Abuso infantil parental: há coincidências?
Como não seria disfuncional uma família onde o abuso parental é a normalidade?
Desde setembro de 2024, eu estive imersa nos ensaios da peça O Exercício das Crianças. Esse projeto ficou em cartaz por 5 meses em São Paulo, na cena mais alternativa, no simpático Espaço de Provocação Cultural, na Vila Romana. O tema da peça não era fácil, mas o prazer de dividir a cena com minha parceira Fernanda Viacava e a convivência com a diretora Noemi Marinho, tornaram o processo mais leve.

Um dia, após os ensaios particularmente exigentes, decidi ir ao cinema sozinha e assistir Malu, filme que todos vinham elogiando muito, com atrizes que adoro e cuja temática principal me atraía: a vida de uma atriz brasileira, Malu Rocha.
Fiquei muito surpresa com uma cena em particular: em um momento de descontração, após ter experimentado maconha, a personagem Dona Lili, mãe de Malu, vivida por Juliana Carneiro da Cunha (uma das maiores atrizes do Brasil e da França), revela que sua grande frustração e mágoa vinha do fato de que, com a morte da mãe, o pai escolhera como “nova mulher” sua irmã mais nova e não a ela mesma, que, por ser mais velha, mereceria esse “posto”. A cena me deixou perplexa, não só pela brilhante atuação de Juliana, mas também por ser esse o tema difícil da peça que eu vinha trabalhando. O filme do Pedro Freire é de uma beleza e crueza há tempos não vistas nas produções nacionais.
O jogo das atrizes e as relações humanas adoecidas não saem da cabeça de quem assistiu Malu e eu ousaria dizer que, segundo a minha percepção, a cena que mexeu comigo é uma bela pista para entendermos a complexidade da natureza de distúrbios familiares. A partir desse depoimento, dito de forma comezinha, percebemos o tamanho do abismo daquelas mulheres e nos perguntamos: como não seria disfuncional uma família onde o abuso parental é a normalidade?
O Exercício das Crianças, a peça que mencionei, com texto de Bruno Cavalcanti, gira em torno de duas irmãs, Marta e Carla. Com a linguagem do teatro do absurdo, bem distinta das atuações naturalistas do filme Malu, temos a personagem Carla, que saiu de casa e ficou quinze anos fora por ter sido “a escolhida” pelo pai. Teve três filhos, frutos desse abuso constante, e deixou as crianças para serem criadas pela irmã, Marta, que doentiamente nutria amor pelo pai abusador e se sentia frustrada por não ter sido escolhida por ele – assim como a Dona Lili do filme.
Ao final do espetáculo, Marta, a irmã “não eleita” que cuidou do pai até o fim da vida, o mata com um travesseiro. Foi uma surpresa para mim que duas obras tão distintas abordassem um tema tabu como esse. Eu interpretava Carla, a filha que partiu, mas que se revela tão fragmentada e dissociada quanto a irmã mais velha.
Já nesta semana, assisti à estreia de Ossada, espetáculo da grande atriz Ester Laccava, que encerra sua trilogia Grito de Mulher, com dramaturgismo da atriz e textos de Maureen Lipman, Ester Laccava, João Cury e Elzemann Neves, atualmente em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Em uma das cenas, Ester interpreta uma menina que brinca com sua irmã: elas correm, se divertem e precisam voltar para casa.

Pelo tom das falas percebemos que pertencem a um lugar frio, fora do Brasil, talvez aristocrático. O pai está em frente à lareira e não pode ser incomodado. De forma dilacerante, ele bate na menina narradora e a obriga a ficar “de mesinha”, para que ele possa estuprá-la, ato que percebemos ser recorrente.
Ao término do estupro, nossa narradora percebe que ele dorme, pede à irmã mais nova que coloque um travesseiro sobre o rosto do pai e apoie o seu corpinho. Assim como faz Marta e em O Exercício das Crianças e assim como faz Tielle, com uma arma de caça, no filme Manas, para evitar que o mesmo aconteça com sua irmã.
Sim, chegamos a Manas, de Marianna Brennand, filme vencedor de diversos prêmios, incluindo Melhor Direção em Veneza e Women’s in Motion em Cannes, e que está em cartaz nos cinemas, agora. Ele traz a história de Tielle, jovem de 13 anos que vive com sua família na Ilha de Marajó. Ao ver o cartaz do filme, que traz uma menina numa balsa em direção a um navio de carga, nosso inconsciente imediatamente nos leva às reportagens sobre exploração infantil na região Amazônica.
Porém, a questão de Tielle vai além dessa atrocidade, pois é em casa que o abuso se inicia: com a mãe grávida do sétimo filho, prestes a parir, pois a jovem é a próxima na família a ter que ocupar a cama do pai, uma porrada.
De novo, vejo o mesmo tema em cena, exposto na arte, aquele tema difícil que eu tive que estudar e investigar por meses para fazer O Exercício das Crianças: quatro obras contemporâneas sobre o abuso em corpos infantis, por parte do pai. Para além da ânsia de vômito que sentimos ao pensar sobre essas situações desumanas, muito mais frequentes do que poderíamos imaginar ou suportar, penso que é importante constatarmos que o que era considerado pelos gregos como situações pertencentes às tragédias, fora do ordinário, vividas por semideuses, como o caso de Édipo rei, acontece em nossa sociedade desde sempre.
A diferença hoje é que começamos a falar sobre isso, a ver essas histórias retratadas na arte. Quando a delegada vivida por Dira Paes, em Manas, oferece um desenho de boneca para a protagonista colorir e pergunta gentilmente se ela sabe que as áreas do peito e da vagina são territórios íntimos, e que apenas ela pode tocá-los, penso que todas as crianças do mundo deveriam ter acesso a esse tipo de informação na escola — o espaço onde podem ser protegidas da violência doméstica.
Espero que a presença de temas tabus em nossa sociedade sejam cada vez mais frequentes em filmes, peças, séries e novelas, pois não é coincidência que quatro obras com estilos, gêneros, valores de produção tão diferentes abordem em 2024 e 2025 o mesmo tema.
É através da arte que podemos ajudar mães e filhas abusadas a urrar suas dores e saberem que serão acolhidas e que talvez também poderemos entender que muito da disfuncionalidade das famílias tem origem em casos traumáticos como esses, especialmente nas mulheres, com o agravante de serem passados de mãe para filha. Quem sabe a partir da arte possamos entender um pouco mais sobre comportamentos que chamamos de loucura.
Nicole Cordery é uma atriz brasileira de 50 anos, com pelo menos três décadas de carreira profissional e mais dez anos de trajetória de teatro amador. Sua paixão pela arte começou quando criança, ao apresentar peças para a comunidade escolar de Niterói-RJ. É formada em artes cênicas pela Casa de Artes Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro.

