MASSACRES NA PALESTINA

Terror e “negassionismo”

O Ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023

Tenho escrito muito sobre a questão palestina, mas sempre evitei me referir expressamente ao episódio de 7 de outubro de 2023, origem da investida em curso de Israel contra o povo palestino. A Europa, mesmo a Inglaterra, deu um passo, ainda que simbólico, em defesa do povo massacrado, reconhecendo o Estado Palestino. A Alemanha, responsável direta pelo genocídio do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial, cujo lema desde a ascensão do nazismo em 1933 era “Juden raus! Auf nach – Palastina!, Judeus Fora! Fora para a Palestina!”, continua se recusando a reconhecer o Estado, apoiando abertamente o genocídio.

O episódio de 7 de outubro é utilizado por Israel e pela maior parte dos judeus israelenses e da diáspora para justificar o extermínio do Hamas e de todos os palestinos, homens, mulheres, idosos e crianças, que entendem como militantes em potencial, cúmplices ou, no mínimo, escudos utilizados pelo Hamas – portanto, podem ou devem ser varridos da face da terra.

Desde o início do Mandato Britânico em 1920, e principalmente após a ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha, a população nativa da Palestina tem sido vítima de assalto e agressão. Após as Leis de Nuremberg de 1935, que declararam os judeus cidadãos de segunda categoria, a invasão do território fomentou a revolta árabe de 1936-39. A situação foi sendo agravada com a imigração em massa dos judeus sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, indesejados na Europa, a aprovação do Plano de Partição da Palestina, em 1947, a criação do Estado de Israel em 1948, a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, em 1967… até a atual investida após o 7 de outubro.

O assalto, assassinato e tomada de reféns pelo Hamas em 7 de outubro é veiculado pela mídia internacional como um episódio terrorista e bárbaro que levou à morte cerca de 1200 pessoas. Sou pacifista, vegetariano, avesso tanto a agressões físicas como verbais, não mato sequer vermes e não chuto cachorro, nem morto. Isto significa que fico consternado tanto com a carnificina promovida por Israel na Palestina como com a anuência à investida israelense que extermina o povo e arrasa o território palestino.

Israel ostenta o episódio de 7 de outubro como se fosse vítima de uma atitude gratuita praticada por animais insanos, enquanto nega a violência contínua perpetrada contra a população palestina por mais de um século. Em A ofensiva militar em Gaza, entre os inúmeros atos terroristas, destaco dois episódios, Jaffa e Tantura. Os europeus, dos dois lados do Atlântico, compadecidos pelo destino dos judeus durante o Holocausto, fizeram vista grossa e deram passe livre para a selvageria dos sionistas, preconizada como um ato heroico.

Crédito: Jaber Jehad Badwan/Wikimedia

Jaffa, minha cidade natal, havia sido designada como enclave árabe pelo Plano de Partição da Palestina aprovado pelas Nações Unidas em 1947. Para evitar a formação do enclave, em 25 de abril de 1948, 20 dias antes da criação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948, as organizações militares Irgum e Haganah bombardearam a cidade e se apressaram em jogar 45 mil árabes de Jaffa ao mar, que ancoraram no Líbano.

Tantura foi invadida e arrasada pela Haganah em 22 de maio de 1948, uma semana após a declaração de independência do Estado de Israel, que ironicamente garantia direitos iguais a judeus e não judeus. Depois que a mídia deu destaque à dissertação sobre o Massacre de Tantura, os tribunais israelenses determinaram o seu banimento de todas as bibliotecas do país.

Para não nos alongarmos nos inúmeros episódios terroristas empreendidos pelo Estado de Israel, vamos nos ater apenas ao Massacre de Sabra e Chatila. Em 1982, as Nações Unidas, por 123 votos a favor, nenhum contra e 22 abstenções, condenaram o massacre, declarando-o um ato de genocídio. A Corte Suprema de Israel considerou o Ministro da Defesa responsável pelo massacre, recomendou a sua demissão e forçou Ariel Sharon a renunciar ao cargo.

Yes, and how many times can a man turn his head and pretend that he just doesn’t see?

 

Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de Salaam Aleikum, Palestina!

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