Aumento da tarifa afeta saúde psíquica dos pobres - Monde Diplomatique

Entrevista

Aumento da tarifa de transporte afeta saúde psíquica dos pobres, acredita psicanalista

por Igor Ojeda
Janeiro 31, 2018
Imagem por Diego Torres Silvestre
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Para Daniel Guimarães, da Clínica Pública de Psicanálise, a restrição ao deslocamento pela cidade empobrece o “repertório psíquico” dos moradores da periferia, ao impedir o contato com novas imagens, palavras, sons e ruas, “aquilo que usamos para produzir fantasias que nos confortam em situações de frustração”

Não é só pelos 20 centavos.

Quer dizer, para as famílias mais pobres, o aumento de R$ 3,80 para R$ 4,00 nas tarifas de ônibus, metrô e trem em São Paulo, determinado pelo prefeito João Doria e pelo governador Geraldo Alckmin nesta virada de ano, não causam impacto apenas no orçamento. A maior restrição à mobilidade afeta, como consequência, a saúde psíquica das pessoas de baixa renda. Quem propõe essa análise é o psicanalista Daniel Guimarães, um dos criadores da Clínica Pública de Psicanálise. Ele escreveu sobre a hipótese num artigo para o site Outras Palavras.

“O meu ponto é baseado em levantamentos recentes de que o sofrimento psíquico, incluindo formas mais agudas como a loucura, é maior entre a população pobre. Portanto, qualquer medida que afete economicamente a população de forma negativa a coloca em riscos maiores dos que os que já vive. O que fiz, agora com alguns recursos da psicanálise, foi levar esse argumento para a dimensão da saúde psíquica”, explica.

Ele se refere à pesquisa “São Paulo megacity – um estudo epidemiológico de base populacional avaliando a morbidade psiquiátrica na região metropolitana de São Paulo: objetivos, desenho e implementação do trabalho de campo”, de Maria Carmen Viana, Marlene Galativicis Teixeira, Fidel Beraldi, Indaiá de Santana Bassani e Laura Helena Andrade. Publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria em dezembro de 2009, ele pode ser lido, em inglês, aqui.

A ligação entre a psicanálise e o debate sobre mobilidade não é à toa. Natural de Florianópolis, Santa Catarina, Guimarães, de 34 anos, foi um dos fundadores, em 2005, do Movimento Passe Livre (MPL), que propõe a gratuidade no transporte público e convoca protestos contra aumentos de tarifa em várias cidades do Brasil. Vivendo na capital paulista há dez anos, ele se tornou psicanalista e, pouco depois de se afastar organicamente do movimento, participou em 2016 da criação da Clínica Pública de Psicanálise, que realiza atendimentos gratuitos a pessoas de baixa renda.

Segundo o psicanalista, “o impedimento do deslocamento do corpo na cidade empobrece o repertório de imagens, palavras, sons e ruas, aquilo que usamos para produzir fantasias que nos confortam em situações de frustração. Um repertório psíquico mais pobre pode encontrar mais dificuldade para encontrar saídas quando o sofrimento chega”.

Na entrevista a seguir, Daniel também fala sobre as possíveis consequências do sofrimento psíquico “coletivo” nos territórios periféricos, da necessidade de se popularizar a psicanálise e do trabalho da Clínica Pública de Psicanálise.

 

DIPLOMATIQUE – Você defende que o aumento das tarifas de ônibus, metrô e trem tem impacto negativo na saúde psíquica da população. O que uma coisa tem a ver com a outra?

Daniel Guimarães – É uma extensão de um argumento que o Movimento Passe Livre levanta há muitos anos. Cada aumento representa índices mais elevados de exclusão. O custo do transporte é um dos maiores no orçamento familiar. Num país de extremos e muita miséria como o Brasil, qualquer elevação no preço da passagem significa redução de usuários do transporte. Isso quer dizer que a população mais pobre, em especial a periférica, acessará menos os serviços públicos centralizados e já muito burocratizados. O meu ponto é baseado em levantamentos recentes de que o sofrimento psíquico, incluindo formas mais agudas como a loucura, é maior entre a população pobre. Portanto, qualquer medida que afete economicamente a população de forma negativa a coloca em riscos maiores do que os que já vive. O que fiz, agora com alguns recursos da psicanálise, foi levar esse argumento para a dimensão da saúde psíquica.

Desde coisas muito concretas como o aumento do forte desconforto emocional nos trens e ônibus lotados – a cada aumento se reduz a quantidade de usuários o que, por sua vez, faz as empresas reduzirem a quantidade de viagens ofertadas, ampliando a quantidade de pessoas por metro quadrado –, o desperdício de energia psíquica nas longas esperas, a falta de conforto nas horas acumuladas nos longos trajetos, maior risco para mulheres por conta dos abusos… a lista é longa. Há uma música chamada “A volta pra casa”, do Rincon Sapiência, que ilustra bem o que estou querendo dizer. Mas, além disso, inseri uma nova hipótese, que é apenas o início de uma pesquisa natural para mim, que agora sou psicanalista, mas por mais de dez anos militei no Movimento Passe Livre. O impedimento do deslocamento do corpo na cidade empobrece o repertório de imagens, palavras, sons e ruas, aquilo que usamos para produzir fantasias que nos confortam em situações de frustração. Um repertório psíquico mais pobre pode ter mais dificuldade para encontrar saídas quando o sofrimento chega. Apostaria que saber que há um mundo lá do outro lado que não pode ser acessado é um a mais de frustração. Ou ainda pior: saber, sem reconhecer os motivos, talvez até assumindo responsabilidade e culpa por isso.

O sistema de transporte tarifado é uma espécie de apartheid, e proponho o arcabouço da psicanálise para tentar explicar os fenômenos que vêm sendo demonstrados, que citei anteriormente: o maior índice de loucura entre pobres e o maior número de formas amplas de adoecimento psíquico entre populações com a capacidade de mobilidade reduzida. É um salto metafórico da mobilidade do corpo para seus equivalentes psíquicos. Nesse sentido, políticas públicas de direito à cidade, como a tarifa zero, poderiam ser fortes aliadas na saúde mental da população, não apenas para ter acesso a equipamentos públicos centralizados, mas também para passear, ver outras paisagens, ouvir novas palavras, encontrar pessoas de outros lugares, se aventurar e, ao voltar, poder sentir o estranhamento com relação ao próprio espaço onde vive. Desnaturalizar as coisas. Por que no centro há mais árvores? Por que tem metrô só até tal lugar? Por que não posso deslocar meu corpo e meu desejo para encontrar a pessoa amada? E assim por diante.

 

Negros e mulheres são os grupos que mais sofrem com a pobreza, como aponta, por exemplo, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Pode-se concluir que estes (em última instância, a mulher negra) são os grupos populacionais que mais sentem os efeitos psíquicos do que você chama de “exílio periférico”?

Me parece que são pesquisas a serem feitas. A aposta é que sim, pelas características de classe com atravessamentos de gênero e raça que é o nosso próprio tecido social esgarçado.

 

Quais as consequências de um aumento de tarifa para o tecido social de um território em que a imensa maioria das pessoas sofre “coletivamente” desse adoecimento psíquico?

Acredito que medidas como essa façam a vida social ser mais sofrida, menos solidária, mais violenta entre os mais pobres ou a partir dos mais pobres em relação aos mais ricos, que sofrerão isso que se chama “violência urbana” quando ela alcança o centro. É um trajeto dialético iniciado pelo mercado, empresas de ônibus e prefeitura em especial, que ataca a população, reduzindo suas perspectivas de vida, passando pela repressão física policial. E entre esta população de exilados, como chamava [o geógrafo] Milton Santos, negros e mulheres estão em condições de desvantagem por aspectos históricos da nossa formação des-urbana. A cidade, que vai deixando de ser cidade para ser apenas um grande mercado, deixa de ser espaço social. Essas medidas econômicas antipopulares são, portanto, antissociais.

 

Você escreve que há uma imagem de que a psicanálise é um serviço prestado por integrantes de classes abastadas para integrantes de classes abastadas. Por que essa é a imagem que prevalece?

Talvez porque foi assim que a psicanálise primeiro se estabeleceu no Brasil, a partir de médicos psiquiatras higienistas. Muito mudou da década de 1930 para cá, é evidente. Psicanalistas críticos, de esquerda, foram essenciais na própria formulação do sistema de saúde pública, agora sob risco após o golpe [o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016]. Muita prática revolucionária passou pelo campo da psicanálise. Nomes como Hélio Pellegrino, Nise da Silveira, Antonio Lancetti, para citar poucos. Mas há espaço para uma controvérsia de difícil solução. Pode ser que a psicanálise acerte mais do que erre ao permanecer marginal como profissão e “oficialmente” ausente das formações no ensino superior. Cursos de psicologia de universidades públicas talvez sejam os grandes propagadores da psicanálise para além da superelitizada Sociedade Brasileira de Psicanálise. Mas há a questão difícil da forma como alguém se torna analista. No arranjo pedagógico que temos à nossa disposição é muito delicado formar um analista. Se a própria análise é central nesse processo, em que o sujeito passa pela experiência de suas próprias questões e conflitos inconscientes, como qualificar este processo em termos de avaliação? A crítica ao modelo da análise didática [análise à qual o futuro analista se submete, como parte de sua formação], ainda em vigor, me parece ser de enorme valor.

Então temos um cenário em que os psicanalistas são pessoas que passaram por cursos de psicologia, ou medicina/psiquiatria e que, depois, cursaram especializações em psicanálise, enquanto faziam sua análise pessoal pagando grandes valores. Algumas instituições, como as onde eu estudo, ampliaram muito as portas para fora desse modelo, barateando a mensalidade, não exigindo um processo analítico com integrantes da própria instituição, embora exija alguma formação acadêmica prévia. Por sorte eu tinha um diploma de jornalista. Mas foi a vida vivida que me levou para um consultório de psicanálise como paciente e, de lá, me instigou a estudar e fazer psicanálise do outro lado da poltrona.

O próprio sistema público de ensino é uma questão, aliás. Sua ampliação foi interrompida após o golpe recente. É necessário inserir a psicanálise no sistema de saúde pública – e lutar mesmo pela manutenção e ampliação da saúde pública. Talvez seja esse o horizonte da Clínica Pública de Psicanálise. Atender quem nos procura e não pode pagar os preços do mercado da psicanálise. Demonstrar que há demanda popular por cuidado emocional e que a psicanálise, esse tratamento pela fala, escuta e relação, está sendo buscada por pessoas que não se sentiram cuidadas o suficiente por outros modelos, em especial os puramente baseados em medicamentos.

Mas é também necessário dizer que a psicanálise precisa ser popular no sentido de permitir que a população mais pobre possa sonhar se apropriar dela. Não será suficiente os analistas críticos socialistas de classe média atenderem os pobres. Ou, pior ainda, criarem formas precárias de atendimento, que servem mais aos interesses desses analistas que preferem dedicar pouco do seu tempo para um trabalho tão sério e relevante. Será fundamental inserir a psicanálise também no imaginário popular. Se o imaginário popular assim desejar, é claro, a própria psicanálise será transformada. É uma questão importante, central mesmo. Não nos interessa utilizar a psicanálise como forma de reeducação das pessoas. Não somos professores de nada, tampouco temos um projeto pronto. Nossa tarefa é proporcionar mais energia psíquica para quem nos procura. Seja lá qual destino essa pessoa dê para essa energia que estava, digamos, encatracada.

 

Você pode explicar melhor então como é o trabalho da Clínica Pública de Psicanálise?

Nós temos algumas formas de trabalho. Em primeiro lugar, é importante dizer que existimos lá, na Vila Itororó [no bairro paulistano da Bela Vista], para que não seja esquecido que naquele conjunto de casas habitavam famílias. Elas foram removidas, em nome de um certo tipo de conceito de “público”, ao qual nos opomos, para que ali se tornasse um desses polos de cultura de mercado. Então começamos a clínica para proporcionar a essas famílias a possibilidade de elaboração daquela violência. Para ressignificar o conceito de público, a favor da população e não do mercado.

Depois de mais de um ano e meio de trabalho fomos percebendo que muito mais importante do que atender aquelas pessoas – as que aderiram à ideia, pois nenhuma foi obrigada a participar – seria manter essa história viva. Porque casos como esse são recorrentes no nosso período histórico e é importante que se saiba que há sofrimento quando famílias que moravam juntas são separadas. Que há sofrimento quando a sua noção de território espacial se confundia com o território psíquico existencial e as duas são abruptamente, sem seu desejo, separadas. Destroçadas. Como essas pessoas reconstruirão suas vidas e relações?

A partir disso fomos ampliando as formas de atendimento. Sempre com um rigor semelhante ao nosso trabalho em consultório e, ainda melhor, transformando nossa forma de trabalho em consultório a partir das experiências – não confundir com experimentos – ali realizadas. Mas nunca como um “plano b” para os pobres. Somos aproximadamente nove analistas, três supervisoras e uma artista. Mais analistas entrarão para o grupo em 2018. Cada um de nós atende de três a dez pacientes regulares. Temos também um plantão que funciona aos sábados, onde as pessoas podem ir quando quiserem e ser atendidas pelo mesmo analista que as atendeu anteriormente. O grupo de analistas que atua no plantão é sempre o mesmo. Há alguns meses começamos também um trabalho em grupo aos sábados. O grupo é aberto, não é necessário retirar senha como nos atendimentos individuais nos plantões, que funciona por ordem de chegada. Minha impressão é que, diante da solidão na megalópole da cultura contra a política organizada, a combinação de trabalho terapêutico em grupo e os atendimentos individuais está sendo muito boa.

Em 2018 pretendemos também ampliar o aspecto de formação na Clínica. Ano passado apoiamos um curso do Margens Clínicas, coletivo companheiro da nossa caminhada, além de abrir espaço para um grupo de estudo de mulheres que estão interessadas na formação da subjetividade racial brasileira a partir de uma referência marxista e psicanalítica. No futuro, quem sabe, poderemos aos poucos produzir nosso próprio grupo de estudos e, assim, criar esse espaço de formação popular de psicanalistas, trazendo para os estudos de psicanálise os mais variados conteúdos interdisciplinares que circulam pela vida intelectual e afetiva popular. Talvez então a Clínica Pública de Psicanálise seja um trabalho contracultural, político, que realiza no agora o que poderia vir a ser um serviço público, construído de forma independente, de baixo para cima.

 

*Igor Ojeda é jornalista.



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