ENTREVISTA

Claudia Nina: ‘A solidão é o grande tema da vida. Somos assombrados pelo abandono’

Autora completa 20 anos de carreira e reflete sobre memória, curiosidade, processos criativos e crítica literária

Claudia Nina transita por muitos campos da literatura: escreve histórias para as mais diversas faixas etárias, atua como editora, tem uma respeitada carreira acadêmica e publica críticas e resenhas em importantes veículos literários.  

Com duas décadas recém-completadas de trabalho como escritora, a carioca foi finalista do Prêmio Rio de Literatura, recebeu elogios de grandes nomes da ficção brasileira e acaba de publicar duas obras: a nova edição do romance Paisagem de porcelana (Maralto) e o infantojuvenil O guardador do tempo (Centopeia). 

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique, Claudia Nina fala sobre seus trabalhos mais recentes e destaca a importância da subjetividade para a criação ficcional. “A curiosidade move o mundo de maneira geral. Sempre partimos de questões fundamentais para criar os mundos literários. Quando enfrentamos as indagações mais profundas, aí começamos a escavar o terreno da escrita”, disse a autora. 

 

Confira a entrevista na íntegra:  

Paisagem de porcelana, romance que se passa na Holanda, tem como protagonista Helena, uma brasileira que enfrenta os desafios impostos pelo clima, pela língua e pela solidão. Há, ainda, o perigo representado por Ernest, um homem violento e instável. Como surgiram essas duas personagens tão diferentes entre si e tão marcantes para a literatura brasileira contemporânea? 

Surgiram talvez do meu sentimento em relação a Amsterdã, mistura de encantamento, raiva e assombro. A cidade foi uma espécie de laboratório geográfico para o romance. Quando eu estava imersa na experiência holandesa, no final dos anos 1990, nunca imaginei que iria construir uma história ambientada naquele país tanto tempo depois… Eu trabalho assim: vou armazenando referências culturais, literárias, existenciais, até o momento da construção do texto, erguimento dos personagens, etc., um processo que pode durar vários anos. Nesta nova edição, que tem dois textos inéditos, incluindo o Prefácio da autora, conto um pouco da história por trás da história e falo sobre Yasuko, a quem o livro é dedicado. Helena surgiu também a partir de Yasuko, da dolorosa vivência dessa mulher japonesa, vizinha de Helena, sufocada em um relacionamento abusivo com o marido. Ela se calava diante da mudez violenta dele. O silêncio como impossibilidade de construção de entendimento. Ernest igualmente agride Helena pela brutalidade da palavra-pedra ou pelo extremo do silêncio-arma. Yasuko e Helena, entretanto, conseguiram fazer um elo profundo entre elas, e muitas vezes o silêncio é o da plenitude de sentido. Quis contar alguns destes acréscimos no prefácio e acredito que tenha sido um dos grandes ganhos da nova edição, além do lindo projeto gráfico da Maralto. 

A frase de abertura de Paisagem de porcelana é bastante impactante: em um país sem montanhas, as quedas são metafísicas. Em que momento a frase foi escrita? Desde que a concebeu, soube que a utilizaria como abertura do romance? 

A sua pergunta me leva aos tempos de crítica literária. Durante uns anos, eu trabalhei em Amsterdã enviando textos para revistas no Brasil. Em um deles, retomo a associação entre Camus e a cidade, a partir do romance A queda. A primeira frase da matéria que escrevi se tornou exatamente a primeira frase do romance quase duas décadas depois. Eu ressignifiquei a frase e a contextualizei na experiência de Helena. Várias referências em Paisagem remetem ao livro de Camus e também aos ensaios que ele escreveu ainda jovem, reunidos em O avesso e o direito. Amo este livro.  

Jasmins, seu romance publicado pela Maralto em 2022, aborda de forma bastante introspectiva a solidão de duas personagens: uma idosa que vive em uma casa de repouso e uma cuidadora. Em sua opinião, a solidão é um dos grandes temas da literatura? 

A solidão é o grande tema da vida. Somos assombrados pelo abandono. A rotina nos distrai, mas basta um momento de descuido e já estamos na beira de um abismo novamente. Isso é para todos, especialmente os mais introspectivos ou os solitários por vocação desde sempre. A literatura absorve os grandes temas da vida na elaboração das nossas perdas diárias. Jasmins fala sobre a perda de nós mesmos, de quando nos esquecemos de que um dia existimos. Essa é a maior solidão de todas, quando a gente mesmo se abandona… 

Seu novo livro, O guardador do tempo, acaba de ser publicado pela Centopeia, com ilustrações de Denise Gonçalves. Como foi o processo de escrita dessa obra, que tem a memória como um dos temas centrais? 

A memória da infância é um recurso delicado e feliz para mim. Eu tive uma infância analógica, de parques, praias e parques, com limitadas possibilidades materiais. Houve momentos difíceis de choque e comparações, mesmo sem as redes sociais naquela época. Sofri algum desprezo velado por parte das colegas ricas, que tinham um padrão muito diferente do meu. A vida fora de casa, com liberdade para me espalhar nos espaços públicos, aliviou a sensação dolorida que era a de ter que enfrentar aquele cenário escolar opressor e doentio. Isso na infância. A adolescência me trouxe um cenário bem diferente, uma escola mais plural e colorida. Acho que ressignificar memórias com a literatura é uma espécie de autocura. Em O guardador do tempo, mergulhei na doce lembrança de ter tido um pai fotógrafo de arte, que me ensinou muita coisa boa, sobretudo olhar para o que existe de bonito no mundo, nas paisagens, nas pessoas… O livro é dedicado a ele. 

A protagonista de Nina e a Lamparina, um de seus livros infantojuvenis, faz diversas perguntas interessantes sobre o sol e a noite ao longo da história. A curiosidade é um dos elementos indispensáveis para construir narrativas voltadas às crianças? E aos adultos? 

A curiosidade move o mundo de maneira geral. Sempre partimos de questões fundamentais para criar os mundos literários. Quando enfrentamos as indagações mais profundas, aí começamos a escavar o terreno da escrita. Meu próximo romance, por exemplo, será sobre o perdão. E tenho várias perguntas a fazer para o texto à medida que vou pensando em criá-lo. Óbvio que, assim como na história da Nina, temos que primeiro atravessar a grande noite do medo… 

Além de escritora de variados gêneros literários, você é editora, crítica literária e tem uma extensa produção acadêmica. Alguma dessas atividades dá mais prazer que as demais? 

Cansei da crítica literária. Talvez por ter feito por anos a fio. Entrar na ficção foi a melhor escolha da minha vida profissional apesar das dificuldades do meio editorial, de tantas portas fechadas… é uma área muito árdua. Temos que ter persistência e saber que a ponte que nos trouxe até aqui foi queimada para sempre como escreveu Haruki Murakami; não tem volta. Gosto de escrever ficção, não importa o gênero. Sinto uma alegria imensa quando estou mergulhada na criação de uma história. Essa alegria justifica todo o resto. 

Crédito: divulgação

Desde que publicou Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapés à resenha, em 2007, você observou muitas mudanças na crítica literária feita no Brasil? Quais são os principais desafios enfrentados por críticos e críticas na atualidade? 

A maior mudança foi a entrada dos jovens influenciadores, que fazem divulgação de livros nas redes. Isso é fenomenal. Jovens bem jovens apaixonados por livros e fazendo a roda literária girar. Os podcasts também. Em contrapartida, a crítica dos jornais minguou. Os espaços foram reduzidos. Perdemos cadernos literários importantes. Acho que os maiores desafios surgem do número gigantesco de autores lançados no mercado diariamente. Como selecionar sobre o que falar? Os espaços são exíguos, e a seleção fica ainda mais árdua. As indicações de agentes e editoras são uma espécie de farol. Contudo, o que muitas vezes ocorre é que obras importantes e boas ficam de fora do palco destas leituras.  

Claro que há janelas e é por elas que eu busco o ar para seguir acreditando no que eu faço. Outro dia recebi uma mensagem de uma pesquisadora de literatura juvenil me parabenizando pelo romance Dois planetas amorosos e um gato no meio (meu primeiro livro pela minha editora, a Centopeia). Ganhei o dia com a análise daquela crítica literária tão conceituada na área. Eis aí uma janela por onde respirar… 

Se pudesse escolher um momento inesquecível vivenciado ao longo dos seus 20 anos de carreira literária, qual seria? 

O momento mais lindo que eu vivi e que sempre me emociona foi a história da menina Manuela, aluna de uma escola pública em Porto Alegre, localizada no alto de um morro. Fiz uma visita ao colégio e doei alguns livros, entre eles A Repolheira (Aletria). A menina gostou tanto do livro que entrava várias vezes na fila da biblioteca para reler. Já tinha lido seis vezes. Quando eu perguntei qual a maior alegria daquele ano, ela me respondeu: “Foi ter faltado à aula apenas duas vezes”. 

Acho que isso não tem preço. Fazer alguma diferença no mundo, mesmo que seja no coração de uma pessoa. Ela vai mover o mundo dela e influenciar ou contagiar outras pessoas e assim por diante… 

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Jornal Rascunho e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Le Monde Diplomatique, Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. 

Leia mais sobre o tema: