Por que a Doutrina Monroe está de volta?
A hipótese de uma intervenção dos Estados Unidos na Venezuela voltou a ganhar força nos últimos meses, sustentada pelo agravamento da crise humanitária, pelas sanções econômicas e pelo isolamento político do governo de Nicolás Maduro
Sob o pretexto da defesa da democracia, os Estados Unidos ensaiam mais uma intervenção em seu “quintal” estratégico. Mas o alvo real é a reconfiguração da hegemonia no continente.
A hipótese de uma intervenção dos Estados Unidos na Venezuela voltou a ganhar força nos últimos meses, sustentada pelo agravamento da crise humanitária, pelas sanções econômicas e pelo isolamento político do governo de Nicolás Maduro. Sob o discurso de “restauração democrática”, Washington procura reposicionar-se na América do Sul, abrindo uma nova frente de contenção à influência chinesa e russa, e ainda retomar o controle sobre as maiores reservas de petróleo do mundo.
Para compreender o atual impasse venezuelano, é preciso observar que a intervenção norte-americana, real ou potencial, não é um desvio, mas parte de uma longa tradição de projeção de poder no continente.
O tabuleiro geopolítico
Mais do que uma operação militar, trata-se de uma estratégia de recomposição da hegemonia norte-americana no continente. Essa busca por domínio regional não é nova; tem raízes históricas em uma das mais antigas diretrizes da política externa dos Estados Unidos: A Doutrina Monroe.
Proclamada em 1823, sob o lema “América para os americanos”, surgiu como um manifesto contra o colonialismo europeu, mas logo se transformou em um instrumento ideológico de afirmação da hegemonia norte-americana sobre o continente. Desde então, como declarou o presidente James Monroe em seu discurso anual ao Congresso, os Estados Unidos se atribuíram o papel de guardiões da “liberdade” hemisférica, ao mesmo tempo em que legitimavam sua própria expansão:
“Julgarmos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia […]”
Essa política em relação à América Latina sempre se caracterizou por variações táticas, mas por uma constância estratégica: a defesa dos interesses norte-americanos sob diferentes roupagens morais. Como destaca o Repositório do UniCEUB (2016), “inicialmente buscava-se proteção contra o colonialismo europeu; depois, evocou-se o Destino Manifesto como missão civilizatória; mais tarde, a retórica da luta contra o nazi-fascismo e, em seguida, o combate ao comunismo serviram de legitimidade. Hoje, o discurso se renova sob o pretexto de enfrentar a pobreza e o narcotráfico”.
O novo “monroísmo” do século XXI, reavivado durante o governo Trump, combina retórica humanitária, guerra econômica e manipulação diplomática. Sob o verniz dos direitos humanos, a velha lógica de controle reaparece com novos meios sanções, bloqueios e ingerências políticas que buscam reafirmar a liderança de Washington em um continente cada vez mais disputado.
Com o enfraquecimento do sistema interamericano e o esvaziamento de iniciativas como a UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), criadas para fortalecer a integração e a autonomia regional, a América Latina voltou a se tornar um espaço vulnerável à ingerência externa. É nesse contexto que a Venezuela, por seu simbolismo bolivariano e por suas alianças estratégicas com Moscou e Pequim, transformou-se no elo mais visível de uma disputa que transcende fronteiras nacionais: a disputa por esferas de influência em meio à multipolaridade em gestação.
A presença russa e chinesa na Venezuela é, portanto, mais do que um reflexo de interesses econômicos. Ela expressa a lenta e conflituosa transição de um mundo multipolar em construção. Tanto Moscou quanto Pequim buscam proteger seus investimentos e garantir acesso privilegiado ao petróleo e aos minerais abundantes do país. Contudo, como observa Alfredo (2024), embora ambas enxerguem Caracas como uma aliada de resistência ao domínio dos Estados Unidos na América do Sul, suas estratégias diferem em natureza e alcance.
No caso da Rússia, o vínculo com a Venezuela é simultaneamente simbólico e estratégico. Moscou mantém projetos de exploração de petróleo e minerais, mas vai além: utiliza o território venezuelano como plataforma de projeção militar e política no hemisfério ocidental. Os acordos de Parceria Estratégica (2025) e de Reforço de Apoio Político e de Segurança (2025) ilustram essa aproximação. O primeiro amplia a cooperação bilateral em áreas sensíveis; o segundo reafirma o apoio russo à soberania venezuelana frente à presença militar norte-americana no Mar do Caribe. Nesse jogo de forças, a Venezuela converte-se em peça de uma “reciprocidade simbólica”: assim como Washington apoia Kiev na fronteira russa, Moscou apoia Caracas no quintal geopolítico dos Estados Unidos.
A China, por sua vez, atua com a sutileza que marca sua diplomacia econômica. Maior compradora do petróleo venezuelano, Pequim aposta na estabilidade do regime chavista como garantia de seus contratos e como ponto de ancoragem da Nova Rota da Seda (One Belt, One Road) no continente americano. Concedendo bilhões em empréstimos à Venezuela, a China busca assegurar o pagamento das dívidas acumuladas enquanto mantém uma postura oficialmente “não intervencionista”. Na prática, essa neutralidade protege seus interesses materiais sem se envolver diretamente nas disputas políticas internas.
Enquanto a Rússia instrumentaliza a aliança com Caracas para desafiar a hegemonia norte-americana, a China consolida sua influência de modo discreto, por meio do crédito, da infraestrutura e do comércio. A convergência entre ambas não nasce de afinidades ideológicas, mas dá oportunidade de explorar as fissuras abertas pela crise da hegemonia estadunidense. Nesse sentido, a Venezuela emerge como um espaço simbólico da multipolaridade: um território onde se confrontam modelos de poder, visões de soberania e distintas formas de resistência à ordem global centrada em Washington.
Para a América Latina, essa disputa reabre um dilema histórico: como equilibrar o desejo de autonomia regional frente às potências externas sem cair em novas formas de dependência sob outros disfarces? Nesse cenário, o Brasil assume um papel central. Ao defender a não intervenção e o respeito à soberania, princípios caros à diplomacia sul-americana, o país é desafiado a formular uma estratégia própria diante da reorganização global do poder. Uma política externa ativa e autônoma, que dialogue com o Sul Global sem romper com o Norte, é essencial para que a região deixe de ser um mero tabuleiro das potências e possa afirmar-se, finalmente, como sujeito político da nova ordem multipolar.

O tabuleiro geográfico: os desafios de uma invasão na Venezuela
Uma eventual intervenção terrestre dos Estados Unidos na Venezuela não seria apenas um confronto entre exércitos: seria, antes de tudo, um choque com a geografia. O próprio relevo venezuelano funciona como uma série de defesas naturais, um elemento que impõe limites às ambições militares e que transforma qualquer operação de grande escala em um exercício de risco elevado e custo incalculável.
Caracas, centro político e de comando do país, está encaixada em um vale cercado pela Cordilheira Andina. Essa estratégia topográfica torna a capital menos acessível do que mapas planos poderiam sugerir: as encostas e os desfiladeiros oferecem posições de vantagem para quem conhece o terreno e dificultam movimentos massivos de forças estrangeiras.
A ação aérea, embora tecnicamente poderosa, encontra na complexidade do terreno restrições operacionais significativas. Montanhas, vales e condições meteorológicas locais reduzem a previsibilidade das missões e ampliam os riscos para aeronaves e tripulações, ao mesmo tempo que elevam a probabilidade de danos colaterais e de erros que podem minar a legitimidade política de qualquer intervenção.
No interior, a Venezuela apresenta contrastes igualmente desafiadores. A porção sul conta com a selva amazônica, que com densa cobertura florestal e baixa infraestrutura, cria um ambiente hostil para operações convencionais: deslocamentos tornam-se lentos, logística e manutenção de suprimentos ficam severamente comprometidas, e a própria visibilidade e controle territorial se tornam problemáticos. Esses mosaicos não facilitam a padronização de forças, equipamentos e rotinas operacionais.
A tentativa de ocupar um país tão heterogêneo territorialmente exigiria mais do que capacidade militar, demandaria sustentação logística longa e exposição permanente a dinâmicas de resistência local, desgaste político internacional e custos econômicos elevados.
Em outras palavras, a Cordilheira protege o centro de comando; e a floresta oferece refúgio e vias de resistência. Juntos, esses fatores transformam a ocupação numa tarefa de altíssimo risco e com retornos estratégicos incertos.
Para além dos desafios militares, uma invasão da Venezuela representaria um retrocesso estratégico e moral com consequências profundas para a ordem regional. Seria um ato de soberania violada que reavivaria décadas de ressentimento, alimentaria ciclos de radicalização e provocaria um deslocamento humanitário e ambiental de grande escala. Diplomacia, constrangimentos econômicos e medidas multilaterais, por mais falíveis que sejam, constituem alternativas menos destrutivas e mais compatíveis com a estabilidade regional do que a força bruta. A arrogância de quem imagina poder “decapitar” regimes pelo poderio tecnológico subestima não só a geografia física, mas também a legitimidade, a memória histórica e a capacidade de resistência das sociedades. Qualquer projeto de mudança duradoura na Venezuela terá, portanto, de considerar os valores geográficos, políticos, sociais, e ainda reconhecer que a imposição externa raramente produz as soluções anunciadas, muito pelo contrário, costuma deixar e produzir novas dependências e cicatrizes difíceis de cicatrizar.
O pano de fundo: a disputa pelo Sul Global
Em última instância, o que está em jogo é a redefinição da ordem internacional. A Venezuela é apenas o terreno visível de uma batalha que opõe a hegemonia estadunidense à ascensão do Sul Global.
A reação brasileira a esse processo definirá se o país continuará sendo um ator autônomo na multipolaridade emergente ou se voltará à lógica da dependência.
A história mostra que nenhuma intervenção norte-americana trouxe estabilidade duradoura à América Latina. A tentação de “salvar a democracia” com tanques e sanções é, no fundo, a velha crença de que a soberania dos outros termina onde começam os interesses dos EUA.
Maurício Alfredo é mestre em Educação, professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior. Autor de material didático junto à Editora Companhia da Escola.
Bibliografia
Alfredo, Mauricio – Venezuela x Guiana: Relações de poder no espaço mundial – Observatório da Imprensa – 01 de fevereiro de 2024, edição 1273.
Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/america-do-sul/279616/
BRASIL. Presidência da República. Governo Federal anuncia retorno do Brasil à Unasul. Planalto, Brasília, 6 abr. 2023.
Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2023/04/governo-federal-anuncia-retorno-do-brasil-a-unasul.
CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA (UniCEUB). A Doutrina Monroe e suas influências. Brasília: UniCEUB, 2016.
Disponível em: https://repositorio.uniceub.br/jspui/bitstream/235/8848/1/01_A%20Doutrina%20Monroe%20e%20suas%20influ%C3%AAncias.pdf.
EXAME. Venezuela e Rússia avançam em acordo de parceria estratégica. Exame, [S.l.], 19 set. 2025. Disponível em: https://exame.com/mundo/venezuela-e-russia-avancam-em-acordo-de-parceria-estrategica/.
JORNAL GRANDE BAHIA. Rússia reforça apoio à Venezuela em meio a tensão com os Estados Unidos no Caribe. Jornal Grande Bahia (JGB), [S.l.], 15 out. 2025.
Disponível em: https://jornalgrandebahia.com.br/2025/10/russia-reforca-apoio-a-venezuela-em-meio-a-tensao-com-os-estados-unidos-no-caribe/
Lançada a Doutrina Monroe: “América para os americanos”. Ensinar história,s,d.
Disponível em: https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/doutrina-monroe/.


Excelente artigo, como todos os publicados pelo autor