Universidade funda clube do livro árabe - Le Monde Diplomatique

Universidade funda clube do livro árabe em meio à cena crescente de traduções

por Letícia Sé
2 de julho de 2021
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Evento do Centro de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal de Sergipe surge em momento próspero para arabistas brasileiros

O Centro de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal do Sergipe (Ceai-UFS) lançou um clube do livro dedicado à literatura árabe. O Clube de Leitura Mundo Árabe e Diásporas terá seu primeiro encontro online no próximo dia 15, das 19h às 21h. O livro a ser discutido no encontro será “Beirute Noir”, contos organizados pela escritora libanesa Iman Humaydan. A obra foi traduzida por Pedro Criado e lançada pela editora Tabla em 2021. “O nosso clube contará com mediação do Ceai e, além disso, teremos convidados especialistas”, diz a divulgação.

Como explica a idealizadora do evento, Ana Paula Rocha, e a organizadora Mariane Gennari, o clube do livro terá um encontro mensal por três meses na primeira edição. As setenta vagas da primeira edição se esgotaram rapidamente. Mas é possível acompanhar a abertura das próximas inscrições pelo perfil do Instagram @ceai_ufs.

Os tradutores das obras estarão presentes nos encontros. No próximo encontro, em agosto, o livro a ser discutido será “O Sussurro das Estrelas”, de Naguib Mahfuz, escritor egípcio ganhador do Nobel de Literatura, considerado o pai do romance árabe. O livro foi lançado em português recentemente, também com a tradução de Pedro Criado, pela editora Carambaia. Criado é mestre em letras pelo programa de estudos árabes da Universidade de São Paulo, tendo outro trabalho importante lançado pela Carambaia – a tradução de “Viagem ao Volga: relato do enviado de um califa ao rei dos eslavos” do autor medieval Ahmad Ibn Fadlan.

Reunião do Ceai antes da pandemia (Divulgação)

O livro discutido no terceiro encontro, de setembro, será “Detalhe Menor”, da autora palestina Adania Shibli, a ser lançado no próximo dia 7 pela editora Todavia. A tradutora é Safa Jubran, professora de língua árabe da USP. A professora recebeu o Prêmio Literário de 2014 da Academia Brasileira de Letras pela tradução de “E nós cobrimos seus olhos”, do egípcio Alaa Al Aswany e, em 2019, o prêmio Sheikh Hamad Award for Translation and International Understanding, no Qatar, por sua carreira como tradutora.

O sucesso de inscrições e grande expectativa sobre o evento do Ceai tem a ver com uma nova cena cultural efervescente: a da literatura árabe traduzida com qualidade e diretamente ao português brasileiro. Uma tríade é responsável por este momento – a recém-nascida editora Tabla, a nova geração de arabistas brasileiros (formados, principalmente, na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo) e eventos acadêmicos-culturais abertos e gratuitos, como a iniciativa do Ceai.

“Certamente, a Tabla foi um marco importante para o que estamos vivendo”, diz Safa Jubran sobre a editora especializada em obras traduzidas diretamente do árabe ao português. Num café, no final de 2019, Laura di Pietro, cofundadora da editora, disse a Jubran: “Se vocês tradutores estiverem comigo, vou fundar a Tabla. Queremos começar em 2020.”

A Tabla tomou dez anos para surgir, linha do tempo traçada por di Pietro ao lado de Ana Cartaxo, sua sócia. Segundo di Pietro, ela pensa em publicar literatura árabe e discute o tema desde 2011 – data em que começou uma troca de e-mails com o tradutor e poeta Michel Sleiman, também professor de árabe da USP.

As amigas não faziam parte do mercado editorial até fundarem a editora Roça Nova, em 2008, voltada para a literatura brasileira. Laura é musicista e Ana, artista plástica. Mas ambas tinham uma conexão com o mundo árabe. “Gostava muito da literatura árabe, e sonhava em publicar obras”, afirma Laura di Pietro, que escolheu o nome da editora. “Eu morava em Londres, tinha uma companhia de gravação de música ao vivo. Tinha conhecido a tabla indiana. E ‘tabla’ é tambor também para os árabes. Eu não queria um nome que começasse com ‘Al’, que fosse difícil. Tabla é sonoro, é fácil de pronunciar”.

Já Ana Cartaxo morou no Marrocos por quatro anos, tempo que exemplifica com cenas de contadores de histórias da praça Jemaa el-Fna, em Marraquexe. “Na praça, havia vários círculos de gente rindo, prestando muita atenção. Quando me aproximei, no centro do círculo tinha um senhor de voz muito fraquinha, que gesticulava, e as pessoas riam fascinadas. Eu achei o Marrocos mágico, que respira história oral”.

De dentro da editora Roça Nova, surgiu a editora Tabla em 2020, um projeto separado da empresa inicial. Os primeiros títulos árabes foram lançados pela Roça Nova, quando a Tabla ainda não existia. Graças a isso, Laura di Pietro foi convidada a participar da Feira Internacional do Livro de Sharjah, nos Emirados Árabes, em 2011. Di Pietro e a professora Safa Jubran explicaram à reportagem que as feiras internacionais são importantes para o networking de editoras pelo mundo que publicam autores árabes.

“O evento convida editores do mundo todo. Fui convidada em 2011 e lá conheci editoras, principalmente do mundo árabe, agentes, detentores de direitos autorais. E lá acontecem as mesas de negociação”, diz Laura di Pietro. Além do aspecto comercial, o encontro cultural é uma grande parte do evento.

A cena atual de efervescência da literatura árabe no Brasil tem ancestrais, como a Mostra Mundo Árabe de Cinema e a Beit 21 – uma plataforma de arte que unia artistas brasileiros e palestinos. Geraldo Campos, professor da UFS e fundador do Ceai, estava envolvido nesse movimento: foi diretor cultural do Instituto da Cultura Árabe (Icarabe) e curador da Mostra Mundo Árabe de Cinema, que acontece todo ano no mês de agosto desde 2005.

“Eu sempre tive um pé na universidade e outro na produção artística”, diz Campos, que atua na área de relações internacionais sempre tendo como objeto de discussões o cinema e a literatura. É doutor em filosofia pela USP e foi pesquisador da Cátedra Edward Said, da Unifesp.

Sobre a fundação do Ceai, Campos diz que todos esses caminhos com a arte do mundo árabe culminaram três anos atrás, quando se mudou de São Paulo para Aracaju, ao ser admitido como professor da UFS. “Os alunos me procuravam querendo um grupo de estudos de mundo árabe”, diz. Além da formalidade da instituição universitária, o Ceai se tornou um tipo de coletivo artístico e de ciências humanas, já que antes da pandemia o centro recebia artistas árabes e promovia uma convivência entre nomes importantes e seus membros.

“Houve um encontro com Katanani e Baha. Alugamos uma casa e fizemos uma imersão, convivemos, criamos laços. Cozinhamos juntos, declamamos poemas, conversamos sobre música e geografia da Palestina. Aquele momento foi uma grande inflexão”. Abdul Rahman Katanani é um artista palestino do campo de refugiados de Sabra em Beirute, Líbano e Baha Hilo é um sociólogo palestino.

 

Representatividade versus censura temática

Ao entrevistar os tradutores – Safa Jubran e Pedro Criado –, fiz uma pergunta provocativa. “Beirute Noir” é um livro que mostra violência, estupros e os fantasmas da guerra civil libanesa. Não seria esse um estereótipo do qual os árabes fogem?

“A violência está na obra a partir da vontade dos autores e autoras de transportar alguma sensação para alguma situação de violência, que não necessariamente é biográfica. Ela é um recurso que pode ser muito facilmente mal interpretado, como sendo o grande foco da história criar um enredo sensacionalista. Mas não é isso”, respondeu Pedro, que também lembrou de uma situação de um autor sírio que, ao ser convidado para um evento, ficou irado por ter o interesse do público reduzido à questão de ser um refugiado de guerra, ignorando seu trabalho literário.

Concordei e comentei com o tradutor que a literatura não deve sofrer uma censura temática, como se árabes não pudessem escrever sobre violência em prol de uma representatividade.

“É isso que a Adania Shibli faz com o livro que vamos discutir no terceiro encontro do Ceai. Ela diz: ‘eu não estou falando da questão palestina’. É literatura. Qual a função da literatura? Ela mesma. É sua função artística”, completa Safa Jubran.

Existe uma diferença entre a obra literária e a recepção do leitor. E essa camada, da literatura árabe como obra de arte e não como um objeto político, étnico ou de representação, deve ser discutida nos encontros do Clube de Leitura Mundo Árabe e Diásporas.

“Pedro, às vezes, eu sinto que estamos fazendo o Quarto Movimento do mundo árabe. Sabe? O primeiro, Bait al-Hikma [A Casa da Sabedoria], quando traduziram os escritos do grego para o árabe. Depois, os tradutores de Toledo. Depois, o do início do século 20, quando as traduções estavam sendo feitas do inglês e francês para o árabe e que fez desenvolver o romance no mundo árabe. Eu acordo de manhã e não acredito que está acontecendo isso”, disse Safa Jubran a Pedro Criado sobre o rico movimento atual de literatura árabe no Brasil.



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