O tarifaço de Trump e o novo capítulo das relações Brasil-EUA
O que está em jogo não são os interesses do Brasil, mas sim os interesses de um projeto político autoritário da extrema-direita
A relação Brasil e Estados Unidos é uma das mais tradicionais nas relações internacionais do país. Desde pelo menos 203 anos os norte-americanos possuem certa relevância para o Brasil, visto que foram um dos primeiros países a reconhecer a independência brasileira. Com o passar dos anos, essa relação foi se transformando e ganhando cada vez mais status, como por exemplo, quando o Barão do Rio Branco articulou uma “aliança não escrita” com o irmão do norte no começo do século XX, ou ainda quando Getúlio Vargas garantiu uma “aliança de guerra com recompensas” em 1942 (Cervo; Bueno, 2011). Na última semana, a relação Brasil-Estados Unidos ganhou um novo capítulo.
Em 9 de julho, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou a imposição de taxas de 50% sobre o cobre e outros produtos exportados do Brasil a partir do dia 1º de agosto. O tarifaço foi uma resposta ao processo de tentativa de golpe investigada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no qual o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro é investigado. Esse episódio provocou forte reação do aliado norte-americano, e embora a motivação da medida seja declaradamente política, os efeitos comerciais atingem setores-chave da economia brasileira.
Em fevereiro, Trump anunciou decisão de aumentar a taxa sobre o aço e o alumínio em 25% para proteger as industrias norte-americanas e combater a práticas comerciais que prejudicam a segurança nacional. Inicialmente, no entanto, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Japão, México, Coreia do Sul, União Europeia, Ucrânia e Reino Unido receberam isenções.

A aliança política Trump-Bolsonaro
Não é segredo para ninguém que Bolsonaro e Trump possuem uma aliança política desde pelo menos 2018. O brasileiro utilizou da estratégia do norte-americano para vencer o pleito eleitoral daquele ano, e após ser presidente, anunciou uma “aliança especial” com os norte-americanos em março de 2019.
Embora próximos, Trump prometeu levar o Brasil a OCDE em troca da saída do país da condição de nação em desenvolvimento na OMC. Além de não cumprir com sua promessa, durante seu primeiro mandato Trump taxou o aço brasileiro em 25% no final de 2019. A pergunta a ser feita é por que a “aliança especial” não garante resultados ao Brasil?
A aliança se refere à estratégia e ao método da extrema direita americana, liderada por Trump, de exportar para os trópicos o autoritarismo e o combate à democracia. Não é um acaso que houve uma invasão do capitólio em 2021, e na sequência, uma invasão de Brasília em 2023 (Moreira, 2025). O que está em jogo não são os interesses do Brasil, mas sim os interesses de um projeto político autoritário da extrema-direita.
As consequências políticas e econômicas
As consequências políticas da tarifa de Trump deverão afetar diretamente as relações Brasil-Estados Unidos que estão tensas desde janeiro. Há uma nítida interferência estadunidense na política brasileira, e mesmo nas decisões judiciais do STF. A tendência é que o governo Lula, o Congresso Nacional e o STF mantenham uma postura concertada em rechaçar o tarifaço.
Como já havia sido dito em texto anterior no Le Monde Diplomatique Brasil em abril, o Brasil muito provavelmente aplicará o princípio da reciprocidade com apoio do Congresso e das instituições. Caso não haja um recuo estratégico de Trump, haverá taxação por parte do país.
No que toca as consequências econômicas, o agronegócio é o setor que poderá sentir mais os impactos. Só em 2024, o Brasil exportou aproximadamente US$ 12 bilhões em produtos agropecuários para o mercado estadunidense, incluindo carnes bovinas, sucos, café, produtos florestais e o complexo sucroalcooleiro. Por exemplo, os produtores e as indústrias de laranja comunicaram que os impostos anunciados tornarão inviável a manutenção do setor, pois representam mais de 70% do valor final do produto e cerca de 40% da produção nacional é destinada ao mercado norte-americano, sem a possibilidade de novos mercados.
Diferente do que Trump alega para a aplicação de tarifas, a balança comercial entre os dois países é superavitária para os norte-americanos, com especial atenção para a indústria do aço. O Brasil exportou US$ 2,3 bilhões de dólares em produtos de aço e importou dos Estados Unidos US$ 1,4 bilhão em carvão e US$ 3,9 bilhões em máquinas e equipamentos em 2024.
Além disso, há outras áreas que terão impactos indiretos, como é o caso do setor da indústria de defesa. Os EUA importaram cerca de US$ 20 bilhões em produtos industriais brasileiros apenas no primeiro semestre de 2025. Parte significativa dessas exportações inclui aço semiacabado, insumos para motores e componentes aeroespaciais.
Por fim, há uma alta dependência de componentes e insumos de origem norte-americana, muitos deles com uso militar e civil (dual-use). Um exemplo é a Embraer, que possui como um dos principais produtos, o Super Tucano, vendido para clientes como a Republic Airways, e que compra componentes como motores e sensores.
Portanto, as relações entre Brasil e Estados Unidos se encontram profundamente deterioradas no momento, especificamente por motivos políticos-ideológicos. Eles impactam nas relações econômico-comerciais entre os dois países, com prejuízo para o Brasil. Nunca, a expressão “Make America Great Again” fez tanto sentido (e com aval dos Bolsonaro’s).
Referências bibliográficos
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Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel). Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula.
Alana Tenório é mestranda em Segurança Internacional e Defesa pela Escola Superior de Guerra (ESG) e bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).

