RESENHA

Quando neoanarquismo e populismo de esquerda se encontraram: a política do cidadanismo?

Confira resenha do livro Máscaras e bandeiras: populismo, cidadanismo e protesto global, de Paolo Gerbaudo, lançado em 2022 pela editora Funilaria

Os protestos de junho de 2013 são um marco inconteste na vida política brasileira. Quase dez anos depois, muitos dos temas e das chaves interpretativas que pautam nossas discussões emergiram naquele momento. Junto com a Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Indignados, entre outros, as Jornadas de Junho fazem parte das ondas de protestos que ocorreram em diversas partes do mundo e marcaram uma transformação nas ações coletivas.

O debate sobre as consequências desse processo tem sido intenso e Paolo Gerbaudo inicia sua contribuição com o livro Redes e ruas: mídias sociais e ativismo contemporâneo, e continua sua reflexão no lançamento Máscaras e bandeiras: populismo, cidadanismo e protesto global. Nesta obra, o autor traz o neoliberalismo e o populismo para o centro da análise dos protestos.

(Foto: divulgação)

A máscara e a bandeira servem de símbolo para o que o autor identifica como “as duas principais orientações políticas – neoanarquismo e populismo de esquerda – que se encontraram, se misturaram e se chocaram nos movimentos de 2011 a 2016, dando lugar à ‘nova política’ do cidadanismo”. O autor valoriza a tomada de protagonismo dos cidadãos na busca de (re)colocar a cidadania no centro da vivência democrática sem, no entanto, fugir do debate sobre as contradições intrínsecas a esse processo que ele chama de “cidadania auto-organizada”.

Para nós, como brasileiros e brasileiras, é difícil olhar para os movimentos de 2013 e, sobretudo, para os anos que os sucederam e enxergar apenas essa perspectiva positiva. O caso brasileiro, de fato, parece desafiar pelo menos uma das premissas levantadas por Gerbaudo. Para ele, essa cidadania auto-organizada, buscada pelos cidadãos indignados, se colocaria “em oposição às oligarquias econômicas e políticas” e procuraria “reivindicar e expandir a cidadania”, o que certamente não aconteceu por aqui.

Justamente por isso essa obra é tão desafiadora. Se por um lado o caso brasileiro parece sair pela tangente em relação a alguns argumentos, por outro, Gerbaudo é capaz de traçar caminhos de esperança e de encontrar potencialidades que certamente são essenciais para processos de transformação social. Em tempos de desamparo político e social, buscar entender e aprofundar experiências inovadoras, interessantes e democratizantes é, sem dúvida, essencial, e esse livro é magnânimo nesse sentido.

 

Nina Santos é diretora do Aláfia Lab, coordenadora acadêmica do desinformante* e pesquisadora do INCT.DD, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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