A REVOLUÇÃO DE 1932 E A EXPERIÊNCIA POPULAR NEGADA

Silenciamentos e Contradições na Construção da Memória Cívica

A participação massiva da população negra no conflito expressa contradições profundas da experiência popular em 1932, onde a busca por inserção social e reconhecimento cidadão coexistia com a perpetuação de práticas racistas mesmo no interior das forças constitucionalistas

A Revolução Constitucionalista de 1932 revela-se, sob análise crítica da historiografia social contemporânea, não como o movimento heroico e democrático da narrativa oficial, mas como um episódio complexo onde a experiência das classes populares foi simultaneamente mobilizada e silenciada. A participação popular massiva no conflito contrasta dramaticamente com a natureza oligárquica de suas lideranças, evidenciando uma contradição fundamental que a memória oficial deliberadamente obscureceu.  

Este paradoxo milhares de trabalhadores, mulheres, negros e imigrantes lutando por interesses que não eram os seus constitui o núcleo central para compreender como a experiência vivida das classes subalternas foi instrumentalizada por projetos políticos elitistas. A análise da cultura política popular durante o conflito revela formas complexas de negociação, resistência e construção de significados que transcendem a dicotomia simplista entre manipulação e autonomia, demonstrando como os sujeitos históricos reelaboram ideologicamente até mesmo os discursos que os excluem. 

A construção da memória oficial sobre 1932 operou através de mecanismos sistemáticos de silenciamento das vozes populares, transformando um conflito marcado por contradições de classe em epopeia cívica consensual. Carreri (2021) demonstra como o movimento foi caracterizado pela construção de “heróis de farda” que mascararam as contradições sociais reais do período, evidenciando que a versão heroica propagada pelos articuladores do movimento deliberadamente ocultou os interesses oligárquicos em jogo. A análise da documentação da época evidencia como os protagonistas do conflito construíram narrativas que apagaram as tensões sociais internas, apresentando artificialmente uma São Paulo unificada contra a “ditadura” varguista. 

Esta operação de silenciamento não foi meramente posterior ao conflito, mas constitutiva de sua própria dinâmica. A experiência popular foi simultaneamente necessária e negada: necessária para dar legitimidade e força militar ao movimento, negada para preservar sua natureza de classe. Os trabalhadores que empunharam armas nas trincheiras, as mulheres que organizaram a retaguarda, os negros que lutaram nas fileiras constitucionalistas todos tiveram sua participação reduzida a coadjuvantes de um drama cujos protagonistas eram exclusivamente as elites paulistas. A cultura política popular, com suas próprias motivações e significados, foi subsumida no discurso constitucionalista abstrato. 

O processo de construção da memória cívica em torno dos eventos de 1932 revela paralelos significativos com outros momentos de celebração nacional no Brasil. Albuquerque (2022) analisa como as comemorações da independência nacional na Bahia evidenciam as tensões entre “civismo popular” e “algazarra nas ruas”, demonstrando que a participação popular nas festividades cívicas frequentemente transcende e subverte os significados oficiais atribuídos aos eventos históricos. Esta dinâmica de apropriação popular dos símbolos nacionais ilumina aspectos fundamentais da experiência das classes subalternas durante a Revolução de 1932, revelando como os sujeitos históricos constroem significados próprios mesmo quando mobilizados por projetos políticos que não correspondem aos seus interesses específicos. 

A participação massiva da população negra no conflito expressa contradições profundas da experiência popular em 1932, onde a busca por inserção social e reconhecimento cidadão coexistia com a perpetuação de práticas racistas mesmo no interior das forças constitucionalistas. A formação de unidades militares negras não representou apenas adesão ao discurso constitucionalista, mas uma estratégia complexa de negociação política por parte de lideranças do movimento negro paulista. A experiência dos combatentes negros durante o conflito revela como os significados políticos são reelaborados pelos sujeitos históricos através de suas práticas concretas, para além das motivações oficiais do movimento. 

Kolody, Belém e Rosas (2023) oferecem perspectiva fundamental para compreensão das contradições raciais que permearam o conflito de 1932, analisando como o “racismo de estado” opera através de mecanismos de inclusão subordinada que simultaneamente mobilizam e excluem a população negra dos projetos políticos dominantes. Esta análise ilumina as complexidades da participação negra em 1932, evidenciando como a luta por reconhecimento cidadão coexistiu com a manutenção de estruturas de dominação racial que limitavam as possibilidades de emancipação efetiva. 

A mobilização feminina durante o conflito constituiu fenômeno inédito na história política brasileira, revelando formas específicas de participação que transcenderam os papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres na sociedade dos anos 1930. A análise da participação feminina em 1932 demonstra como a experiência de gênero interseccionou-se com as contradições de classe do movimento, produzindo práticas políticas que simultaneamente desafiavam e reforçavam estruturas patriarcais. A organização de campanhas de arrecadação, a produção massiva de uniformes e equipamentos, e a estruturação de serviços médicos e sociais evidenciam a criação de redes de solidariedade feminina que extrapolaram os marcos temporais do conflito. 

A trajetória de mulheres trabalhadoras que assumiram protagonismo durante o conflito ilustra como a experiência popular feminina reelaborou criativamente os limites impostos pela cultura política dominante. A participação feminina em 1932 não pode ser reduzida à mobilização patriótica, mas deve ser compreendida como expressão de formas específicas de consciência política, que emergiram das condições concretas de vida das mulheres trabalhadoras paulistas. A documentação da época registra tensões entre o discurso oficial sobre o “heroísmo feminino” e as práticas efetivas de mulheres que assumiram protagonismo político inédito. 

Carreri (2021) evidencia como a construção da memória sobre 1932 operou através da transformação de “trabalho e memória” em elementos constitutivos de uma narrativa heroica que deliberadamente obscureceu as contradições de classe do movimento. Esta análise revela como a experiência concreta dos trabalhadores durante o conflito foi posteriormente reelaborada para servir a propósitos ideológicos que negavam as motivações materiais específicas que haviam levado milhares de operários a participar do movimento constitucionalista. 

A posição dos trabalhadores organizados durante o conflito de 1932 evidencia as complexidades da experiência popular em contextos de polarização política. O movimento operário organizado manteve posição crítica em relação ao caráter oligárquico do movimento constitucionalista, reconhecendo-o como “guerra entre as elites”. Esta posição refletia análise lúcida das contradições de classe do movimento, mas não impediu que milhares de trabalhadores individuais aderissem ao conflito por motivações próprias. A experiência operária em 1932 revela como as classes populares navegam entre projetos políticos contraditórios, construindo significados próprios que não se reduzem às posições das organizações que presumivelmente as representam. 

A documentação da época registra a existência de operários que mantinham posições ambíguas em relação ao conflito, divididos entre lealdades regionais e consciência de classe. Esta heterogeneidade da experiência operária contrasta com as narrativas polarizadas que apresentam o conflito como confronto simples entre “São Paulo democrático” e “ditadura varguista”. A análise dos bairros operários durante o conflito revela como as classes trabalhadoras vivenciaram concretamente as contradições políticas da época, desenvolvendo estratégias de sobrevivência que transcendiam as polarizações ideológicas dominantes. 

A análise da cultura política popular durante o conflito revela paralelos significativos com outras formas de celebração cívica no Brasil. Almeida (2023) demonstra como o “cortejo do dois de julho em Salvador” constitui momento privilegiado para observação das tensões entre memória oficial e experiência popular, evidenciando como as classes subalternas reelaboram os símbolos nacionais através de práticas culturais específicas que transcendem os significados atribuídos pelas elites. Esta perspectiva ilumina aspectos fundamentais da participação popular em 1932, revelando como a mobilização das classes subalternas não se reduziu à adesão passiva ao discurso constitucionalista. 

A construção da memória oficial sobre 1932 operou através da transformação de um conflito marcado por contradições de classe em narrativa heroica de resistência democrática, apagando sistematicamente as tensões sociais que o permearam. A análise da composição social dos participantes durante o conflito revela as contradições da narrativa do “sacrifício popular”, evidenciando que a versão heroica não corresponde à realidade social complexa do movimento. Esta discrepância não diminui a importância da participação popular, mas demonstra como a experiência das classes subalternas foi instrumentalizada por interesses que não eram os seus. 

A experiência popular durante 1932 não se limitou à adesão passiva ao discurso constitucionalista, mas incluiu formas complexas de resistência e negociação que revelam a agência dos sujeitos históricos. A documentação da época registra casos de operários que utilizaram sua participação no movimento para reivindicar direitos trabalhistas, evidenciando como as classes populares reelaboraram politicamente até mesmo os discursos que as excluíam. A análise das instituições de apoio popular criadas durante o conflito revela a emergência de práticas de solidariedade que transcenderam os marcos do movimento constitucionalista. 

A cultura política popular em 1932 expressou-se também através de práticas cotidianas de resistência à mobilização oficial. A documentação registra casos de trabalhadores que se recusaram a aderir ao movimento, de mulheres que questionaram o discurso patriótico e de comunidades que desenvolveram estratégias de sobrevivência independentes das diretrizes oficiais. Essas práticas de resistência evidenciam que a experiência popular não se reduziu à manipulação ideológica, mas incluiu formas complexas de consciência política que emergiram das condições concretas de vida das classes subalternas. 

Kolody, Belém e Rosas (2023) oferecem perspectiva fundamental para compreensão de como as formas de “resistência” das classes subalternas operam mesmo em contextos de mobilização para projetos políticos contraditórios, evidenciando que a experiência popular transcende as dicotomias simplistas entre submissão e rebelião. Esta análise ilumina aspectos centrais da participação das classes populares em 1932, revelando como a formação de consciência política se processa através de práticas complexas que não se reduzem às intenções das lideranças políticas dominantes. 

Imagem em preto e branco dos combatentes da Revolução de 1932. Eles estão agrupados olhando para a foto.
Crédito: itoldya test1 – GetArchive

A participação no conflito constituiu experiência formativa fundamental para milhares de trabalhadores, mulheres e negros que pela primeira vez se viram inseridos em dinâmicas políticas de âmbito nacional. A experiência da mobilização, mesmo dentro de um projeto oligárquico, produziu formas de consciência política que influenciaram as lutas posteriores desses grupos sociais. A análise da documentação da época revela como a participação em 1932 foi posteriormente mobilizada por movimentos populares que questionaram a ordem social vigente, evidenciando como a experiência histórica transcende as intenções de seus protagonistas originais. 

A análise da experiência popular em 1932 exige superação das interpretações economicistas que reduzem a participação das classes subalternas a determinações puramente materiais. A complexidade das motivações populares durante o conflito — desde a busca por inserção social até a solidariedade regional —  evidencia que a consciência política se forma através de múltiplas determinações que incluem dimensões culturais, simbólicas e identitárias. A experiência dos combatentes negros, das mulheres mobilizadas na retaguarda e dos operários divididos entre projetos políticos contraditórios demonstra como a formação de consciência transcende as divisões esquemáticas entre “verdadeira” e “falsa” consciência. 

A experiência do conflito constituiu momento fundamental de formação de identidades coletivas que influenciaram as lutas posteriores das classes populares paulistas. A participação em 1932 criou redes de solidariedade e formas de consciência política que transcenderam os marcos temporais do conflito, influenciando as organizações operárias, femininas e negras das décadas posteriores. A análise da documentação da época revela como a experiência compartilhada do conflito foi mobilizada por movimentos populares que questionaram a ordem social vigente, evidenciando como a memória social constitui recurso político fundamental das classes subalternas. 

A apropriação contemporânea da memória de 1932 por grupos conservadores evidencia como a experiência popular do conflito continua sendo instrumentalizada por projetos políticos que excluem as classes subalternas. A permanência de discursos sobre São Paulo como “locomotiva da nação” revela como a memória oficial reforça ideologias dominantes através de monumentos, discursos e comemorações que apagam as contradições sociais do evento original. A análise da instrumentalização contemporânea da memória de 1932 demonstra como a experiência histórica das classes populares é sistematicamente apropriada por projetos políticos que negam seus interesses específicos. 

A Revolução Constitucionalista de 1932 revela-se, através da análise da experiência popular, como evento paradigmático para compreensão dos mecanismos através dos quais as classes dominantes mobilizam as classes subalternas para projetos que não correspondem aos seus interesses específicos. A participação massiva de trabalhadores, mulheres e negros no conflito, contrastando com sua exclusão da memória oficial, evidencia contradições fundamentais que transcendem os marcos temporais do evento, revelando padrões de dominação que se reproduzem através de formas renovadas de instrumentalização ideológica. A análise crítica da experiência popular em 1932 constitui instrumento fundamental para compreensão de como os sujeitos históricos constroem significados políticos através de suas práticas concretas, mesmo em contextos de dominação, evidenciando formas complexas de consciência que transcendem as dicotomias simplistas entre resistência e submissão, revelando a necessidade permanente de valorização da experiência vivida das classes populares como fonte de conhecimento histórico e político fundamental para a construção de alternativas emancipatórias. 

 

Erik Chiconelli Gomes é pós-doutor pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Doutor e Mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Economia do Trabalho pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Direito do Trabalho pela USP. Bacharel e Licenciado em História (USP). Licenciado em Geografia (UnB). Bacharel em Ciências Sociais (USP) e em Direito (USP). Atualmente, é Coordenador Acadêmico e do Centro de Pesquisa e Estudos na Escola Superior de Advocacia (ESA/OABSP).  

Referências 

ALBUQUERQUE, Wlamyra Ribeiro de. Civismo popular, algazarra nas ruas: comemorações da independência nacional na bahia. Ideas, n. 20, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.4000/ideas.14170. Acesso em: 22 jun. 2025. 

ALMEIDA, Priscila Cabral. Cortejo do dois de julho em salvador. Políticas Culturais Em Revista, v. 15, n. 2, p. 250-274, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.9771/pcr.v15i2.49422. Acesso em: 21 jun. 2025. 

CARRERI, Marcio Luiz. 1932, heróis de farda e farsa: capital, trabalho e memória, em posições. Artcultura, v. 23, n. 43, p. 210-225, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.14393/artc-v23-n43-2021-64093. Acesso em: 20 jun. 2025. 

KOLODY, Andressa; BELÉM, Dan Júnior Alves Nolasco; ROSAS, Rudy Heitor. Racismo de estado e resistência. Revista Serviço Social Em Perspectiva, v. 7, n. 1, p. 199-228, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.46551/rssp.202310. Acesso em: 20 jun. 2025. 

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