Pensamento, cena e captura nos dispositivos de fala: uma experiência com o microfascismo da performance
Querer fazer “um bom podcast” não é problema em si, mas quando isso se torna uma captura do desejo do outro, quando se impõe um formato como modelo, estamos diante de um processo de subjetivação policial, de achatamento das diferenças, de uma exigência de que o outro entre em um molde, em um ritmo, em um fluxo domesticado
Fui convidado a participar de um episódio dedicado a Félix Guattari, em um podcast de filosofia, produzido por uma dupla. A proposta, num primeiro olhar, parecia generosa: um espaço de conversa em torno das ideias e da história de um psicanalista, filósofo e militante que tensiona as formas fixas do sujeito, que aposta em linhas de fuga, experimentava transversões de si e inventava práticas de pensamento que resistem aos modelos hegemônicos de comunicação e subjetivação. Guattari nos convida a descontruir os modelos autoritários de enunciação, abrindo brechas para outras formas de pensar, mais rizomáticas, mais inquietantes.
No entanto, antes mesmo do dia do encontro, um mal-estar começou a se formar: havia formalizações demais. Um roteiro com pontos preestabelecidos foi enviado previamente por um dos organizadores – tópicos que, segundo ele, gostariam de ver discutidos, porque estavam “interessados” naqueles assuntos. Isso já denunciava um paradoxo em relação ao pensamento de Guattari. Havia um certo desejo de escutar sobre esse autor, mas atravessados por uma estrutura organizacional rígida que mais se assemelhava a um modelo de marketing de conteúdo do que a uma abertura real para experimentar uma escuta em outros ritmos e fluxos.
No dia do encontro, a cena foi marcada por atrasos, problemas técnicos e um tempo excessivo de espera que já anunciava um descompasso. Antes tivesse ocorrido apenas um problema técnico. Em determinado momento, aquele mesmo que havia enviado os temas de antemão, pediu uma pausa e me interrompeu com um comentário desconcertante: minha fala “não estava fluindo muito bem”. Ele disse saber que eu havia preparado algo por escrito e percebeu que eu estava “lendo”. Quis saber o que eu estava lendo, com um tom que soou policialesco, como se fosse preciso confessar uma transgressão, desmascarar um sujeito que não performava adequadamente o papel de convidado fluente e espontâneo, aos moldes do modelo aceitável para os algoritmos e para o mercado.
O que poderia ser um espaço de pensamento se revelou um tribunal da performance. A interpelação instaurava, naquele momento, um regime de verdade: Qual o seu texto? De onde você fala? Está ou não seguindo os protocolos? Aquilo que poderia abrir o campo do desejo se tornou instrumento de policiamento do desempenho. A fluidez ali, não era um fluxo vital, mas uma exigência estética e mercadológica: ritmo determinado, naturalidade de plástico, leveza de cifrões. Esse é o problema quando a forma de falar torna-se mais importante do que o conteúdo. E o conteúdo, quando atravessado pelo corpo, pelo tropeço, pela hesitação, era visto como inadequado.
Perguntei, então: “O que é fluir?” Afinal, o que se espera da fluidez quando ela se torna critério de valor? O que significa exigir fluidez num espaço de filosofia? Pelo visto, a resposta do programa é: fluidez é falar bem, ter determinado ritmo, entregar uma “forma” para que continuem pagando pelo “conteúdo”. É a estética neoliberal do dizer. Essa exigência revela uma normatividade própria do neoliberalismo: tudo deve ser transparente, comunicável, vendável, palatável a uma plateia de consumidores – até mesmo o pensamento. Essas são as exigências de uma subjetividade performática moldada pela lógica do consumo. A imagem sonora do podcast quer o ritmo da publicidade, não o tempo do corpo que pensa e se apresenta como pode.
Minha fala não fluiu como esperavam, não correspondeu às expectativas do formato. Eu lhes disse: minha fala tropeça, hesita, se dobra. Ela hesitou, gaguejou, resistiu. E é aí, justamente, onde se manifesta a sua força. É preciso resistir. Não como quem rejeita tudo, mas como quem insiste: “meu corpo pode isso”. O corpo pensa em seu próprio tempo. E esse corpo não flui como esperam, pois ele cria seu próprio ritmo. O corpo não obedece aos roteiros. O corpo pensa com suas próprias tensões. E mesmo quando escrevo algo, não o sigo à risca, pois escrevo para pensar, e não para obedecer ao que foi escrito. A escrita, para mim, é linha de fuga: me serve para navegar no pensamento, não para ancorar num porto.
Ao tentar reorganizar a cena durante a conversa, talvez percebendo o desconforto instaurado, o mesmo membro do podcast apontou que o problema talvez tivesse sido “ter me passado os pontos preestabelecidos” antes, o que, segundo ele, poderia ter me levado a preparar um texto e engessar a conversa. De fato, eu havia tecido um escrito naquele dia para me acompanhar, mas não estava lendo mecanicamente. Eu não seguia nenhum roteiro fechado.
A justificativa e tentativa de defesa apresentada por ele diante de quem assistia à gravação do episódio era parte da própria armadilha que construíram. A cena mostrou que o próprio programa funciona por meio de modelos. A rigidez que projetaram em mim como defeito, como “falta de fluidez”, era, na verdade, o espelho da estrutura em que estavam imersos. Eu lhes disse que o problema era terem entrado numa espécie de mercado de podcast e seguido sob um desejo de modelo, sem respeitar outros ritmos, outros fluxos.
Aquele momento mostrava em ato uma tentativa de dirigir a cena que falha. Uma cena com plateia, visto que havia outras pessoas presentes, o que acentuava o efeito teatral da situação. Uma cena em que a expectativa era de um “bom desempenho”, uma coreografia esperada, uma fala performática, uma contribuição que se encaixasse no ritmo previamente idealizado. E eu, por não a seguir, ameaçava o espetáculo. Pois, nesse espetáculo, o “convidado” deveria se encaixar. Mas não me encaixei. E isso abriu uma fissura. A direção do programa “perdeu o controle” simbólico da cena. O outro não pôde ser moldado como objeto da imagem idealizada.
Era de se saber, por meio dos autores que o podcast diz ter como “referência”, que o desejo não é individual nem dirigido, mas um campo de forças. O desejo não é cenário, nem é roteirizado. Não se deixa dirigir sem consequências. Querer fazer “um bom podcast” não é problema em si, mas quando isso se torna uma captura do desejo do outro, quando se impõe um formato como modelo, estamos diante de um processo de subjetivação policial, de achatamento das diferenças, de uma exigência de que o outro entre em um molde, em um ritmo, em um fluxo domesticado. Isso é o que Deleuze e Guattari chamam também de microfascismo. É preciso escutar e identificar o modo como o desejo é capturado em dispositivos aparentemente neutros, como um podcast, um curso online, uma conversa mediada por uma estrutura.

No dia seguinte, recebi uma mensagem de um dos responsáveis pelo podcast. Ele queria saber minha “avaliação” da experiência – usava esse termo não no sentido ético de reflexão partilhada, mas no nível da empresa, como quem busca feedbacks para aprimorar um produto. “Reconheceu” que as coisas não haviam funcionado e que sua tentativa de intervir acabou agravando a situação.
Eu lhe disse que tinha ficado incomodado com vários aspectos: a organização, o modelo adotado, a forma de condução e as tentativas de controle. Apontei o desalinhamento entre nossas perspectivas e o quanto aquilo tudo, apesar de incômodo, me fez elaborar questões importantes. Disse também que não retornaria ao podcast, sobretudo diante daquele formato.
Ele disse que gostaria de entender melhor. E fui mais direto: o problema não era técnico, mas político e em intensidade. A experiência revelou uma lógica de mercado operando de forma sutil, porém incisiva. O formato era neoliberal – exigia determinada fluidez, conteúdo palatável, performance. Inclusive, o modo como tentou dirigir a conversa – impondo direções, interrompendo, cobrando fluidez – me pareceu não apenas inábil, mas coercitivo. Sua postura, em certos momentos, assumiu um caráter inquisidor.
Disse ainda que essas questões precisavam ser pensadas com seriedade, mas que não me cabia acompanhá-lo nesse processo. Havia limites. Eu havia vivido aquilo. Refletido. Não atuaria como consultor de um formato que, em si, produz silenciamento.
A resposta dele foi áspera. Disse que “se permitia” um retorno também: afirmou que eu havia me saído mal, que minha fala não tinha qualidade para transmitir o autor que pesquiso, traduzo e utilizo para pensar a clínica e os modos de vida. Por fim, disse que eu precisava “trabalhar isso”.
O episódio não foi ao ar. As postagens nas redes sociais do programa “pop” foram apagadas. Fui, digamos assim, apagado da cena, pois sou inadequado para o formato. Assim seja! Descobri que não são aliados. Mas tudo isso tornou ainda mais visível aquilo que Guattari já apontava: os modelos de comunicação não são neutros, e os “dispositivos” de enunciação são também máquinas de subjetivação. Cada modelo carrega em si modos de vida, formas de controle, linhas de assujeitamento. Determinam o que pode ser dito, quem pode falar, como se deve falar. O desejo, quando capturado por esses dispositivos, perde sua potência de criação. E quando alguém diz que “não está fluindo bem”, talvez o que esteja dizendo é: “você não está me entretendo, você não está se comportando como espero que um convidado se comporte”.
Não se tratava apenas de uma fala que não “fluiu”. Tratava-se de um formato que exige fluidez como performance e que rejeita o tropeço, a pausa, a hesitação, as falhas. Isso não revela um problema da fala, mas da cena enquanto espetáculo.
A violência do enquadre se manifesta nos elogios condicionais, na exigência de naturalidade, na espontaneidade forçada. É uma das lógicas neoliberal de subjetivação. Tudo precisa ser leve. Precisa funcionar. Precisa entreter. Obediência máxima aos padrões de mercado, como nos impõe atualmente as redes sociais fabricando corpos sob enquadramento de telas, vídeos, imagens, vozes.
Mas a ética do pensamento exige o oposto: exige escuta. Corte. Fluxos. Abertura para o que incomoda, para o que escapa, para o que não se curva ao roteiro e ao mundo business. Pensar Guattari é produzir gestos. E um gesto pode ser uma falha. Pode ser uma recusa. Pode ser um corte. Que não segue o ritmo do mercado, que não entrega um conteúdo embalado. Trata-se de uma ética do incômodo, da escuta do que escapa, do que não se curva. Uma ética que respeita as curvas.
Não há Guattari sem desmontagem, sem construção. Sem perturbação da norma. Sem escuta do que se move nas bordas. A exigência de adequação é, em si, uma forma de assujeitamento. Por isso, não se trata de ter razão. Trata-se de não se deixar moldar. Não se trata de vencer o debate, mas de recusar uma cena que nos quer dóceis, domesticados, treinados para caber. Trata-se de sustentar o pensamento como corpo – e o corpo como campo de forças que não aceita ser domesticado. A questão é política. E ética. Quem dirige a cena do pensamento hoje? Quem diz o que é válido ou não?
A ética do pensamento exige que não transformemos o outro em produto. E que saibamos reconhecer quando estamos tentando fazer isso. O problema daquele mau encontro de podcast não foi apenas a fala que não fluía, mas foi o desejo de dirigir uma cena em que não cabem diretores. Onde cada corpo, cada ritmo, cada tropeço carrega a potência de criar outra coisa. Pensar não é obedecer ou ser adequado. É atravessar. O pensamento exige passagem.
Anderson Santos é psicanalista, graduado em psicologia, membro do coletivo Psicanálise na Praça Roosevelt, especialista em “Saúde Mental, Imigração e Interculturalidade” e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi organizador da obra Uma política da loucura e outros textos – François Tosquelles (Ubu e sobinfluencia, 2024), Psicanálise e esquizoanálise: diferença e composição (n-1 edições, 2022) e Guattari/Kogawa. Rádio livre. Autonomia. Japão (sobinfluencia, 2020).

