Chacina de Osasco e Barueri completa dez anos
Foram pelo menos 29 pessoas executadas entre 8 e 13 de agosto de 2015 depois que dois agentes de segurança foram mortos enquanto faziam bico na região
A chacina de Osasco e Barueri, um dos maiores morticínios a céu aberto da história de São Paulo e do Brasil, completa dez anos nesta quarta-feira, 13d de agosto. Foram pelo menos 29 vítimas fatais de um grupo de extermínio composto por agentes de segurança oriundos da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana da cidade de Barueri. Encapuzados, fora de serviço e utilizando-se de equipamento e expertise adquiridos no serviço público, cerca de dez homens promoveram matanças em 8 e 13 de agosto de 2015. O motivo: vingança pelas mortes de um policial militar e um GCM enquanto faziam bicos em comércios locais.
É comum que as chacinas e massacres cometidos por agentes do Estado – com ou sem farda, em serviço ou fora de serviço – sejam motivados por vinganças dessa natureza. Vimos diversos desses casos tomarem as páginas dos grandes jornais. No caso mais recente, a morte do PM Patrick Reis, da Rota, disparou as operações Escudo e Verão que mataram, juntas, 84 moradores da Baixada Santista.
Funciona mais ou menos assim: alguém mata o agente e, para demonstrar controle sobre o território, dezenas de pessoas inocentes vão ser executadas. No caso de Osasco e Barueri nenhum dos mortos na chacina tinha relação com as mortes dos policiais nos dias anteriores. Eram pessoas que estavam tomando uma cerveja no bar ao lado de casa, se dirigindo a pé para a casa de algum parente, ou indo buscar comida em pizzarias e mercadinhos.
Outro ponto sobre Osasco é que, diferente das operações Verão e Escudo, a vingança não foi da tropa, mas do bico. Afinal de contas, se os agentes oferecem serviços ilegais de segurança e acabam mortos por qualquer jovem que tente empreender um assalto, então esse negócio acaba perdendo a credibilidade. Logo, era importante para os assassinos mostrar quem é que manda na região.
“Uma das armas usadas foi uma 9mm de uso exclusivo das Forças Armadas. Outras armas usadas de calibre .38 e .380 eram de uso exclusivo da Guarda Civil Metropolitana. Houve ainda uma .45 que parou de ser usada pela Polícia Civil um tempo atrás e era clandestina, mas com o uso ainda em vigor em alguns agentes da Polícia Militar. Outra coisa que chama atenção nesse caso é que o armamento usado foi desviado das forças de segurança e, no caso da 9mm, foi usado o mesmo lote de balas que três anos depois, em 14 de março de 2018, seria utilizado para executar a então vereadora carioca Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes”, explica Acácio Augusto. Ele é cientista político, professor do departamento de Relações Internacionais da Eppen-Unifesp (Osasco) e coordenador do LASInTec-Unifesp (Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento), que desenvolve uma linha de pesquisa exclusiva sobre a chacina de Osasco e Barueri.

Vítimas e algozes
Fernando Luís de Paula, à época com 35 anos, havia acabado de terminar de pintar a casa de sua mãe, Zilda Maria de Paula, quando saiu para cortar o cabelo. Parou no Bar do Juvenal, da esquina de sua casa no bairro Munhoz Júnior, para tomar uma cerveja com um conhecido e levou um tiro no rosto. Assim, sem mais nem menos.
Só nesse bar dez pessoas foram baleadas, sendo que oito morreram no ato. Amauri Custódio, um dos sobreviventes, foi baleado no pescoço e acabou ficando com sequelas no sistema respiratório que o levaram a óbito nove anos depois, em 2024. Faleceu em decorrência das sequelas, engasgado com um pedaço de carne num churrasco.
Letícia, uma adolescente atingida no meio da rua enquanto caminhava até a casa de uma amiga, morreria semanas depois, já no hospital, em decorrência dos ferimentos. Devison Lopes Ferreira, cujo pai já havia sido morto numa chacina semelhante anos antes, foi morto com seis tiros no meio da rua. Seu corpo ficou mais de 12 horas no asfalto até ser removido pelas autoridades.
Foi uma carnificina. Os agentes descaracterizados passaram pelas ruas atirando em tudo e todos que viam pela frente. De início, as investigações da Polícia Civil identificaram oito agentes envolvidos nas matanças. Quatro deles acabaram inocentados por falta de provas e outros quatro foram condenados a penas centenárias por conta dos crimes em júris realizados em 2017 e 2018.
Fabrício Emmanuel Eleutério, hoje com 39 anos, trabalhava no setor administrativo da Rota e está condenado a 255 anos, 7 meses e 10 dias de prisão. Thiago Barbosa Henklain, de 37 anos, que trabalhava com o policial cuja morte disparou a chacina, agora está condenado a 247 anos, 7 meses e 10 dias de prisão.
Henklain ainda tentou, em 2025, uma última revisão da sua condenação, que não foi aceita pelo tribunal. Eleutério, no momento da chacina, estava respondendo ou já tinha respondido por outros seis processos por homicídios, tendo ficado preso por dois anos antes de ser solto em março de 2015. Ainda assim, era agente de segurança pública em exercício no estado de São Paulo na data em que ocorreu a chacina de Osasco e Barueri.
Um novo julgamento ocorrido em 2021 inocentou os outros dois condenados de outrora: Victor Cristilder (PM) e Sérgio Manhanhã (GCM). O primeiro foi reintegrado à PM em 2023 por Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite. Ele era acusado de ter participado dos episódios tanto no dia 8 como no dia 13 de agosto. O segundo não estava nas ruas. Ele havia sido acusado pelo Ministério Público de desviar as viaturas da GCM da região para que não passassem pela área visada durante o período da ação de extermínio.
À época, São Paulo era governado por Geraldo Alckmin, atual vice-presidente do Brasil de Lula. Seu secretário de segurança pública era Alexandre de Moraes, atual ministro da Suprema Corte e pivô de polêmicas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“O caso expõe o alto grau de violência que se vive na sociedade brasileira. A própria palavra ‘chacina’, que se consolidou na mídia como forma de tratar esse tipo de ação letal da polícia, revela a naturalização da violência. É uma palavra difícil de ser traduzida para outros idiomas, que originalmente refere-se ao abate de animais, especialmente de porcos. Ou seja, já nas capas dos jornais é possível notar uma constante e permanente operação de desumanização das pessoas que se tornam vítimas do Estado”, explica Gabriella de Biaggi, doutoranda em Geografia Humana na USP e pesquisadora do LASInTec-Unifesp.
O luto e a luta
Outro aspecto a ser refletido é em relação às associações de mães e familiares de vítimas do Estado, como a Associação 13 de Agosto liderada pela Dona Zilda Maria de Paula e formada logo que essas mães e familiares se conheceram, durante velórios e idas ao IML para reconhecer os corpos dos filhos.
As mães realizam um trabalho hercúleo de diversas características. Além de organizarem protestos anuais e acompanharem os julgamentos, praticam um tipo de solidariedade e de apoio mútuo importantíssimo. Por exemplo, se uma família precisa de alimentação ou de remédios, Dona Zilda e a Associação 13 de Agosto vão atrás. Conseguem os insumos necessários e entregam para quem os necessita. Há mães que perderam tudo, como Zilda. Outras ficaram responsáveis pela criação dos netos deixados pelos filhos e pelas próprias mães que, em idade avançada, têm sérios problemas de saúde. E uma ajuda a outra. A Associação 13 de Agosto está em atividade cotidiana, geralmente longe dos holofotes.
“Municípios como Osasco e Barueri, localizados em regiões metropolitanas das grandes cidades brasileiras, costumam conviver com certa frequência com morticínios como esse. Não fossem as vozes dessas mães e familiares, muitos desses crimes de Estado ficariam esquecidos. Mas é graças a essas mulheres que não caem no esquecimento e, em alguns poucos casos, vemos os policiais sendo julgados e punidos”, explica Joana Barros, que é arquiteta, socióloga, professora da Unifesp, coordenadora do Centro de Memória Urbana (CMUrb-Unifesp) e vice-coordenadora do LASInTec.
Logo na primeira audiência, as mães da Associação 13 de Agosto tiveram de dividir uma van com policiais militares arrolados como testemunhas dos réus. Nas audiências de 2021, quando Cristilder e Manhanhã foram inocentados, foram acusadas pela defesa dos réus de estarem mancomunadas com o crime organizado. E esses foram apenas os principais desaforos que enfrentaram em nosso viciado sistema de Justiça criminal.
A brutalidade fica ainda mais explícita por conta do medo eterno que essas famílias sentem. Seja por perseguição às próprias mães, ou por um possível envolvimento das novas gerações nesse tipo de conflito. Uma das Mães de Osasco, que obviamente não vamos identificar, contou em entrevista que teme pela vida dos seus netos. Sobretudo por ter ciência de que muitos dos autores da matança seguem soltos e sequer foram identificados, ao passo que a nova geração está crescendo, tornando-se jovens, adolescentes e andando pelas ruas do bairro, como qualquer pessoa normal. Assim como seus pais andavam.
Não existe reparação possível para a morte de um filho, e o terror que essas mães vivem é constante. Várias delas passam, diariamente, em frente aos locais onde seus filhos foram executados. Que país é esse? Que sociedade é essa?
Raphael Sanz é jornalista e cobre movimentos sociais há vinte anos.

