45 candidaturas ao Senado e aos governos estaduais têm vínculos com canais de rádio e TV
Na era da inteligência artificial, velhas práticas políticas persistem na disputa pelo poder
O levantamento Donos da Mídia 2026 identificou 45 pessoas que concorrem aos governos estaduais ou ao Senado, inclusive às vagas de vice-governador e suplente, com vínculos próprios ou familiares com emissoras de rádio e TV em 23 estados.
Há uma década, a série de pesquisas do Intervozes acompanha as relações entre políticos, seus familiares e empresas de radiodifusão, além do uso de programas policialescos como trampolim político. Os dados de 2026, mostram que o uso massivo das redes sociais e da Inteligência Artificial combina-se a velhas práticas de controle de canais de rádio e tv por políticos na manutenção de projetos de poder familiares e negócios lucrativos.
Do total de candidatos que aparecem no levantamento das candidaturas que concorrem ao Senado e aos cargos de Governador, 17 participam da disputa pelos governos estaduais e 28 da corrida ao Senado. Também somam, respectivamente, candidaturas a vice-governador e a suplente de senador. Nenhum candidato à Presidência integra a amostra, mas os partidos presentes no monitoramento também participam da disputa pelo Palácio do Planalto. Após o segundo turno, o levantamento se concentrará nos eleitos para ocupar as casas legislativas estaduais e a Câmara dos Deputados, somando os dados com os identificados nessa primeira fase.
Embora o artigo 54 da Constituição Federal restrinja a participação de deputados federais e senadores em empresas concessionárias de serviço público, o levantamento identifica, entre as candidaturas analisadas, 16 parlamentares em exercício com vínculos próprios ou familiares com emissoras: dez senadores, quatro deputados federais e dois deputados estaduais. Cinco senadores disputam uma vaga de titular no Senado: Zenaide Maia (PSD-RN), Ciro Nogueira (PP-PI), Plínio Valério (PSDB-AM), Eduardo Gomes (PL-TO) e Renan Calheiros (MDB-AL). Outros dois, Jader Barbalho (MDB-PA) e Eudócia Caldas (PSDB-AL), concorrem à suplência. Também buscam uma vaga de titular no Senado os deputados federais Aécio Neves (PSDB-MG), Mendonça Filho (PL-PE), Roseana Sarney (MDB-MA) e Júlio César (PSD-PI), além dos deputados estaduais Janaina Riva (MDB-MT) e Antídio Lunelli (MDB-SC). Os três senadores restantes disputam governos estaduais: Efraim Filho (PL) concorre ao governo da Paraíba, Wellington Fagundes (PL) ao de Mato Grosso e Renan Filho (MDB) ao de Alagoas.
O conflito de interesses é evidente: deputados federais e senadores participam das decisões sobre outorgas e renovações de rádio e TV, enquanto o artigo 54 da Constituição restringe sua participação nas empresas que exploram essas concessões. A regra busca evitar que parlamentares tenham interesses políticos e econômicos nas emissoras cujas outorgas são submetidas ao Congresso, legislando em causa própria.
Um episódio recente ilustra essa relação. Em setembro de 2026, a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática do Senado aprovou 55 pedidos de concessão e renovação de outorga para emissoras de 12 estados. Entre eles estava a renovação da permissão da DJ Comunicações e Exploração de Serviços de Radiodifusão Ltda., ligada à Rádio 105 FM de Guaramirim (SC). Antídio Lunelli, deputado estadual do MDB e candidato ao Senado por Santa Catarina, aparece no levantamento como ex-sócio da empresa. Sua irmã, Viviane Cecília Lunelli, consta no quadro societário. O levantamento registra a saída de Antídio da sociedade em 2024, mas não comprova uma transferência direta de suas cotas à irmã. Se eleito senador, Antídio poderia decidir sobre a renovação da concessão da família.

Ilegalidade reincidente
Os casos de Aécio Neves (PSDB-MG), Acir Gurgacz (PDT-RO) e da família Feliciano (PB) mostram a persistência dos vínculos entre políticos e emissoras de rádio e TV. Aécio, associado à Rádio Arco-Íris, e Acir já haviam sido citados em levantamento anterior do Intervozes. Na Paraíba, o deputado federal Damião Feliciano (União Brasil-PB) figurou no levantamento eleitoral de 2022 por sua ligação com a Rádio Santa Rita. Sua esposa, Lígia Feliciano (União Brasil), ex-vice-governadora, volta a disputar o cargo em 2026, na chapa do governador Lucas Ribeiro (PP). O vínculo da família Feliciano com a radiodifusão teve desdobramento judicial: uma representação baseada em pesquisa do Intervozes levou o Ministério Público Federal a questionar as outorgas da Rádio Santa Rita e do Sistema Rainha de Comunicação, declaradas nulas pela Justiça Federal, em primeira instância, em 2021.
A situação de João Rodrigues (PSD-SC) também chegou ao Judiciário. Em 2017, a Justiça Federal determinou, em primeira instância, o cancelamento da concessão da Rádio Nonoai, no Rio Grande do Sul, porque o então deputado federal integrava o quadro societário da empresa. A ação foi ajuizada pelo Ministério Público Federal
Em Alagoas, a disputa pelo governo coloca frente a frente duas famílias com vínculos registrados na pesquisa com a radiodifusão. JHC (PSDB) aparece como sócio da empresa responsável pela Mix FM Maceió; Marina JHC, candidata ao Senado, e Eudócia Caldas, candidata à suplência, integram o levantamento por seus laços familiares com ele. Do outro lado, Renan Filho (MDB) declara participações em empresas ligadas à Rede Correio de Rádio, enquanto seu pai, o senador Renan Calheiros (MDB), candidato à reeleição, aparece pelo vínculo familiar. A relação de Renan Filho com emissoras já havia sido registrada pelo Intervozes em 2014, quando o coletivo o identificou como sócio do Sistema Costa Dourada de Radiodifusão.
No Pará, a candidatura de Helder Barbalho (MDB-PA) ao Senado segue sendo emblemática da relação mídia e poder político. Filho do senador Jader Barbalho, que concorre como seu primeiro suplente, e de Elcione Barbalho, candidata a deputada estadual, Helder integra uma família ligada ao Grupo RBA de Comunicação. O conglomerado reúne veículos de televisão, rádio, imprensa e internet, entre eles a RBA TV, afiliada à Band, o Diário do Pará, o portal DOL, a Rádio Clube do Pará, a 99 FM e a Diário FM. Sua presença em diferentes meios e regiões do estado torna especialmente relevante examinar como esses veículos cobrem as disputas eleitorais.
Essa relação já foi objeto de questionamento na Justiça Eleitoral. Na eleição para o governo do Pará em 2014, Helder e seu então candidato a vice, Joaquim Lira Maia (DEM), foram acusados de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. Segundo a acusação, veículos do Grupo RBA teriam publicado matérias promocionais que beneficiaram a chapa. O Tribunal Regional Eleitoral do Pará julgou a ação improcedente em 2017. Em 2021, Helder foi novamente denunciado pelo Ministério Público Eleitoral sobre a mesma acusação, mas com um aditivo de utilizar fake news em sua campanha de 2018.
Na Paraíba, o caso da família de Lígia Feliciano, do União Brasil, também teve desdobramento judicial: a partir de representação fundamentada no levantamento do Intervozes, o Ministério Público Federal ajuizou ação contra concessões ligadas a seu marido, o deputado Damião Feliciano, e a Justiça Federal declarou nulas, em primeira instância, em 2021, as outorgas da Rádio Santa Rita e do Sistema Rainha de Comunicação.
No Maranhão, o senador Weverton Rocha (PDT), candidato à reeleição, declarou à Justiça Eleitoral possuir 30% da Jota Comunicação S/A, empresa da qual sua esposa, Sâmya, é diretora. A Jota aparece ao lado da Rádio e TV Difusora do Maranhão, da Rádio Caxias e da Rádio Curimã em documentos relativos ao Grupo Difusora.
Em São Paulo, Guilherme Medon (Missão), utiliza as redes sociais para acumular capital político mas sem abrir mão da relação com a velha mídia. O candidato, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), concorre a uma vaga de primeiro suplente de senador e aparece no levantamento por estar vinculado à Rádio Clube de Americana de propriedade de Juliana Medon Bianco Giuliani, sua tia.
Mídia e poder econômico
A reorganização dos modos de consumo de canais de rádio e tv e da produção de conteúdo de radiodifusão trazida pelo advento das mídias digitais levou muitos analistas a questionarem se a posse de canais é realmente um bom negócio. Apesar disso, há uma relação entre os proprietários de mídia e negócios lucrativos no campo do agronegócio, da educação privada, das empresas religiosas, dentre outros.
Observar os patrimônios declarados dos candidatos ao pleito de 2026, que são ligados a canais de rádio e tv demonstra que, as empresas de comunicação podem até não representar por si mesmas ativos muito lucrativos, porém, são estratégicas do ponto de vista político e alimentam a cadeia de enriquecimento dos políticos proprietários.
Entre os cinco candidatos a governador e senador com os maiores bens declarados ao TSE nas eleições de 2026, quatro aparecem no levantamento do Intervozes. Antídio Lunelli (MDB-SC), candidato ao Senado, lidera o ranking com R$ 613,2 milhões; Otaviano Pivetta (Republicanos-MT), candidato ao governo de Mato Grosso, vem em seguida, com R$ 575,7 milhões. Também constam da pesquisa Professora Maria do Carmo (PL-AM), candidata ao governo do Amazonas, com R$ 118,5 milhões, e ACM Neto (União Brasil-BA), candidato ao governo da Bahia, com R$ 84,9 milhões. O terceiro colocado no ranking geral, Simplício Araújo (DC-MA), candidato ao Senado com R$ 400 milhões declarados, não aparece no levantamento.
| Posição | Candidato | Disputa | Partido | Bens declarados |
| 1º | Antídio Lunelli | Senado por SC | MDB | R$ 613.221.297,87 |
| 2º | Otaviano Pivetta | Governo de MT | Republicanos | R$ 575.680.870,95 |
| 3º | Simplício Araújo | Senado pelo MA | DC | R$ 400.000.000,00 |
| 4º | Professora Maria do Carmo | Governo do AM | PL | R$ 118.473.769,48 |
| 5º | ACM Neto | Governo da BA | União Brasil | R$ 84.888.809,63 |
Antídio Lunelli (MDB-SC) e Otaviano Pivetta (Republicanos-MT) declararam os maiores patrimônios ao TSE em 2026. Lunelli aparece na pesquisa como ex-sócio da empresa responsável pela Rádio 105 FM, cujo quadro societário inclui sua irmã.
Pivetta, por sua vez, foi identificado como sócio da Regional FM 103,5. Os bens declarados por ambos cresceram desde a eleição de 2022. Lunelli passou de cerca de R$ 390 milhões para R$ 613,2 milhões, alta de aproximadamente 57%. Pivetta passou de R$ 378,9 milhões para R$ 575,7 milhões, aumento de cerca de 52%. A comparação usa os valores informados pelos candidatos em cada eleição, sem correção pela inflação.
Candidato à reeleição para o governo de Mato Grosso, Otaviano Pivetta (Republicanos) declarou apoio ao presidenciável Flávio Bolsonaro. Ligado ao agronegócio, propõe ampliar a rede de escolas militares no estado. Em 2026, sua campanha recebeu R$ 150 mil de dois doadores autuados pelo Ibama, segundo apurou o Repórter Brasil.
Corrida presidencial
No levantamento de 2026, o MDB lidera o número de candidatos donos da mídia com nove registros, seguido por PL (sete), PSD (seis), PSDB (cinco) e Republicanos (quatro). PL e PSD lançaram candidaturas próprias à Presidência: Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado, respectivamente. MDB, PSDB e Republicanos não declararam apoio nacional a um presidenciável. O MDB liberou seus diretórios estaduais para definir apoios; a federação PSDB-Cidadania e o Republicanos adotaram a neutralidade.
O MDB, partido com mais registros na pesquisa, é presidido nacionalmente pelo deputado federal Baleia Rossi (SP), também radiodifusor. Sua participação em empresas de rádio foi objeto de ação civil pública ajuizada em 2015, pelo Intervozes e pelo Ministério Público Federal. Em 2022, a Sexta Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região manteve a decisão que anulou as outorgas da Rádio Show de Igarapava e da Rádio AM Show. Baleia Rossi alegou que havia deixado as sociedades após o início da ação, mas o tribunal considerou sua participação nas empresas quando as outorgas foram concedidas.
No PL, partido do presidenciável Flávio Bolsonaro, quatro nomes aparecem na categoria de candidaturas ao Senado: Maguinha Malta (ES), Mendonça Filho (PE), Andrey Tomazi (SC) e Eduardo Gomes (TO). Andrey concorre à suplência. Entre os quatro, Mendonça Filho e Eduardo Gomes já exercem mandato parlamentar e têm vínculos com emissoras por meio de familiares. O deputado federal Mendonça Filho está ligado à Rádio Bitury FM 98,3 pela participação societária de sua esposa. Segundo o histórico publicado pela própria emissora, seu pai, José Mendonça Bezerra, comprou a rádio em conjunto com o então deputado federal Ricardo Fiúza. José Mendonça integrou a Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara entre 2005 e 2010, legislando, diretamente, sobre assuntos de seu interesse comercial e político. Já o senador Eduardo Gomes é associado à TV Boa Vista por uma participação atribuída historicamente a seu irmão.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV e responsável pela candidatura de Lula, não tem representantes entre os nomes levantados. O PSB, partido do candidato a vice-presidente Geraldo Alckmin, porém, aparece uma vez: com Larissa Rosado, candidata a vice-governadora do Rio Grande do Norte, na chapa de Cadu Xavier (PT). Ex-deputada estadual, Larissa tem um vínculo familiar com a Rádio 93 FM Resistência de Mossoró. Segundo a pesquisa do Intervozes, os pais da candidata, Sandra Rosado e Laíre Rosado Filho, integram o quadro societário da Rádio Resistência de Mossoró Ltda. Larissa já atuou como diretora da emissora, e seu irmão, Lahyre Rosado Neto, apresenta um programa político na rádio, mas a candidata não é apontada como sócia atual.
A pesquisa não identificou participação de Flávio e da família Bolsonaro na propriedade de emissoras de rádio ou TV, porém, demonstra que a atuação no campo da comunicação passa sobretudo por canais digitais e por relações com veículos pertencentes a terceiros. É destaque a TV Celular, canal digital da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), lançado em setembro de 2026, para transmitir conteúdo pelo YouTube. O canal mistura política e entretenimento. Além das transmissões ao vivo, passou a produzir formatos como o programa de entrevistas Que Programa É Esse?. Em 26 de setembro, o canal registrou 9,5 milhões de visualizações e 56 mil inscritos desde o lançamento, em 7 de setembro.
A campanha de Lula pediu ao TSE a suspensão da TV Celular até sua regularização, alegando que parte do conteúdo poderia ser confundida com material jornalístico sem a identificação exigida para propaganda eleitoral. O caso foi distribuído ao ministro André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal desde dezembro de 2021. Mendonça foi indicado pelo pai de Flávio, o então presidente Jair Bolsonaro. O pedido de suspensão da TV Celular foi negado.
A decisão se insere em uma atuação mais ampla de Mendonça sobre conteúdo eleitoral nas redes. Em junho, ele ordenou a retirada de publicações que associavam Flávio Bolsonaro a milícias, ao crime organizado e ao empresário Daniel Vorcaro. Em determinação recente, de 25 de setembro, André Mendonça resolveu que o humorista Antonio Tabet retirasse do X uma postagem que fazia alusão a “família miliciana”. Tabet não citava Flávio Bolsonaro, mas a decisão atendeu a um pedido da campanha do candidato.
Dos canais de rádio e TV às redes sociais, a disputa política no Brasil permanece atravessada pela concentração de poder político e midiático, que restringe a pluralidade de vozes e impõe limites à própria democracia – tanto nos meios analógicos quanto nos digitais.
Donos da Mídia 2026
A pesquisa Donos da Mídia 2026 é parte da série histórica do Intervozes que analisa a propriedade e controle de canais de rádio e tv – concessões públicas – por políticos. Neste pleito, o Intervozes analisou os 26 estados mais o Distrito Federal, fazendo o cruzamento de dados fornecidos pela Receita Federal, pelo Sistema de Acompanhamento de Controle Societário da Anatel (Siacco) e pelo TSE. Nesta edição, a equipe de pesquisadores não conseguiu acessar os dados do Siacco já que o portal esteve indisponível no período de 8 a 23 de setembro. O Intervozes entrou em contato com a Anatel e até o fechamento deste texto, não teve retorno.
Foram identificados políticos proprietários ou com ligação direta com canais de rádio e tv em 23 unidades da federação. Apenas em Goiás (GO), Rio Grande do Sul (RS), Roraima (RR) e Distrito Federal (DF) não foi possível identificar esse perfil de candidatura de donos da mídia.
Esse é o primeiro texto da série sobre as eleições de 2026. Nos próximos, analisaremos o fenômeno recorrente de políticos que fizeram fama e acumularam capital com os programas policialescos. Após o primeiro turno, será feito um raio X dos eleitos para as casas legislativas dos estados e para a câmara federal identificando as relações com a mídia. Também integra a análise a relação entre candidatos oriundos das forças de segurança pública que atuam como influencers, acumulando capital político e econômico nas redes sociais. Acompanhe a série aqui pelo Le Monde Diplomatique Brasil. Os dados completos serão disponibilizados no site do intervozes.
Iara Moura é jornalista, mestra em comunicação e coordena a pesquisa Donos da Mídia 2026. Mônica Mourão, Raquel Bastos, Franciani Bernardes, Paulo Victor Melo e Iago Vernek são ativistas do Intervozes e integram a equipe de pesquisadores responsável pelo levantamento.

