ÁGUA EM UMA FOLHA DE TARO

Viver sem raízes, à margem do mundo

Nesse contexto de deslocamento forçado, perda de cidadania e violência contínua, Médicos Sem Fronteiras (MSF) desenvolveu um projeto para preservar a memória e a identidade da população rohingya

Em Cox’s Bazar, no sul de Bangladesh, o tempo se confunde com a espera. Nesse que é um dos maiores campos de refugiados do mundo, onde vivem mais de um milhão de muçulmanos rohingyas deslocados pela ofensiva militar em Mianmar, em 2017, o acesso à saúde é marcado por filas intermináveis, cortes de financiamento e pelo avanço de doenças.

No auge da crise, milhares de pessoas cruzavam diariamente para Bangladesh. A maioria caminhou durante dias por selvas e montanhas ou se arriscou em viagens marítimas perigosas no Golfo de Bengala. Chegavam exaustos, famintos, doentes e necessitados de proteção internacional e assistência humanitária.

Nesse contexto de deslocamento forçado, perda de cidadania e violência contínua, Médicos Sem Fronteiras (MSF) desenvolveu um projeto para preservar a memória e a identidade da população rohingya. Inspirada no provérbio local “Hoñsu Fathar Faaní” – que significa “água em uma folha de taro” –, a campanha reúne histórias de perdas, resistência e luta pelo direito de existir diante de um mundo que frequentemente ignora sua presença.

A folha de taro, também conhecida como folha de inhame, inspira a metáfora rohingya: quando chove ou a planta é regada, a água repousa sobre sua superfície sem penetrar, até que o vento faz com que ela escorra sem deixar rastros. É assim que os rohingyas descrevem sua condição: obrigados a viver sem raízes, à margem do mundo, como se sua existência pudesse ser apagada a qualquer instante.

A campanha busca preservar a memória da população por meio da arte, da contação de histórias e da produção cultural em diferentes formatos. Em acampamentos de refugiados

como o de Kutupalong, o maior do mundo, famílias e artistas recriaram a folha de taro em esculturas, bordados, cerâmica, poesia e fotografia, transformando-a em símbolo de identidade, resistência e visibilidade.

“Apátrida: esta palavra nos foi imposta. Não somos apátridas. Temos um Estado, mas fomos expulsos dele. Para os rohingyas, apátrida é ‘basha’, um palavrão que significa estar flutuando, sem nada, sem raízes em lugar algum. Prefiro dizer que sou rohingya, indígena de Mianmar”, compartilha Ruhul, membro da comunidade.

Sentada em um banco de madeira, com a filha febril no colo, Nur Begum – moradora de Cox’s Bazar – é uma entre muitas pessoas que enfrentam a difícil realidade da falta de acesso à saúde. “Às vezes vendo parte dos meus alimentos para conseguir comprar remédios fora dos acampamentos. Os serviços de MSF são bons, mas esperar longas horas me deixa inquieta. Leva o dia inteiro”.

Imagem dos Médicos Sem Fronteiras: pessoas numa fila esperando algo como suprimentos
Crédito: Médicos sem Fronteiras

As chuvas de monções agravam o cenário. A umidade favorece surtos de dengue e chikungunya, enquanto doenças crônicas como diabetes e hipertensão crescem nos registros médicos. “Antes víamos dois ou três casos por mês. Agora, chegam dez a quinze”, explica o Dr. Abdur Rahman, da clínica Jamtoli, administrada por MSF. O problema não é apenas clínico: há um limite de quantos pacientes podem iniciar tratamento mensalmente, para evitar o colapso do estoque de medicamentos e da equipe.

O sistema, já precário, sofre ainda mais com a retração da ajuda internacional. Diversas organizações reduziram ou encerraram atividades devido à diminuição de recursos humanitários, sobrecarregando as 10 unidades mantidas por MSF na região. Entre os dias 14 e 15 em junho de 2025, a demanda por serviços de saúde foi 140% maior, quando comparada a quaisquer dois dias do início deste ano.

“É fundamental que os serviços essenciais sejam mantidos nos campos e que o povo rohingya, forçado a depender quase exclusivamente da ajuda humanitária, receba o apoio necessário. Estamos fazendo o possível para nos adaptar, mas essa não é uma solução sustentável”, alerta Pooja Iyer, coordenadora da MSF em Bangladesh.

A frustração se acumula junto com as filas. A prioridade aos casos mais graves, que se caracteriza como medida inevitável diante do excesso de demanda, deixa famílias sem atendimento, como no caso de Abdul Kalam, que cuida de seus filhos e netos recém-chegados de Mianmar: “Um dos meus filhos se mudou para cá com oito familiares há três

meses. Até agora, não recebeu nenhuma comida. Está se tornando difícil alimentar tanta gente”.

A permanência forçada nos campos de Cox’s Bazar tornou-se uma espera sem fim: pelo atendimento, pela comida, pelo futuro. Enquanto a comunidade internacional redireciona esforços para novas crises, os rohingyas enfrentam um limbo prolongado, entre muros invisíveis erguidos pela negligência e pela falta de respostas políticas.

O que está em jogo não é apenas a saúde, mas a possibilidade de continuar existindo em condições minimamente dignas. Sem financiamento constante e políticas globais que enfrentem de fato a crise rohingya, Cox’s Bazar permanecerá sendo um espaço de resistência frágil. Um lugar onde sobreviver significa, antes de tudo, saber esperar.

Este artigo foi produzido em colaboração com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras.

Roger Flores Ceccon é professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

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