Mississípi e seus pântanos
Capítulo inédito do novo livro de Jamil Chade, Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana (Editora Nós), que será lançado em 31 de julho, na Flip

West Helena, Arkansas, 26 de fevereiro de 2025
Eu não conseguia distinguir se aquela era uma cena de alum filme distópico, o avesso de um sonho ou a simples realidade de um país repleto de contradições. Em meados de fevereiro de 2025, eu era o único a percorrer a rua central da pequena cidade de West Helena, no Arkansas.
Em ambos os lados, casas destruídas, lojas falidas, tetos que tinham desabado e um odor de desamparo. O vento uivava, quase para me sussurrar a notícia de que aquele local estava mesmo abandonado. De repente, uma mulher visivelmente perturbada perambulava aos berros numa das vielas. Vestia uma calça militar, bradava frases incompreensíveis e erguia com uma de suas mãos uma garrafa. Seus gritos eram apenas interrompidos para que ela desse mais um gole daquilo que levava como sua companhia.
A cidade é o retrato da derrota da globalização, dois séculos depois de a região ser um de seus epicentros. Um local traído pelo capitalismo implacável que descarta aquilo que não mais gera lucro, mesmo que sejam almas.
Em West Helena, uma orgulhosa bandeira americana tremula de maneira triunfal sobre a prefeitura. Mas não esconde o fato de a cidade ter 35% de sua população de oito mil habitantes vivendo abaixo da linha da pobreza. O PIB per capta médio do local é inferior ao da Bolívia e apenas um pouco superior ao de Bangladesh.
A decadente West Helena fica à beira de um rio que transformou a história de um país e, de muitas formas, do mundo: o Mississípi. Regulando o clima de 40% do território americano, sua história se confunde com a expansão de uma nação que acredita que tem uma missão civilizadora. Mesmo que, para isso, tenha de cometer — e esconder — verdadeiros genocídios.
Foi por suas caudalosas águas que o algodão foi escoado e alimentou a revolução industrial do Reino Unido no século XIX. Em certo momento, 70% de toda a produção mundial da matéria prima estava concentrada no delta do rio, nos estados do Sul dos Estados Unidos.
Os donos do capital precisavam de terras e de mão de obra. Assim, dizimaram a população local, tomaram suas terras e ergueram uma economia poderosa com base na exploração de outros seres humanos trazidos da África.
Foi também daquela encruzilhada violenta de culturas que nasceu alguns dos sons mais originais dos últimos séculos, reunindo a melancolia de pessoas escravizadas, os instrumentos europeus, noites estreladas e os pântanos de um Novo Mundo.
Seria justamente do mesmo porto que servia de ponto crítico da globalização, em Nova Orleans, que uma revolução cultural ocorreria, já no século XX. Na esperança de ganhar um pouco de dinheiro por fora de seu salário regular, marinheiros ingleses compravam tudo o que viam para, depois, revender em suas cidades de origem.
Entre os produtos, estavam os discos de gravadoras americanas que acabariam sendo revendidos quando os na- vios chegassem ao outro do lado do Atlântico Norte, mais precisamente no porto de Liverpool. Numa Europa que tentava voltar a dançar e se reerguer depois do Holocausto, aqueles discos nutriam os sonhos de garotos que, ávidos pelas notícias, bens e costumes do Novo Mundo, aguardavam impacientes os portadores de mais uma fase da globalização. Entre esses jovens no porto de Liverpool, estavam George, Ringo, Paul e John.
Mas a abundância de alguns representou a pobreza endêmica de milhões de outros. Percorri mil quilômetros no Delta do Mississípi, atravessando os estados de Tennessee, Arkansas, Mississípi e Luisiana, além do Alabama.
Se Donald Trump foi o grande vencedor em muitos desses estados do Sul, diante de um sentimento de que os democratas tinham abandonado também aquela população, hoje o clima é de tensão, pelo menos para os mais vulneráveis.
Em cada um desses locais, a pergunta era a mesma: qual o destino de milhares de famílias, diante da promessa feita pela Casa Branca de que irá promover um profundo corte de recursos em programas sociais, assistência médica e educação?
A preocupação é especialmente grave no estado do Mississípi, o mais pobre dos Estados Unidos. Sua renda média é metade da de um americano médio e um terço da renda de um cidadão em Nova York.
Endêmica, a pobreza atinge 1,3 milhão de pessoas no estado. Quarenta e cinco por cento da população local vive abaixo da linha da miséria ou é classificada como “segmento de baixa renda”. Cento e vinte e um mil famílias estavam, em 2023, com seus aluguéis atrasados, afirmou o Institute for Policy Studies. Oitenta por cento dos trabalhadores nem sequer tem férias pagas.
Mas a situação pode ficar ainda mais crítica. Trump anunciou que quer cortar 850 bilhões de dólares do orçamento do Medicaid, o serviço público de saúde. Nos estado do Sul, 650 mil pessoas dependem integralmente de programas públicos para ter acesso à saúde. O Medicaid é ainda responsável por bancar metade dos partos do estado.
Para a deputada democrata Omeria Scott, o impacto será profundo para a população do Mississípi. “É algo que precisamos temer”, disse.
Os cortes em escolas também causam preocupação. Trump já sinalizou que quer o fim do Departamento de Educação e, no estado, os recursos federais correspondem a 23% do orçamento do setor. “Não sabemos se teremos dinheiro até o final do ano”, afirma Mary Jones, professora primária.
A brutalidade da pobreza não é uma novidade na região. Anos antes de ser eleito presidente dos Estados Unidos, o general Andrew Jackson contribuiu para transformar o Mississípi em um campo de batalha para aniquilar as po- pulações autóctones e lutou para manter e ampliar a escravidão de negros. Uma mitologia foi estabelecida em torno de seu nome quando, em 1811, ele foi parado numa estrada nas proximidades da cidade de Natchez, conduzindo pes- soas escravizadas acorrentadas entre uma fazenda e outra.
O agente federal Silas Dinsmore solicitou seu passaporte. Naquele momento, percorrer territórios indígenas apenas poderia ocorrer com autorização oficial. Era uma forma de proteger povos como os Chickasaw e os Choctaw, mas também de monitorar comerciantes de escravos e impedir que negros fugissem para terras indígenas.
Uma das versões dá conta de que Jackson, ao ser parado, alegou que seu passaporte era a Constituição americana e que ela permitia que ele fosse onde bem entendesse. Em outra versão, ele teria mostrado suas armas e dito que aqueles eram seus “passaportes”.
Seja qual for a versão verdadeira, o certo é que o agente federal foi depois ameaçado de morte publicamente por aquele que seria o presidente americano. Um ano depois, o governo do Tennessee aprovou a criação de uma força “suficientemente capaz de exterminar” os indígenas. Jackson, que conduzia a milícia no estado, implementou a ordem.
Naquele mesmo período, o nome de Jackson ficou famoso por ter oferecido uma recompensa a quem capturasse uma pessoa escravizada que havia fugido. O dinheiro seria ainda maior para quem desse trezentas chicotadas no ho- mem negro antes de entregá-lo de volta. Foi ele quem ainda tentou banir correspondências entre o Norte do país, aboli- cionista, e o Sul, na esperança de frear qualquer movimento contra a escravidão.
Dois séculos depois, o governo Trump trabalha ativamente para apagar qualquer traço da história racista e criminosa da região. Num documento enviado a todas as universidades, a gestão do republicano alertou que não aprovaria repasses caso fosse mantida a política de diversidade nas instituições. O texto declara que “não existe racismo estrutural e sistêmico” e programas para corrigir séculos de uma exploração de corpos negros devem ser apagados. A discriminação, segundo uma circular do governo Trump a todas as escolas, era contra brancos. E estava na hora de isso acabar.
Uma política que contradiz a realidade.
A segregação é refletida também nas condições de vida. Hoje, nos Estados Unidos, a expectativa de vida dos negros é seis anos inferior à dos brancos americanos e a taxa de desemprego é duas vezes superior.
A renda média de uma família negra no país é de 53 mil dólares por ano, trinta mil dólares a menos que a de uma família branca. De acordo com o ativista Duvalier Malone, a cada cem dólares que os brancos detêm como patrimônio, os negros somam apenas quinze.

Dias após a eleição de Trump, alunos negros da Universidade do Alabama foram os primeiros a receber uma mensagem anônima em seus telefones, ordenando que se apresentassem para a “colheita do algodão”, como se fossem novamente escravizados. Era uma sinalização de que deveriam se preparar para ataques. Apesar de uma investigação ter sido aberta e de a situação se repetir por outros estados, os autores dos envios nunca foram descobertos.
A situação é radicalmente diferente ao deixar os bairros mais pobres do Sul. No Alabama, a comportada cidade de Fairhope não esconde sua preferência por Donald Trump. Numa de suas ruas que percorre a praia, as mansões estão construídas sobre pilares de madeira, diante do risco de uma inundação e da elevação das águas.
Nos portões e entradas dessas casas de luxo, bandeiras com o nome de Trump e mesmo de grupos que invadiram o Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, pareciam anunciar que a ordem estava restabelecida, com supremacistas brancos de volta ao poder.
Os apoiadores de Trump pareciam não notar que, enquanto empunhavam a bandeira de um negacionista climático, se apressavam para fortalecer as colunas cada vez mais elevadas sobre as quais estavam suas casas. Precisavam se preparar para a temporada de furacões e enchentes, cada vez mais frequentes diante das mudanças climáticas.
Por vinte anos, entre 1763 e 1783, o Mississípi serviu de fronteira para os Estados Unidos. Era ali que o país terminava. Hoje, é nesse mesmo delta que sua identidade volta a viver uma encruzilhada.
Para milhões de pessoas que não podem contar com a presença do estado, as apostas são colocadas sobre o so- brenatural. Clarksdale é um reflexo disso. Com vinte mil habitante, a cidade conta com 107 igrejas.
Ciente do impacto, a ultradireita conservadora recorreu à instrumentalização da fé. O novo governo tem uma missão. Não se trata mais de levar a civilização a novos territórios, mas de supostamente salvar a civilização cristã.
Com esse argumento, Trump prometeu reconduzir o cristianismo para dentro das esferas do poder.

A milhares de quilômetros de Washington, nas proximidades da produção de algodão da fazenda de Frogmore, no Mississípi, uma igreja resolveu deixar isso explícito: após a eleição, um Jesus de madeira foi colocado orgulhosamente diante do local. Em suas mãos, não havia uma cruz, nem um sinal de paz. O Messias segurava um mapa dos Estados Unidos, com as cores de sua bandeira. Trump é, para muitos, a consolidação da relação entre pátria e Deus.
Paradoxo da economia mais poderosa do mundo, o delta do Mississípi teme não apenas o abandono, mas uma ofen- siva para reescrever a história da opressão e normalizar o racismo estrutural.
No século XXI, a pobreza nos Estados Unidos é real e, para aqueles que dependem de ajuda social ou para quem o conceito de meritocracia não faz o menor sentido, as notícias que chegam de Washington no começo de 2025 pare- cem abrir espaço para novas estrofes de blues, sincopados pela angústia.
Jamil Chade é jornalista e escritor.

