A PROMESSA DE PROGRESSO CONTÍNUO PERDEU CONSISTÊNCIA

Viver depois do fim do mundo

Quando o presente se impõe como instável e o futuro como inacessível, qualquer narrativa que prometa ordem, identidade ou direção encontra terreno fértil  

A ideia de “fim do mundo” tornou-se recorrente no discurso contemporâneo. Evocada em contextos distintos, da crise climática à instabilidade econômica, surge muitas vezes como metáfora de um colapso iminente. No entanto, para uma geração que cresceu sob o signo da crise permanente, o fim do mundo deixou de ser projeção futura para se tornar experiência presente. 

Nas últimas décadas, a promessa de progresso contínuo perdeu consistência. O que antes se apresentava como horizonte foi progressivamente substituído por uma realidade marcada pela precariedade, pela financeirização da vida e pela erosão de expectativas. A moradia converteu-se em ativo especulativo, o trabalho em vínculo instável e a educação deixou de garantir a ascensão social. Mais do que uma sucessão de crises, o que se impõe é uma transformação estrutural na forma como o futuro é percebido. 

Essa mutação não se limita ao plano econômico. Tem implicações profundas na experiência social e subjetiva. O aumento dos problemas de saúde mental entre jovens não pode ser dissociado de um contexto em que a incerteza se tornou regra e a capacidade de projetar o futuro se encontra comprometida. O que está em jogo não é apenas a degradação das condições materiais, mas a perda de um horizonte coletivo capaz de dar sentido à ação. 

No Brasil, essas dinâmicas assumem uma expressão particularmente aguda. A combinação de desigualdade estrutural, precarização do trabalho e fragilidade das políticas públicas produz um cenário em que a crise de futuro se manifesta de forma intensificada. A dificuldade de acesso à moradia, a informalidade laboral e a instabilidade econômica coexistem com uma forte exposição a dinâmicas digitais que amplificam sentimentos de frustração e desorientação. 

Crédito: Pedro Bolle/USP Imagens

É nesse contexto que se compreende o crescimento de respostas políticas reacionárias, especialmente entre jovens. Movimentos e discursos que se apresentam como alternativas ao sistema vigente captam esse mal-estar, mas raramente questionam suas bases estruturais. Pelo contrário, tendem a redirecioná-lo para alvos específicos, desviando o foco das dinâmicas econômicas e sociais que o produzem. 

No caso brasileiro, esse processo também se cruza com a crescente centralidade de determinadas expressões religiosas na vida pública. A retórica do “fim dos tempos”, historicamente presente em várias tradições, assume novas formas quando articulada com o contexto de crise permanente. Em vez de apontar para transformação social, tende a reforçar leituras morais e individualizantes dos problemas, deslocando o foco das estruturas econômicas para comportamentos e valores. O colapso deixa de ser interpretado como resultado de dinâmicas materiais e passa a ser apresentado como consequência de desvios morais, alimentando discursos de pânico e reforçando agendas conservadoras. 

A força dessas respostas reside menos na sua coerência programática do que na sua capacidade de oferecer sentido em um cenário marcado pela ausência de referências. Quando o presente se impõe como instável e o futuro como inacessível, qualquer narrativa que prometa ordem, identidade ou direção encontra terreno fértil. Nesse sentido, a disputa política contemporânea não se trava apenas no nível das propostas, mas também na forma de interpretar a realidade. 

O maior risco talvez não seja apenas o agravamento das condições existentes, mas a sua naturalização. Quando a precariedade deixa de ser percebida como exceção e passa a ser entendida como regra, o próprio sistema se apresenta como inevitável. É nesse ponto que a crise se desloca do plano material para o plano simbólico. Torna-se uma crise de imaginação política. Como observou Mark Fisher, tornou-se mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. 

Mais do que anunciar um colapso súbito, essa formulação aponta para uma condição prolongada no tempo: um presente que se perpetua, incapaz de se transformar. O fim do mundo, nesse sentido, não surge como ruptura, mas como continuidade. Não como acontecimento, mas como permanência. 

Colocar a questão nesses termos implica reconhecer que a disputa pelo futuro é, antes de tudo, uma disputa sobre o que é considerado possível. Recuperar a ideia de transformação exige romper com a lógica de inevitabilidade que sustenta o presente e reabrir o espaço da imaginação política. Não como exercício abstrato, mas como condição para qualquer prática transformadora. 

Se o fim do mundo já se manifesta como experiência social, então sua superação não dependerá apenas de diagnósticos mais precisos, mas da capacidade de reconstruir horizontes coletivos. A questão que se coloca não é apenas como descrever o presente, mas como tornar novamente pensável aquilo que hoje parece impossível. 

 

Raul Noetzold é estudante do Ensino Secundário. Nascido no Brasil, vive em Portugal desde 2021. Ativista por uma educação justa, defende os direitos humanos, a democracia escolar e a justiça social. 

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