POLÍTICA E AUDIOVISUAL

Não cabem nas plataformas digitais as perspectivas alternativas para a América do Sul

Experiência dos realizadores do noticiário Teleanálisis, que circulava pelo underground chileno durante a ditadura Pinochet, demonstra o potencial do audiovisual latino-americano e se estende ao cinema documental

A televisão na América do Sul segue uma abrangente tendência da radiodifusão ao se mostrar como um bloco homogêneo: em especial em períodos autoritários, a exemplo das ditaduras que por exemplo Chile e Brasil vivenciaram na segunda metade do século XX. A tarefa de encontrar disputas simbólicas na comunicação, muito importante para os Estudos Culturais, é complexa nesse contexto – que para muitos pesquisadores apenas permite investigações sobre manipulações e distorções por parte das empresas responsáveis pela mediação dos acontecimentos.

Isso ganha ainda força devido à histórica concentração dos veículos radiodifusores, sob controle de pequenos grupos comerciais. A experiência de Teleanálisis, durante o regime iniciado pelo golpe de 1973 no Chile e interrompido em 1990 com a transição para a democracia, aponta para direções opostas. A linguagem, tributária da revista de oposição Análisis, tem forte teor contestatório e escancara a falta de escrúpulos do governo em vigor. Mas não é o elemento que mais chama atenção: apesar de não ser transmitida por radiodifusão, a iniciativa reivindica desde seu nome a inclusão na produção televisiva de modo mais geral.

Crédito: Wikimedia Commons

Para novas gerações, parece uma façanha espetacular fazer circular por meio de VHS conteúdo audiovisual. Em mídia física, sem auxílio de internet. Denúncias em tom telejornalístico e estratégias audiovisuais do cinema documental se combinam para conferir à realidade rara nitidez em períodos de exceção. Sob a perspectiva dos Estudos Culturais, portanto, o trabalho dos realizadores de Teleanálisis expande os horizontes das pesquisas sobre televisão. Os processos relativos a produzir, narrar e relatar por meio de vídeo e som os acontecimentos durantes governos autoritários passam ser examinados em suas expressões fragmentadas.

Não deixa de ser um contraponto aos conjuntos amplos que compõem a radiodifusão. Em outras palavras, esse caso no Chile possibilita que outras óticas sejam empregadas para tratar do tema. Principalmente na atual conjuntura, quando novos arranjos tornaram em vários sentidos a comunicação ainda mais concentrada, agora com monopólio de gigantes empresas de tecnologia. A despeito da profusão de ações que se desenvolvem por meio de perfis pessoais ou aparentemente autônomos, existe uma intrincada política de algoritmos e impulsionamento de postagens – com complexas implicações econômicas.

O trabalho ao redor de Teleanálisis demonstra que as plataformas digitais não detêm a autoria ou a exclusividade da produção alternativa audiovisual. Historicamente, perante a tradição do documentário sul-americano, a afirmação soa como mera platitude. A retórica formada a respeito dessas plataformas, contudo, tenta restringir possibilidades e incorporar todas os esforços alternativos ao seu próprio enquadramento. Assistir em 2025 ao filme La Victoria de la Dignidad, do diretor Dragomir Yankovic – colaborador simbólico do noticiário underground –, é rasurar essas limitações.

As potencialidades do audiovisual em períodos limítrofes entre ditaduras e regimes democráticos ficam à mostra, inclusive para resgatar o nível de violência empregado contra as oposições – até as mais moderadas. La Victória de la Dignidad se sobressai ao documentar a superação da brutalidade política imposta pela derrubada do presidente Salvador Allende: ao se inserir nos múltiplos legados elaborados em torno de Teleanálisis, é ainda esclarecedor diante das ofensivas autoritárias e dos negacionismos contemporâneos contra a mesma América do Sul.

Introdução à exibição na Universidad Diego Portales do documentário “La Victoria de la Dignidad” (1988) do diretor Dragomir Yankovic, digitalizado e conservado pelo Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (Chile).

 

Helcio Herbert Neto (@exarrobasom) é doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e desenvolve estudos no Museo de la Memoria y los Derechos Humanos do Chile no âmbito do Programa de Apoio a Projetos Internacionais de Pesquisa Científica, Tecnológica e de Inovação do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Texto apresentado 23 de setembro de 2025 em Santiago.

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