LITERATURA

Giovana Proença: “Não era apenas um conservadorismo, era um autoritarismo explícito”

Para muitos no Brasil, o golpe de 1964 não foi tão absurdo quanto se afirma atualmente — e alguns ainda negam que ele tenha ocorrido. No entanto, no mesmo país, há quem afirme e comprove o contrário

Em Os tempos da fuga, Giovana Proença nos leva de volta à dura realidade em que viveram os exilados durante o governo militar no Brasil. Através da história de Lígia/Virgínia, uma mulher que passou anos exilada na Argentina – “Construí uma vida, e hoje a destruía, com as próprias mãos e a pronúncia de um nome brasileiro” –  ao voltar para o seu país natal encara a vida que foi obrigada deixar para trás, e ao mesmo tempo, as mudanças que ocorreram durante os anos em que ficou afastada – “Quanto à reconstrução da identidade, busquei muitos depoimentos de pessoas que voltaram do exílio e que, em muitos casos, nunca conseguiram reconstruir completamente suas vidas. Sempre há uma fissura, uma marca que permanece. Acho que foi a partir disso que fui moldando a Lígia”.

Crédito: divulgação

Neste mês, o Golpe Militar de 1964 completou 61 anos no dia 1º de abril. Apesar de ser um marco na história brasileira, a proximidade atual do país com ideais da extrema-direita levanta preocupações sobre a possibilidade de os anos de chumbo voltarem a fazer parte do presente — ou de um futuro cada vez mais próximo.

Nos últimos meses vem se discutindo a questão de uma anistia para os crimes cometidos no dia 8 de janeiro – uma série de vandalismo e ataques ao Três Poderes – além disso, figuras importantes da política como o ex-presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, defendem esse benefícios aos criminosos. Em fevereiro, Bolsonaro e aliados também foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República por tentativa de golpe de Estado em 2022. O documento apresentado aponta que  o ex-presidente liderou uma organização criminosa que praticou atos contra a democracia e tinha um “projeto autoritário de poder”. A denúncia também explica que Jair Bolsonaro sabia e concordou com o plano de assassinato do presidente Lula, do vice-presidente Geraldo Alkmin e do ministro Alexandre de Moraes.

A obra de estreia da autora no universo literário aborda, de forma sensível, a questão da anistia e os sofrimentos enfrentados pelas pessoas durante a ditadura militar. Publicada pela Editora Urutu em 2023 — ano marcado também por uma tentativa de golpe no Brasil —, a narrativa revela como a vida de uma pessoa pode ser profundamente transformada por uma ruptura democrática. Giovana explora a trajetória da protagonista, seus desejos e sonhos sufocados pelo regime, com sutileza e intensidade, trazendo também uma atmosfera opressiva daqueles anos. Como a própria autora afirma: “Eu fico me perguntando quem teria sido essa mulher, o que teria sido dela, se não fosse a ditadura? Infelizmente, nem mesmo imaginando outro universo ficcional eu consigo responder a isso, porque a presença da ditadura é algo muito marcante.” Confira a entrevista completa:

Crédito: arquivo pessoal

O que a motivou a ambientar Os tempos da fuga no período da anistia?

Desde o início, a ideia do livro já surgiu para mim completamente ambientada nesse período — principalmente no contexto da anistia. São dois momentos importantes: o da repressão mais intensa e o momento em que a anistia já começa a se delinear. Quando a ideia do livro veio, esse período já estava todo colocado. É impossível pensar na história — ou na Lígia — separada desse contexto.

Lígia retorna ao Brasil após anos de exílio na Argentina. Como você abordou a construção desse personagem que lida com as cicatrizes deixadas pela Ditadura Militar e o desafio de reconstruir sua identidade em um país transformado?

Para construir essa personagem, eu precisei fazer uma pesquisa histórica —  buscar vivências que não estavam apenas nos livros. Li bastante sobre o período, principalmente obras literárias escritas por autores que viveram a ditadura. Também assisti a filmes e conversei com pessoas mais velhas, que tiveram suas vidas impactadas por esse contexto. Acho que foi assim que consegui entender, ao menos em parte, o que significava esse trauma e, especialmente, o sentimento de isolamento do exílio.

Curiosamente, estava escrevendo o livro durante a pandemia e acabei relacionando parte dessa sensação: o isolamento vivido. Claro que são experiências muito diferentes, mas esse sentimento de estar separado do mundo me ajudou a pensar emocionalmente o que seria estar exilada.

O romance apresenta diálogos que mencionam obras como Ao Farol, de Virginia Woolf, e explora paralelos com a relação entre Woolf e Vita Sackville-West. Qual a importância dessas referências na narrativa e na vida de Lígia?

Mais do que as narrativas da Virginia Woolf em si, o que teve um peso importante foi o conhecimento da relação entre a Woolf e a Vita Sackville-West. Saber que existiram mulheres que amaram outras mulheres — e que viveram isso num período em era muito menos falado do que hoje — deu coragem para ela se abrir para as próprias relações e afetos no livro. A força desses vínculos foi uma inspiração.

Eu estava lendo Ao Farol durante o processo de escrita, então ele acabou entrando de alguma forma na atmosfera do romance. Não diria que a minha escrita tem uma influência direta da Woolf, mas o livro estava ali, pairando sobre tudo, como uma presença sutil.

Em meio a um governo autoritário, fica ainda mais difícil a questão da mulher na sociedade, a descoberta do próprio corpo, seus desejos sexuais e também a questão da sexualidade como é tratada no livro. Como foi explorar esses temas que ainda podemos considerar como tabus nos dias atuais, mas com uma perspectiva ainda mais conservadora?

Eu tive muito receio de cair em anacronismos, sabe? Por isso, tentei tratar esses temas com bastante delicadeza e sutileza — talvez até demais, como algumas pessoas podem dizer. Mas isso foi algo que eu sempre tive em mente. Não se tratava apenas de um conservadorismo: era um autoritarismo explícito.

As questões relacionadas ao corpo, ao desejo e à sexualidade são abordadas de forma sugerida, nunca direta. Evitei cenas de sexo explícito no livro, apenas algo sugerido. Preferi trabalhar com o que está nas entrelinhas, porque acho que isso comunica melhor o clima de repressão e silenciamento que existia. Se tudo fosse muito claro e aberto, talvez a história perdesse esse referencial de tensão e censura que era tão forte naquela época.

Durante a leitura percebemos que tem um jogo entre primeira e terceira pessoa no livro. Quais são os principais desafios para encontrar a voz adequada para cada personagem?

Quando terminei a primeira parte da história, estava em primeira pessoa. Mas algo não me parecia certo — principalmente na forma de narrar. Como contar essa história a partir de um “eu” que já não é mais o mesmo? Um “eu” que pode ser outro, que talvez sempre tenha sido outro dentro daquele contexto?

Então decidi reescrever, transformando essa primeira parte para a terceira pessoa do singular, e aí as coisas começaram a fazer mais sentido. Acredito que essas duas vozes narrativas podem, de certo modo, ser lidas como duas pessoas diferentes. E talvez só no final do livro isso fique mais claro.

Diante dos eventos de 8 de janeiro de 2023, quando houve uma tentativa de golpe no Brasil, como você vê as conexões entre os temas envolvidos em Os tempos da fuga — especialmente a repressão, o autoritarismo e a memória da Ditadura Militar—e os desafios atuais da democracia brasileira?

Eu acredito que o próprio fato de ter surgido o desejo de escrever sobre esse período, ainda que 15 anos após a Ditadura, já indica que algum “fantasma” continua rondando a nossa história, acho que é um sinal de que essas questões não desapareceram. No livro, há um aceno para como essas ideias de repressão já estavam presentes até mesmo durante o período da anistia. Na época, ainda havia pessoas que desejavam repressão, como vimos, por exemplo, nos discursos do AI-5. Isso não desapareceu. O fato de eu ter escrito sobre esse período evidencia que essas questões permanecem muito vivas.

Quanto aos eventos de 8 de janeiro, eu estava terminando o livro. Ele começou a ser escrito em 2020, teve uma pausa em 2021, e depois outra pausa, até que fui ajustar alguns detalhes para a publicação em 2023. Quando vi os acontecimentos de 8 de janeiro, confesso que senti uma forte vontade de mexer em tudo: talvez intercalar capítulos com a perspectiva de uma neta, adicionar uma história que trouxesse uma visão contemporânea. Mas, depois, percebi que isso talvez não fosse necessário.

Eu acho que esse ponto de vista contemporâneo já estava ali, de certa forma, porque eu, como escritora, sou uma testemunha do que está acontecendo agora. Não seria necessário criar um personagem especificamente para expressar isso. Mas, claro, foi algo que me mexeu profundamente, e, de alguma forma, o reflexo disso já está no livro, mesmo que não de maneira explícita.

Por fim, já tem planos de publicação de novos livros?

Sim, tenho planos! Na verdade, o processo é tão caótico que estou escrevendo dois livros ao mesmo tempo. Um deles fala sobre a velhice feminina, uma relação entre mãe e filha — as duas já idosas. Quero explorar como se vive a velhice sendo mulher, como se lida com o desejo, a sexualidade e os vínculos afetivos nessa etapa da vida. O auge da história será justamente essa fase da maturidade e velhice das duas. Como é isso quando temos uma filha de 60, uma mãe de 80, uma filha de 70, uma mãe de 90? Mas, vamos ter elas desde a infância de uma e a juventude da outra, uma mãe com 25 anos, super jovem e passando por diferentes momentos.

Esse livro se passa em Aparecida do Norte, uma cidade que considero muito interessante — e que, nunca foi muito retratada na literatura. Ela tem um peso religioso muito forte, com todo o simbolismo do templo, mas também carrega muitas contradições e questões pouco discutidas, inclusive dentro da própria igreja.

O outro livro está em fase inicial — é uma saga familiar que vai acompanhar a trajetória de três irmãos. Ainda está tomando forma, mas é uma ideia que estou matutando com carinho.

 

Maíra Oliveira Graça é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil. 

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