MORGANA KRETZMANN

‘Água turva’ fala sobre ter esperança na humanidade e no futuro dela, mas para isso é preciso sair da inércia

Romance de escritora e roteirista gaúcha alerta sobre o que a ambição dos poderosos pode causar ao meio ambiente

Um dos romances brasileiros mais celebrados de 2024, Água turva, publicado pela Companhia das Letras, segundo livro da escritora e roteirista gaúcha Morgana Kretzmann, é daquelas obras que prendem a atenção de leitores e leitoras da primeira à última página, ao apresentar tramas envolventes, linguagem apurada e personagens complexos e cativantes.

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A narrativa se aprofunda nos bastidores da política e nos perigos enfrentados diariamente por pessoas que trabalham na proteção ambiental. “Os temas sobre crise climática, sobre meio ambiente, em geral, têm recebido mais atenção de editoras, jornalistas, críticos, mas não de leitores. Ainda temos um longo caminho pela frente em relação a livros com essa temática. Muitas pessoas continuam achando chatoler um livro de ficção sobre questões ambientais, como se isso fosse um tema menor, ou como se isso fosse um tema para crianças e adolescentes lerem na escola. Minha esperança é que essa mentalidade também mude, pois acredito no poder transformador da literatura”, disse a autora, em entrevista concedida ao Le Monde Diplomatique.

Crédito: Renato Parada

Ao longo do bate-papo, Morgana Kretzmann – vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2021, com seu romance de estreia Ao pó, da editora Patuá – também falou sobre o trabalho de pesquisa para escrever Água turva, a composição das personagens e a importância da luta e da esperança para o futuro da humanidade. Confira na íntegra:

Ao longo de toda a trama, Água turva se aprofunda em questões ambientais e políticas. Fica nítido para leitores e leitoras que você fez uma extensa pesquisa sobre cada tema que norteia o romance. Como foi esse processo? Quais momentos foram os mais desafiadores na etapa de pesquisa? E na escrita?

Sou uma escritora que precisa estar totalmente segura do assunto que pretendo abordar antes de começar a escrever. Então pesquisar, seja pesquisa bibliográfica, seja pesquisa de campo, é algo inegociável para mim.

Muitas das referências vêm da faculdade de Gestão Ambiental (sou formada por um Instituto Federal). Mas as saídas de campo que fiz durante aquele período de pré-escrita, ajudaram muito a criar o universo de Água turva. Mesmo sendo um livro de ficção onde eu crio cidades, ambientações, personagens (não há nada de verídico no livro além do próprio Parque Estadual do Turvo), entender como funciona o dia a dia de uma unidade de conservação, como os funcionários trabalham, suas dificuldades, foi muito importante.

Passei quatro anos no processo desse livro. Estava no meio da escrita quando Bruno Pereira e Dom Phillips foram brutalmente assassinados no extremo oeste do Amazonas. Queria que meu livro trouxesse ao leitor o perigo de se trabalhar com preservação ambiental no Brasil e a dor que isso causa quando perdemos essas pessoas. Pois todos nós perdemos quando um ambientalista morre.

No Parque do Turvo há um trabalho incrível feito pelos guardas-florestais que conheci durante o meu trabalho lá. Entre eles cito o chefe do Parque, Rafael Diel, e o guarda-florestal, Vilmar Grutzman.

Numa das minhas idas ao Sul para pesquisa, fiz uma saída de campo dentro do Parque do Turvo e chegamos a encontrar trepeiros e cevas, que são utilizadas por caçadores de animais silvestres. São práticas ilegais e configuram um crime ambiental. Encontramos também um acampamento abandonado desses mesmos caçadores, um deles fugiu do local quando chegamos. Também encontramos um animal doméstico que havia sido abatido com um tiro no peito há poucos minutos por um desses criminosos.

Em Água turva, os dramas pessoais das personagens se ligam a aspectos mais universais de forma bastante natural. Trabalhar as camadas de uma personagem está entre os principais desafios de uma romancista?

Diferenciar a voz de cada uma das 24 personagens desse livro foi muito desafiador e ao mesmo tempo um trabalho que me ensinou muito. São muitos os esforços para escrever um romance. A autora, o autor vão sentir o peso de um ou de outro no decorrer do trabalho, escrevendo seus livros.

Não há desafio maior do que o de começar a escrever um romance. O que vem depois eu chamo de consequências (risos).

Qual foi a primeira personagem que você pensou para esse livro? A versão inicial dessa personagem sofreu muitas transformações durante o processo de escrita?

A ideia de escrever esse romance veio da geografia onde ele se passa. O Parque Estadual do Turvo é uma personagem e a responsável por eu ter o ímpeto de escrever essa história.

Depois veio Chaya e Olga, duas mulheres fortes e totalmente diferentes entre si, com desejos diferentes entre si. Então surge Preta, minha personagem preferida, para ser a estrutura desse trio que de inimigas, passam a ser aliadas inquirindo bem maior e vão lutar juntas em busca de justiça.

Quais obras literárias que abordam questões ambientais são referência para você? Acredita que o tema tem recebido mais atenção nos últimos anos?

A extinção das abelhas, de Natalia Borges Polesso, um livro que trata do antropoceno e das angústias de se viver o início de um fim de mundo. É um livro muito bem escrito. Também o Deus das avencas, de Daniel Galera, um livro com três novelas curtas que aborda perdas e expectativas a partir de desastres ambientais e um mundo pós-apocalíptico. Os livros do Krenak, como Ideias para adiar o fim do mundo, me acompanham como bíblia até hoje.

Os temas sobre crise climática, sobre meio ambiente, em geral, têm recebido mais atenção de editoras, jornalistas, críticos, mas não de leitores. Ainda temos um longo caminho pela frente em relação a livros com essa temática. Muitas pessoas continuam achando chato ler um livro de ficção sobre questões ambientais, como se isso fosse um tema menor, ou como se isso fosse um tema para crianças e adolescentes lerem na escola.

Minha esperança é que essa mentalidade também mude, pois acredito no poder transformador da literatura.

Algumas personagens buscam uma espécie de redenção ao longo do romance. Essa redenção também é necessária por parte da própria humanidade para que o meio ambiente não esteja condenado? Ou, inevitavelmente, ele já está?

É muito complicado falar nesses termos, pois não podemos tirar a esperança das pessoas, justamente quando Água turva fala sobre ter esperança na humanidade e no futuro dela, mas para isso é preciso sair da inércia. As personagens do Água saem da inércia e nós como humanidade precisamos fazer o mesmo, principalmente cobrando de governantes e de pessoas que realmente tem o poder de mudar o curso da nossa história, como os grandes empresários e CEOs de poderosas corporações.

Publicado por uma editora independente, a Patuá, seu romance de estreia foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e acaba de ser traduzido para o grego. Qual é a importância de Ao pó, obra para a sua trajetória como escritora? Como enxerga o atual momento das editoras e dos autores/autoras independentes no Brasil?

O Ao pó me ensinou uma lição muito importante que toda autora, todo autor deveria aprender: o dom da paciência. O Professor Assis Brasil, nas suas aulas, sempre disse que devemos escrever sobre o que sabemos, sobre o que dominamos. Então comecei a pesquisar, estudar, fazer entrevistas, me apropriar dos assuntos que percorriam a história que eu queria contar e que não tinha total domínio ainda. Isso levou anos. Isso me mostrou que a paciência é imprescindível, pois literatura não é brincadeira, não é apenas sentar e escrever. Sentar e escrever qualquer um faz. Fazer literatura é mais.

Em um mundo que teremos que saber conviver com o IA, quem sabe esse diferencial vá separar a escritora, o escritor que trabalha, daquele que só busca resultados rápidos.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Jornal Rascunho e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Le Monde Diplomatique, Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

 

 

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