HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA EM 100 FOTOGRAFIAS

Os enigmas de Machu Picchu

Confira capítulo inédito do livro História da América Latina em 100 fotografias, do jornalista Paulo Antonio Paranaguá. Evento de lançamento acontece neste sábado, 4 de outubro, na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo

Martín Chambi
1930–1935
Autorretrato diante de Machu Picchu, Peru

A fotografia registrou as grandes descobertas arqueológicas feitas na virada do século XIX para o XX, o que enriqueceu o conhecimento da história das Américas antes da colonização europeia. Em 1911, o explorador estadunidense Hiram Bingham descobriu as ruínas de Machu Picchu, na cordilheira dos Andes, a oitenta quilômetros da cidade de Cusco, no Sul do Peru. A cidadela inca foi construída a 2.430 metros de altitude.Machu Picchu foi abandonada em virtude da guerra entre os incas Huáscar e Atahualpa (1529-1533) e da invasão espanhola (1532) e, assim como o templo maia de Tikal, na Guatemala, foi encoberta pela vegetação e permaneceu esquecida até o início do século XX.

Iniciadas por Bingham, a restauração e as pesquisas sobre Machu Picchu continuam até os dias atuais, em meio ao imenso fluxo anual de turistas que transformou o local em uma das principais atrações da América do Sul. Ainda assim, nem todas as suas incógnitas foram esclarecidas.

A cidadela teria sido residência, santuário e observatório de Pachacutec Inca Yupanqui (1438-1471), monarca que consolidou o Império Inca, o Tahuantinsuyo, que triunfou sobre civilizações anteriores e diversas comunidades como as quéchuas e aimaras, principalmente, numa extensa área onde hoje estão Peru, Equador, Bolívia, Chile, parte da Colômbia e Argentina.

A dominação inca, no entanto, foi breve: menos de um século de expansão e prosperidade, com administração e comunicação eficientes, arquitetura e artesanato admiráveis. Em seu antigo território, os conquistadores espanhóis não encontraram a utópica Eldorado, mas em 1545 acharam o Cerro Rico de Potosí, na Bolívia, uma montanha na qual era possível extrair prata, mineral que financiou a Revolução Industrial europeia.

Mestre da fotografia da primeira metade do século XX, o peruano Martín Chambi fez o registro sistemático de diversos aspectos de Machu Picchu revelados pelas escavações.

Acostumado a percorrer os Andes com o seu burro carregado com negativos em placas de vidro, Chambi desvendou ângulos que posteriormente seriam reproduzidos em cartões-postais e nas fotos de milhares de visitantes.

Autodidata, de origem quéchua, o fotógrafo integrou o grupo que, reivindicando as raízes incas da cultura peruana, formou o movimento indigenista na década de 1930. Na mesma época, em Lima, o populista Victor Raúl Haya de la Torre – fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana, em 1924 – e o marxista José Carlos Mariátegui – fundador do Partido Socialista Peruano, em 1928 – chamaram a atenção para a importância da influência indígena nos futuros movimentos sociais.

No caso de Martín Chambi, a busca da identidade nacional, encabeçada pelos intelectuais cusquenhos, tinha uma dimensão autobiográfica. O fotógrafo produziu uma quantidade imensa de autorretratos ao longo de sua vida (1891-1973), muitas vezes em cenários do grandioso passado incaico, como a Machu Picchu da fotografia selecionada neste livro. A identificação do fotógrafo com seu objeto provoca um desdobramento capaz de justificar, para além do narcisismo, sua presença atrás e diante das lentes. No olhar de Martín Chambi, coexistem a idealização romântica e a sensibilidade socioantropológica.

 

Paulo Antonio Paranaguá nasceu no Rio de Janeiro em 1948. Depois de vivenciar três ditaduras (Espanha, Brasil e Argentina), foi morar na França, onde vive hoje. Por causa da militância trotskista foi preso por cerca de dois anos na Argentina (1975-1977). Estudou sociologia nas Universidades de Nanterre e Paris VIII, obteve o diploma da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, Paris) e fez doutorado em História da Arte na Sorbonne. Foi correspondente do Jornal do Brasil, crítico de cinema da revista Positif, jornalista do Rouge Quotidien, da Rádio França Internacional e do jornal Le Monde. Ganhou as bolsas Guggenheim e Vitae para suas pesquisas. Trabalhou como curador para o Centro Georges Pompidou e diversos eventos na França. É o autor de diversos livros, dentre eles: Cinema na América Latina: longe de Deus e perto de Hollywood (L&PM, 1985), Le cinéma brésilien (Centro Pompidou, Paris, prefácio de Jorge Amado, prêmio literário da crítica francesa), Le cinéma en Amérique latine: Le miroir éclaté, historiographie et comparatisme (L’Harmattan, 2000), Luis Buñuel: El (Paidós, 2001), Tradición y modernidad en el cine de América Latina (Fondo de Cultura Económica, 2003), A invenção do cinema brasileiro (Casa da Palavra, 2014) e Trópico de Paris (EntreTmas Revista Digital & Agulha Revista de Cultura, Colección Libros Imposibles, 2024).

 

Lançamento do livro

Sábado, 04/10, no Auditório da Biblioteca Mário de Andrade (R. da Consolação, 94 – República), das 11h às 12h30, bate-papo do autor com Carlos Augusto Calil (professor da USP e ex-secretário Municipal de Cultura) e Gabriela Pellegrino (professora de História da América Latina da USP).

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