RESENHA

A virada biológica do neoliberalismo

A reflexão de Quinn Slobodian ganha novos contornos em Hayek’s Bastards: Race, IQ and the Capitalism of the Far Right, obra publicada em abril deste ano

A mobilização da ciência para justificar hierarquias raciais e projetos eugenistas não é, evidentemente, novidade. O que surpreende é que essa linhagem tenha permanecido tão pouco explorada como estratégia central do neoliberalismo no pós-Guerra Fria. É precisamente essa lacuna que Quinn Slobodian preenche em Hayek ‘s Bastards: Race, IQ and the Capitalism of the Far Right, lançado em abril deste ano. Professor de História Internacional da Universidade de Boston, Slobodian já pode ser considerado um autor incontornável para trabalhar o neoliberalismo a partir de obras como Globalists: The End of Empire and the Birth of Neoliberalism (2018), e o Nine Lives of Neoliberalism (2020) ,organizado em conjunto com Dieter Plehwe e Philip Mirowski.  

O livro enfrenta, por si só, um impasse conceitual significativo, afinal, trabalhar com a ideia de neoliberalismo está longe de ser um exercício ameno. A contestação pela validade de tal categoria e sua adjetivação no debate público, por vezes, impediu análises que fossem capazes de captar o movimento teórico e sua prática política. Hayek’s bastards oferece uma cartografia profícua nessa direção, evidenciando que mobilizar a ideia de neoliberalismo não só é absolutamente pertinente, como um exercício incontornável para entender a extrema-direita na atualidade. 

E nesse sentido, convém evidenciar o que se pode legitimamente esperar de uma categoria analítica. Se lhe exigimos precisão para mapear um terreno intelectual e político constituído por uma heterogeneidade intrínseca, deveríamos abdicar de qualquer termo usado para descrever o que são, de modo irredutível, vertentes e correntes heterogêneas de pensamento e posições políticas mais ou menos congruentes. Quanto mais nos aproximamos de uma tradição, mais nítidas se tornam suas zonas de ambiguidade, e quanto mais conhecemos um autor em detalhe, menos pacífica é sua inscrição em uma única linhagem. O mérito do livro está em acolher essa complexidade sem renunciar a nomear o que é relevante, usando o neoliberalismo como chave de leitura produtiva para a análise histórica.  

A análise do livro não pode prescindir também da consideração, que desde 2016, ganhou corpo à sombra de eventos como o Brexit e o movimento MAGA a ideia de que a extrema direita seria, por princípio, isolacionista e refratária ao neoliberalismo, erguendo um programa voltado a amparar os “vencidos” de um mundo excessivamente competitivo. A obra confronta explicitamente esse diagnóstico. 

Em termos gerais, o livro sustenta que, no pós-Guerra Fria, um segmento do neoliberalismo respondeu às pressões igualitárias das últimas décadas, construindo uma “barreira da natureza”. Sob o argumento de resguardar eficiência, estabilidade e ordem, esses autores deslocaram para o terreno da biologia e da evolução os debates sobre raça, inteligência, território e moeda. Assim, hierarquias de gênero, raça e cultura foram requalificadas como “fatos naturais”, de modo que heranças genéticas ou ou tradições trans-historicamente consagradas passassem a ser apresentadas como inscritas no próprio “código da espécie”.

É nesse registro que, em 1994, a obra The Bell Curve é lançada. Assinada por Richard Herrnstein e Charles Murray, ambos professores na Universidade de Harvard, o livro buscou dar novo verniz ao darwinismo social sustentado no conforto da linguagem estatística. Em sintonia com a guinada mapeada por Slobodian, o livro biologiza a diferença sustentando a existência de disparidades de QI entre grupos raciais que seriam, em parte, naturais. Tendo como alvo o Estado de Bem-Estar social norte-americano, o argumento seguia a lógica de que programas de assistência operariam como mecanismo de seleção às avessas. Ao reduzir o custo de ter filhos para mulheres pobres, grupo que os autores associaram ao “baixo QI”, tais políticas funcionariam como incentivo demográfico indesejável. O raciocínio era objetivo ao correlacionar a pobreza a déficit cognitivo. Portanto, políticas sociais constituiriam um estímulo à fertilidade dos “menos aptos”, e o resultado seria uma degradação da capacidade intelectual da população. 

Se antes os neoliberais cuidavam das condições extraeconômicas da ordem de mercado, sobretudo via direito, religião e moral, a combinação entre a influência hayekiana da “evolução cultural” e a popularização das neurociências e da psicologia evolucionista empurrou muitos deles em direção às “ciências duras”. É nesse caldo que se cristaliza, nos anos 1990, o “novo fusionismo”. Trata-se de um amálgama entre agendas de mercado e argumentos importados da psicologia cognitiva, comportamental e evolucionária, frequentemente temperados com genética e antropologia biológica.  

O recurso a esses instrumentos permitiu transformar demandas sociais por redistribuição em “ameaças naturais” à ordem, reposicionando a defesa do mercado como defesa da própria sobrevivência da espécie. Ao transitar da moralidade para a genética, o neoliberalismo encontrou uma forma de se apresentar como ciência aplicada, capaz de oferecer diagnósticos objetivos e políticas “inevitáveis”.  

Capa do livro Hayek ´s Bastards: Race, IQ and the Capitalism of the Far Right. Existe uma estrutura dourada que ocupa a capa inteira.
Crédito: Divulgação/ Princeton University

Uma aposta central do livro é a recuperação do pensamento do filósofo austríaco Friedrich Hayek, argumentando que a partir de The Road to Serfdom, ele se afasta da economia para desenvolver uma filosofia política que, nos anos 1960, passa a incorporar a evolução, as teorias de sistemas e a cibernética como chaves para explicar a ordem espontânea. Reconstituída a partir de uma ontologia hayekiana da ordem social, a trajetória humana é descrita como a transição de vínculos comunitários imediatos e pouco diferenciados para uma ordem ampliada, sustentada por crescente divisão do trabalho e por intercâmbios impessoais. 

Com isso, torna-se necessária certa indiferença em relação às pessoas com quem trocamos e de cujo esforço dependemos, pois qualquer tentativa de abarcar de cima o funcionamento desse mecanismo ultrapassa a capacidade humana. A justiça social, nesse quadro, aparece como miragem e como um chamado atávico ao retorno do pequeno coletivo, o que, para Hayek, renasce em movimentos como a Nova Esquerda e coloca em risco a disciplina adquirida que sustenta a riqueza moderna. Ao naturalizar, por meio da analogia evolutiva, a seleção de práticas tidas como mais eficazes em nível de grupo, Hayek oferece, na leitura de Slobodian, um esvaziamento da legitimidade de políticas igualitárias e recodifica a ordem de mercado como resultado de um processo não intencional que não deve ser corrigido por critérios morais de justiça. 

É nesse diapasão de que acontece uma fratura decisiva do neoliberalismo diante da turbulência política dos anos 1960. A entrada dos libertários de direita no bloco alt-right deriva de um rompimento interno provocado pelo avanço das agendas igualitárias e pelas disputas em torno de natureza humana e pertencimento coletivo. Enquanto o Estado de bem-estar ganhava musculatura e os direitos civis se institucionalizavam, os neoliberais reagiam ao que percebiam como “a ideia de que o Estado poderia aperfeiçoar os indivíduos e de que a igualdade poderia, um dia, abarcar não só os pontos de partida, mas também os resultados”.  

Contra o que chamavam de coletivismo e de crença na tábula rasa, insistiam na desigualdade constitutiva das capacidades e na persistência de diferenças entre indivíduos e grupos. A grande questão, entretanto, dizia respeito à definição dessas diferenças. Em uma ponta, economistas próximos de Murray Rothbard buscaram ancorar a diferença na biologia e resgataram uma hierarquia rígida de traços e aptidões raciais. Na outra, o círculo associado a Hayek passou a conceber a natureza humana como moldada essencialmente pela cultura, passível de mudança por aprendizado social e por uma espécie de seleção de práticas ao longo do tempo. Essa reorientação terminou por reanimar, em novas condições, projetos de segregação racial. 

Em suma, ciente de que aqui ofereço não mais do que uma síntese do que o livro desenvolve com minúcia, para Slobodian, a Extrema-Direita é uma das consequências políticas do neoliberalismo, forjada por uma estratégia deliberada que orientou parte relevante das formulações de herdeiros intelectuais de alguns dos protagonistas do Colóquio Walter Lippmann, em 1938. Esses “filhos bastardos” de Hayek articulam ultraliberalismo de mercado, hierarquizações raciais, fetichismo do ouro e das criptomoedas e determinismo psicométrico do QI para sustentar um inatismo da natureza humana, a sacralização de fronteiras rígidas e a doutrina da moeda forte, apresentadas como antídotos às agendas igualitaristas. 

Carlos Eduardo Rezende Landim é mestre e doutorando em Relações Internacionais no Programa de Pós Graduação San Tiago Dantas (Unicamp, Unesp, PUC-SP). Editor do Boletim Lua Nova, pesquisador no Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) e no Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI). 

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