ENTREVISTA

Vanessa Passos: ‘para mim, o que eu escrevia vinha da violência, da crueza’

Autora de A filha primitiva é a quinta entrevistada do especial em comemoração ao Dia Nacional do Escritor

A escritora cearense Vanessa Passos, roteirista, professora de escrita criativa, doutora em Literatura (UFC) e pós-doutora em Escrita Criativa (PUCRS), é a quinta entrevistada do especial em comemoração ao Dia Nacional do Escritor.

A autora ganhou destaque nacional ao publicar A filha primitiva, obra vencedora dos prêmios Kindle de Literatura (2021), Jacarandá (2022) e Mozart Pereira Soares de Literatura (2023).

Ao longo da entrevista, ela fala sobre a importância da maternidade como tema central de sua produção literária e destaca a influência de Clarice Lispector e Machado de Assis em sua trajetória como leitora e escritora.

Confira na íntegra:

Seu romance A filha primitiva teve excelente aceitação entre público e crítica, foi adaptado para o teatro e foi tema de diversos trabalhos acadêmicos. A quais fatores atribui o sucesso da obra?

Eu, sinceramente, não sei. Criamos o livro para mundo, assim como criamos os filhos, e não temos ideia do caminho que eles vão trilhar. Inclusive, me emocionei muito quando a companhia de teatro leu para mim a dramaturgia inspirada no livro. Desconfio que A filha primitiva tem personagens humanas, demasiadamente humanas, cheias de amor, de raiva, de medos e que o romance tem uma crueza que expõe todas essas vulnerabilidades.

Embora muitas vezes aborde temas dolorosos, A filha primitiva traz uma escrita bastante poética. Quando e como encontrou a voz da narrativa?

É engraçado porque eu nunca me achei poética. Para mim, o que eu escrevia vinha da violência, da crueza. Mas certa vez uma leitora escreveu sobre o livro e usou a expressão “a poesia bruta de A filha primitiva”. Foi só ali, na recepção do livro, que entendi que essa ambiguidade existe e que poesia e crueza conversam no livro. Tem coisas que a gente só descobre quando escreve. E outras que só descobrimos quando somos lidas.

A escritora Vanessa Passos – Foto: Divulgação

Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?

Sem dúvidas, a maternidade. É uma obsessão minha na escrita e na vida. Para mim, é uma das relações mais complexas e tudo se desdobra a partir disso. Amo aquela música do Zeca Veloso, Todo homem precisa de uma mãe. Eu sempre escrevo com música para que possa entrar no tom do livro. Essa é uma música que me acompanha sempre. A loucura e a saúde mental também são temas complexos que atravessam meu processo criativo e minha existência como uma mulher que lida diariamente com depressão e ansiedade.

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?

Não há um livro específico. Mas uma autora, a primeira que li na vida e descobri que mulheres também escreviam: Clarice Lispector. Sempre volto de novo e de novo para a obra inteira dela. Recentemente reli A hora da estrela e Água viva. Clarice foi um espanto para mim. Li a primeira vez na sétima série. Depois de lê-la, me autorizei a começar a escrever. Comecei com os contos, depois fui para os romances. Desde então, sempre volto para ela. É uma autora que mergulha nas profundezas da condição humana. Sua complexidade, intimismo e trabalho com a linguagem me desafiam como leitora e escritora. E eu gosto de viver com desafios e ousadia. Para mim, só assim vale a pena viver.

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?

Toda a obra de Machado de Assis. Ele foi um dos primeiros autores que li na biblioteca da escola. Eu fiquei fascinada. Primeiro com os contos. A cartomante e A causa secreta me marcaram muito. Depois seus romances: Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Machado é mordaz em sua literatura. O sarcasmo, o humor machadiano e modo brutal como aprofunda suas personagens e ainda traz uma crítica social certamente me influenciou como leitora e também como escritora, na minha escrita “nua e crua” como os leitores costumam chamar.

Em 25 de julho foi comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?

Nossa literatura brasileira é riquíssima. Temos muitos autores para ler, reler, indicar e celebrar.

Minha maior alegria é ser lida (em vida). Como escritora, busco atuar como agente cultural, fomentando a leitura e aproximando a relação de quem escreve com quem lê. Acredito que isso seja o mais importante.

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?

Lygia Bojunga. Apesar de ser uma autora premiada, a maioria das pessoas só conhece sua obra A bolsa amarela. Eu conheci a primeira obra da autora quando entrei na Graduação em Letras. Comecei por Meu amigo pintor. Fiquei fascinada pelo trabalho com a linguagem, o uso da oralidade (que me influencia como autora) e ainda como ela consegue trabalhar temas tabus, alternando entre peso e leveza. E me perguntei por que não tinha sido apresentada a obra dessa autora antes. Desde então, fiquei obcecada e decidi estudar sua obra no mestrado e no doutorado em Literatura Comparada na Universidade Federal do Ceará. Ela tem mais de 20 obras publicadas. Eu tive a honra de conhecer a própria autora, me hospedar na sua casa em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, e no Sítio Boa Liga, em Pedro do Rio. Foi uma experiência única. E ela ainda tem obras sobre o fazer literário, conhecida como a trilogia do Livro: Fazendo Ana Paz, Feito à mão e Livro – um encontro. Todo mundo merece conhecer a obra desta autora incrível.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?

Gosto muito de ouvir minha intuição. Acredito que conselhos dizem mais sobre quem fala do que sobre quem escuta. Mas tenho algo que Rilke escreveu no livro Cartas a um jovem poeta que sempre repito: “Antes de se perguntar se seus textos estão bons, se pergunte se você morreria se deixasse de escrever”. Rilke fala sobre a importância de olhar primeiro para dentro no processo de escrita. Eu acredito muito nisso.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. O autor acaba de assinar contrato com a Editora Reformatório para a reedição de De repente nenhum som e para a publicação de um romance inédito.

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