MENINAS E MULHERES SEGUEM SENDO VIOLENTADAS, SILENCIADAS E CULPABILIZADAS POR AGRESSÕES QUE SOFREM

8 de março em tempos de antifeminismo: por que radicalizar as lutas feministas?

Como algumas mulheres podem negar que o simples fato de nascermos mulheres já nos coloca em uma posição de desigualdade estrutural?

Que não é fácil ser mulher em uma sociedade historicamente pavimentada pelo patriarcado e pelo colonialismo não é exatamente uma novidade. As dificuldades se manifestam em praticamente todos os espaços da vida social. No âmbito doméstico, recaem sobre as mulheres as responsabilidades quase totais pelo trabalho reprodutivo – aquele sem o qual nenhuma sociedade se sustenta – bem como pelo trabalho doméstico e afetivo, que exige saúde mental, disposição e tempo, muito tempo. Já na esfera pública, os obstáculos aparecem na dificuldade de sermos escutadas, de ocuparmos posições de poder e tomada de decisão e, sobretudo, de garantirmos algo que deveria ser elementar: o direito de permanecermos vivas em uma sociedade que, cotidianamente, mobiliza diferentes estratégias de controle, silenciamento e violência contra as mulheres. 

Como aponta Bianca Damacena em Vivas nos queremos (2023), ideologias patriarcais e machistas organizam homens e mulheres em posições estruturalmente desiguais. Essas ideologias operam de forma a conceder aos homens uma ampla margem de permissividade, às vezes explícita, outras vezes velada, inclusive para recorrerem à violência como forma de manutenção de seus privilégios – e muitas vezes o fazem com sucesso (p.103). 

Em resposta a esse cenário, os movimentos feministas têm, há décadas, construído formas de resistência e organização coletiva para ampliar sua voz e disputar transformações estruturais. No Brasil, essas lutas se traduziram também em conquistas institucionais importantes, como a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015), entre outras medidas que procuram reconhecer a especificidade da violência de gênero e produzir mecanismos de proteção às mulheres. Ainda assim, os índices de violência doméstica e feminicídio permanecem alarmantes, indicando que as mudanças legais, embora fundamentais, não são suficientes para alterar estruturas sociais profundamente enraizadas. 

Lutas feministas: colagem de mulheres segurando cartazes em manifestações. Há um filtro lilás na imagem
Crédito: Caroline Ferraz/Sul21

Essa cartografia contemporânea também tem sido marcada, nos últimos anos, pela ascensão de mulheres que se autointitulam antifeministas. Trata-se de figuras públicas que negam a existência de desigualdades de gênero e se alinham a discursos patriarcais sobre os papéis femininos e as funções que as mulheres deveriam desempenhar na sociedade (Galetti, 2024). Há, entretanto, uma contradição evidente: muitas dessas mulheres ocupam espaços na esfera pública, trabalham, disputam eleições e exercem cargos políticos, posições que foram historicamente conquistadas justamente pelas lutas feministas que elas buscam deslegitimar. 

Ainda assim, discursos e práticas antifeministas têm encontrado aderência social e dialogado com o fortalecimento de narrativas masculinistas, que procuram recolocar as mulheres em posições tradicionais e subordinadas. Durante o processo de escrita da minha tese de doutorado (defendida em 2024) essa questão me acompanhava constantemente: como algumas mulheres podem negar que o simples fato de nascermos mulheres já nos coloca em uma posição de desigualdade estrutural? Nem é necessário um olhar particularmente sofisticado para perceber isso. Basta viver em sociedade: conviver com homens em casa, na escola, na universidade, no trabalho, nas relações afetivas. Essas interações são atravessadas por diferentes formas de desigualdade e violência, muitas vezes naturalizadas. 

Ao acompanhar os discursos e trajetórias de parlamentares eleitas pelo PSL – posteriormente migradas para o PL – e analisar seus projetos de lei e posicionamentos públicos, tornou-se evidente que há também um sistema de recompensas e punições que regula a atuação dessas mulheres na política. Enquanto permanecem alinhadas ao roteiro esperado, recebem apoio e visibilidade. No entanto, quando rompem com esse script e passam a questionar lideranças masculinas, são descartadas e ridicularizadas. 

O caso de Joyce Hasselmann é emblemático nesse sentido. Eleita deputada federal por São Paulo com uma votação expressiva na esteira do bolsonarismo, ela posteriormente entrou em conflito com o grupo político que a impulsionou. A partir daí, tornou-se alvo de ataques, ridicularizações e campanhas de deslegitimação, inclusive com ataques ao seu corpo e à sua imagem pública. Nas eleições seguintes, não conseguiu sequer se eleger vereadora. Outro episódio recente que ganhou visibilidade pública foi o da influenciadora brasileira Cíntia Chagas. Conhecida por defender discursos associados a uma visão tradicional de gênero no casamento, Cíntia denunciou seu então marido, o deputado estadual Lucas Bove (PL), por violência doméstica. O casamento durou cerca de três meses. Em setembro de 2024, ela registrou boletim de ocorrência com base na Lei Maria da Penha, relatando ameaças, agressões psicológicas, controle e comportamentos possessivos. A influencer mencionou em uma entrevista que foi acolhida pelo movimento feminista, quem diria. 

O caso é particularmente revelador para compreender como determinadas narrativas sobre submissão e papéis tradicionais de gênero são construídas e performadas no espaço público, mas entram em choque com a materialidade da vida cotidiana. A defesa de ideais de gênero tradicionais não implica necessariamente a aceitação irrestrita de qualquer tipo de abuso. Há limites que, quando ultrapassados, produzem rupturas. Essas fissuras evidenciam as contradições desse projeto político e cultural, mostrando como as promessas de estabilidade e felicidade associadas a determinados modelos de feminilidade frequentemente colidem com experiências concretas de violência e desigualdade. 

E é justamente nessa materialidade da vida que a violência contra mulheres e meninas se manifesta de forma brutal. Casos recentes de estupros coletivos, ataques organizados contra meninas e feminicídios amplamente noticiados revelam um cenário em que muitos homens se sentem autorizados a decidir quem pode viver e quem pode morrer. 

Para compreender esse processo, Rita Segato (2014) mobiliza o conceito de “pedagogia da crueldade”. Segundo a autora, a sociedade contemporânea produz formas de treinamento social que nos tornam progressivamente insensíveis à dor alheia, naturalizando a violência e transformando vidas humanas em algo descartável. Essa pedagogia, funcional ao capitalismo patriarcal, ensina o desapego e normaliza a crueldade como parte da vida social. Basta observar os comentários em redes sociais quando casos de violência de gênero são noticiados: a culpabilização das vítimas, a desconfiança sistemática sobre suas denúncias e a banalização da violência revelam o quanto essa lógica está disseminada. 

A socióloga Heleieth Saffioti, ao analisar as relações entre gênero, poder e violência, argumenta que o sexismo não é apenas uma ideologia, mas também uma estrutura de poder cuja distribuição é profundamente desigual em detrimento das mulheres (2004). Em suas palavras, é como se as mulheres fossem simbolicamente “amputadas” em sua possibilidade de desenvolver plenamente a razão e exercer poder na vida social. 

É justamente por isso que os movimentos feministas seguem sendo fundamentais. Foram eles que tornaram visíveis violências antes naturalizadas, que conquistaram direitos e que continuam denunciando as desigualdades estruturais que atravessam nossas vidas. Ao longo da história, foram as mobilizações feministas que impulsionaram transformações profundas: da luta pelo direito ao voto feminino às mobilizações por igualdade no trabalho, da denúncia sistemática da violência doméstica à construção de redes de acolhimento e solidariedade entre mulheres. No Brasil e em diversas partes do mundo, foram as organizações feministas que pressionaram para que a violência contra mulheres deixasse de ser tratada como um assunto privado e passasse a ser reconhecida como um problema público e político, impulsionando a criação de leis, políticas públicas e mecanismos institucionais de proteção. 

Mais recentemente, assistimos também a novas formas de mobilização que ampliaram o alcance dessas lutas. As marchas contra o feminicídio, as mobilizações do Ni Una Menos na América Latina, as greves feministas internacionais e as campanhas massivas de denúncia de assédio e violência demonstram que o feminismo segue sendo um dos movimentos sociais mais potentes e transformadores do tempo presente. Esses processos coletivos não apenas denunciam a violência, mas também produzem novos vocabulários políticos para nomeá-la, tornando visíveis experiências historicamente silenciadas. 

É nesse horizonte que o 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, reafirma seu sentido histórico e político. Longe de ser apenas uma data simbólica, trata-se de um momento de memória, mobilização e luta. Ocupar as ruas no 8 de março significa inscrever no espaço público as demandas das mulheres, tornar visíveis as violências que atravessam nossas vidas e afirmar que os direitos conquistados foram fruto de organização coletiva e enfrentamento político. Mais do que lembrar conquistas passadas, o 8 de março também nos convoca a ampliar nossas pautas e fortalecer redes de solidariedade e resistência diante dos desafios do presente. 

Esse chamado torna-se ainda mais urgente em um contexto marcado por reações conservadoras e pela reorganização de discursos antifeministas. O crescimento de comunidades masculinistas, de ideologias como as chamadas redpills e de narrativas que apresentam os homens como supostas vítimas das transformações sociais tem alimentado formas renovadas de misoginia. Esses discursos circulam amplamente em ambientes digitais, reforçando ressentimentos, naturalizando violências e produzindo pedagogias de ódio direcionadas especialmente contra mulheres que reivindicam autonomia, igualdade e liberdade. 

Esse cenário revela que os avanços conquistados nas últimas décadas convivem com reações cada vez mais organizadas contra os direitos das mulheres. A ampliação de discursos antifeministas, o aumento das violências de gênero e a circulação massiva de ideologias misóginas indicam que estamos diante de um momento histórico em que não basta apenas defender conquistas já obtidas: é preciso aprofundar as transformações. 

Radicalizar as pautas feministas, nesse sentido, não significa ir à raiz das desigualdades que estruturam a sociedade. Significa questionar as bases sociais, econômicas e culturais que sustentam a divisão sexual do trabalho, a naturalização da violência e a hierarquia entre homens e mulheres. Significa também afirmar que a luta contra a violência de gênero não pode se limitar a respostas individuais ou punitivas, mas exige transformações profundas nas formas como educamos, socializamos e organizamos nossas relações sociais. 

Em um contexto em que meninas e mulheres seguem sendo violentadas, silenciadas e frequentemente culpabilizadas por agressões que sofrem, a continuidade e o fortalecimento dos movimentos feministas tornam-se não apenas desejáveis, mas indispensáveis. Como lembrava Louise Michel: “Cuidado com as mulheres quando se sentem enojadas de tudo o que as rodeia e se levantam contra o velho mundo. Nesse dia nascerá o novo mundo”. 

 

Camila Galetti é doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília, pós-doutoranda, professora do Instituto Federal de Brasília (IFB) e ativista do Coletivo Juntas. 

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