcou a Assembleia Geral da ONU, neste ano de 2026, no reconhecimento da escravidão transatlântica como o crime mais grave contra a humanidade.
A ampliação do debate público sobre o tema, que leva em consideração a forma como determinados grupos, principalmente os afrodescendentes, compreendem tal medida, nos permite perceber que o 13 de maio ultrapassa a leitura ancorada somente na Lei Áurea. A data, para algumas comunidades quilombolas, umbandistas e jongueiras, por exemplo, tornou-se uma referência que condensa múltiplos significados, alguns deles religiosos, vinculados à afirmação de memórias associadas à tradição, à ressignificação e ao tensionamento de narrativas que passam a considerar perspectivas mais amplas e menos circunscritas às histórias “oficiais”, marcadas por um discurso elitista que, durante décadas, desconsiderou os conhecimentos populares.

Por isso, não é incomum encontrar, em vários espaços, uma retomada dessa data para “saravá São Benedito”, o santo dos pretos, que representou no passado uma possibilidade de identificação, reconhecimento, ressignificação ou até mesmo uma possibilidade de direcionamento de clamores, já que não é raro encontrar, na realidade passada, a supressão aos cultos tradicionais. Imagine o caráter de violência presente no ato de retirar de um povo sua história, suas referências e o direito de viver plenamente a liberdade de referenciar e praticar seu sistema de crenças. Seria espantoso pensar nessa descrição se ela ainda não caracterizasse uma realidade atual. No período compreendido entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, segundo a Agenciagov, o Disque 100, canal do Disque Direitos Humanos, registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa. Trata-se de um dado importante, embora entendido apenas como uma amostragem se considerarmos as subnotificações.
Voltando ao passado, que deveria expurgar e vexar o presente no que diz respeito à intolerância religiosa e à falta de respeito à liberdade do próximo, encontramos não apenas um catolicismo popular reinterpretado para a subserviência de povos historicamente explorados, mas também sujeitos ativos dentro de suas próprias possibilidades. Ainda hoje, persiste o culto ao divino na conexão entre um tempo não linear, mas entoado pelas dinâmicas de encontro. As pretas e os pretos velhos da Umbanda baixam no terreiro e interagem quando se firma o ponto: “No dia 13 de maio, estava tocando tambor, quando a princesa me chamou, levanta preto, cativeiro acabou!”. “Saravá os pretos velhos” será uma saudação recorrente em muitos espaços que mantêm vínculos com essa ancestralidade, conectando não apenas o passado, mas também o presente e as perspectivas de futuro, estimuladas por sobrevivências que nutrem identidades, vínculos sociais e sentidos de vida partilhados em comunidade.
Nessa chave de leitura, o 13 de maio não é uma data de simples festejo da libertação, que juridicamente foi firmada em 1888, mas na realidade atingida por percalços. Indo muito além disso, representa propostas de interação com o passado que adentram o tecido social. Simboliza o ato de fazer lembrar aqueles que vieram antes e que hoje são saudados com respeito e carinho. Trata-se de afetos sobreviventes a inúmeras opressões e tentativas de apagamento de histórias de vida presentes em nós, que entoam entendimentos mais amplos do que aqueles vinculados a um acontecimento jurídico em si.
Em muitos chãos deste Brasil ecoará o “saravá aos pretos-velhos”, a referência a São Benedito ou mesmo o silêncio pela não identificação com esta data. Permanece, em muitos casos, o respeito diário mantido em uma luta constante, tanto para o fortalecimento de redes de solidariedade quanto na busca material e no reconhecimento de narrativas que foram usurpadas por escritas tendenciosas. De modo geral, é atual a necessidade de reafirmar que essa história não se faz presente apenas para alguns setores. Ela é parte constitutiva de um todo: plural, diverso e vivo.
Núbia Aguilar é professora de História da África na Universidade Federal da Paraíba.

