A REPÚBLICA DAS CLASSES SUBALTERNAS

Experiências de resistência e exclusão na formação do Brasil republicano

A Proclamação da República brasileira representou fundamentalmente uma modernização conservadora que adaptou estruturas coloniais de dominação às exigências do capitalismo mundial em expansão, mantendo as classes subalternas em posição sistemática de exclusão política, econômica e social

A Proclamação da República brasileira em 15 de novembro de 1889, não representou uma ruptura democrática, mas sim uma “revolução pelo alto” que manteve as estruturas de dominação social, apenas adaptando-as às novas configurações do capitalismo mundial. Para as classes subalternas – ex-escravizados, sertanejos pobres, trabalhadores urbanos, imigrantes precarizados – a República significou não a conquista da cidadania prometida pelos ideais republicanos, mas uma nova forma de exclusão sistemática que substituiu os mecanismos de controle escravista por dispositivos “modernos” de marginalização. Esta “República sem republicanos”, expressão que se tornou clássica na historiografia, consolidou um projeto de modernização conservadora onde as elites oligárquicas, especialmente os cafeicultores paulistas e mineiros, estabeleceram sua hegemonia através da exclusão política das massas populares e da manutenção da concentração fundiária. O presente estudo busca recuperar as experiências concretas, as resistências e a agência histórica das classes subalternas no período de formação da República através de uma “história vista de baixo”, questionando narrativas tradicionais que privilegiam apenas a ação das elites políticas e invisibilizam as lutas populares.

As classes subalternas na historiografia da Proclamação da República

A renovação historiográfica brasileira das últimas décadas, influenciada pela história social inglesa, permitiu uma reavaliação crítica do período republicano inicial a partir da perspectiva das classes trabalhadoras e grupos subalternos. Conforme demonstra Fortes (2016)[1], “a influência da história social na reformulação dos estudos do trabalho no Brasil dos anos 1980” possibilitou uma abordagem que privilegia “as relações entre cultura, normas, valores e ideologias” na formação das classes subalternas, superando análises meramente estruturalistas que reduziam os trabalhadores a meros objetos da história. Esta perspectiva metodológica, fundamentada no conceito de experiência – definida como o momento em que “homens e mulheres, como seres racionais, ao agirem sobre a realidade, refletem sobre o que acontece a eles e à própria realidade”[2] – permitiu compreender como as classes subalternas não foram vítimas passivas das transformações republicanas, mas sujeitos históricos ativos que desenvolveram formas específicas de resistência e organização.

A aplicação desta metodologia aos estudos sobre a Proclamação da República revelou as contradições fundamentais do projeto republicano das elites. Silva (2016)[3] demonstra como os trabalhadores paulistas “promoveram, entre 1889 e 1930, sua própria educação” através do associativismo operário, evidenciando a existência de uma consciência crítica das classes subalternas que questionava o caráter excludente da nova ordem política. Esta perspectiva crítica se materializou na emergência de movimentos operários organizados que, já na década de 1890, denunciavam a “República burlesca” incapaz de atender às demandas populares por melhores condições de trabalho, educação e participação política. A análise de Silva sobre o associativismo operário ilustra como lideranças populares desenvolveram formas de “relativa autonomia diante do Estado” para construir organizações que atendessem às necessidades concretas das classes trabalhadoras.

O período pós-Abolição (1888) e pós-Proclamação (1889) consolidou o que Sevcenko (1999)[4] caracterizou como “a tradição autoritária e clientelista das relações de classes no país”. A República nasceu “sob o signo da ordem pública”, implementando um modelo de controle social baseado no “arbítrio e na violência da polícia, mais do que na sutileza disciplinadora dos médicos” para conter o que as elites denominavam “caos urbano”. Esta estratégia repressiva se fundamentou na “disseminação de uma representação social negativa, de cunho racista, dos integrantes das classes subalternas”, estabelecendo um padrão de criminalização da pobreza que se perpetuaria ao longo da história republicana. O conceito de “desqualificação dos pobres” proposto por Sevcenko evidencia como a República utilizou aparatos científicos e jurídicos para legitimar a exclusão sistemática das classes populares, especialmente da população negra recém-liberta.

A exclusão tripla identificada por Alves (2011)[5] caracterizou a experiência das classes subalternas no período republicano inicial: exclusão política (através de critérios censitários e de alfabetização), exclusão econômica (mediante competição desigual com imigrantes europeus e ausência de políticas de integração) e exclusão social (via criminalização de práticas culturais e imposição de códigos burgueses de comportamento). “Com o fim do trabalho escravo e a proclamação da República, o monopólio do poder, o controle sobre o Estado e o domínio político passaram a ser exercidos pelos grandes proprietários”, consolidando uma estrutura onde as classes subalternas foram sistematicamente marginalizadas dos centros decisórios. Esta configuração social estabeleceu o que Alves denomina “lugar do negro no mercado de trabalho” pós-Abolição: posições subalternas, salários reduzidos, condições precárias e constante ameaça de substituição por trabalhadores imigrantes.

A análise das “retóricas negras de inclusão social” desenvolvida por Guimarães (2012)[6] demonstra como “a Primeira República representou bem essa época em que competiram duas lógicas de cidadania”: uma restritiva, “limitada às classes altas e remediadas”, e outra inclusiva, defendida por movimentos populares e intelectuais negros. A “onda civilizadora republicana” propagandeada pelas elites contrastava drasticamente com a realidade vivenciada pelas classes subalternas, levando à acusação de que “a República liberal foi acusada de ter barrado o processo mais radical de abolição da escravidão e deixado o povo negro na situação deplorável em que se encontrava”. Esta contradição entre discurso modernizador e práticas excludentes caracterizou a especificidade da formação republicana brasileira.

O estudo de Lima (2018)[7] sobre “racismo, trabalho e ociosidade no processo de abolição” revela como a transição para o trabalho livre foi acompanhada pela implementação de mecanismos de controle racial que visavam “obrigar os libertos a trabalhar” através da perseguição à chamada “ociosidade”. A consolidação de uma “imagem de diferenciação racial que relacionava os negros a uma ociosidade atávica” serviu como justificativa ideológica para políticas repressivas que criminalizavam a pobreza e estabeleciam formas indiretas de trabalho compulsório. Lima argumenta que “é importante ainda avançar na análise dos efeitos do racismo no processo da formação da classe trabalhadora brasileira”, evidenciando como a questão racial se tornou elemento estruturante da marginalização das classes subalternas no período republicano.

A aplicação dos conceitos de “formação da classe trabalhadora” ao contexto brasileiro permitiu uma compreensão mais complexa dos processos organizativos das classes subalternas urbanas. Silva (2016)[8] demonstra como “as classes trabalhadoras de São Paulo promoveram, entre 1889 e 1930, sua própria educação” através do associativismo operário, desenvolvendo uma “relativa autonomia diante do Estado” que possibilitou experiências de auto-organização e resistência. A pesquisa de Silva, fundamentada em “referenciais da história social inglesa e da historiografia sobre a formação da classe trabalhadora”, comprova que “classe operária não é uma estrutura, ou uma categoria, mas algo que ocorre efetivamente nas relações humanas”, seguindo formulação clássica da história social. Esta perspectiva metodológica permitiu identificar como trabalhadores urbanos, muitos deles ex-escravizados e imigrantes precarizados, construíram formas coletivas de organização que questionavam tanto a exploração capitalista quanto a exclusão política republicana.

A “modernidade republicana” analisada por Alonso (2014)[9] como “episódio da modernização à brasileira” caracterizou-se pela incorporação seletiva de “ideias de liberdade, progresso, ciência, democracia” que foram adaptadas aos interesses das elites oligárquicas. A “propaganda republicana” estabeleceu “uma relação dicotômica entre república e monarquia” que ocultava as continuidades autoritárias entre os dois regimes, especialmente no tratamento dispensado às classes subalternas. Esta “renovação da linguagem” política serviu fundamentalmente para legitimar um projeto de modernização conservadora que mantinha intactas as estruturas sociais excludentes, apenas atualizando os mecanismos de dominação de classe. A análise de Alonso confirma que a República brasileira representou uma modernização “pelo alto” que excluiu sistematicamente as classes populares do processo de construção nacional.

Müller e Paixão (2006)[10] demonstram que “na República, retirado o impedimento legal, destacam-se dois outros aspectos: a dificuldade de se manter na escola em função das necessidades prementes que impunham o trabalho como prioridade”, evidenciando como a “liberdade” formal conquistada com a Abolição não se traduziu em acesso efetivo aos direitos de cidadania. As autoras utilizam o “conceito de experiência, conforme proposto por E. P. Thompson” para demonstrar que “tais processos de exclusão não são vivenciados passivamente pelos indivíduos implicados”, destacando formas de resistência e agência das populações marginalizadas. Esta perspectiva metodológica permite compreender como as “formas de exclusão educacional da população negra” se articularam com o “racismo que estrutura a sociedade brasileira”, criando barreiras sistemáticas à ascensão social das classes subalternas no período republicano inicial.

Quadro de Benedito Calixto sobre a Proclamação da República. Há vários homens.
Quadro de Benedito Calixto

Contexto atual e permanências históricas

A agência histórica das classes subalternas no período da Proclamação da República manifestou-se através de múltiplas formas de resistência que desafiam interpretações reducionistas da historiografia tradicional. O movimento de Canudos (1896-1897) representou uma das mais significativas experiências de organização popular autônoma da história brasileira, congregando sertanejos pobres, ex-escravizados, pequenos agricultores e pessoas excluídas da sociedade numa comunidade que chegou a abrigar 25 mil habitantes. A composição racial diversa – metade da população de Canudos era composta por negros e negras – evidencia como este movimento articulou resistência camponesa e resistência negra numa síntese política revolucionária. Contrariando narrativas que enfatizam apenas aspectos messiânicos, Canudos desenvolveu “uma sociedade diferente” baseada na coletivização dos meios de produção, onde “não existiam ricos nem pobres” e “tudo era produzido e distribuído de forma coletiva pelos camponeses”, antecipando experiências socialistas posteriores.

A Guerra do Contestado (1912-1916) confirmou o padrão de resistência camponesa à modernização capitalista imposta pelas elites republicanas. O movimento agregou posseiros e pequenos proprietários de terras, trabalhadores desempregados da ferrovia Brazil Railway, camponeses expropriados pela Southern Brazil Lumber Company, demonstrando como a penetração do capital estrangeiro transformou “a terra da condição de bem de uso para a de mercadoria”, provocando expropriação massiva das populações rurais. Os “redutos” ou “Cidades Santas” organizaram-se segundo o princípio comunitário “quem tem, mói; quem não tem, mói também, e no final, todos ficarão iguais”, criando um “manifesto de rejeição à ordem capitalista em curso”. A resistência militar demonstrou sofisticação tática com domínio territorial de 28 mil quilômetros em Santa Catarina e 20 mil no Paraná, forçando o emprego de metade do Exército republicano e o pioneirismo da aviação militar brasileira para sufocar o movimento.

A Revolta da Vacina (1904) expressou a resistência das classes populares urbanas contra os projetos modernizadores excludentes das elites cariocas. Além da oposição à vacinação obrigatória, o movimento reagiu às “reformas urbanas” que demoliram 700 habitações coletivas, desabrigando 14 mil pessoas e destruíram formas tradicionais de vida através da proibição de “cães vadios, vacas leiteiras nas ruas, venda de miúdos, costume de andar descalço pelo Centro”. Para grupos afrodescendentes, a vacinação representava intervenção sobre as práticas de variolização e outros rituais de purificação, evidenciando como políticas sanitárias se articularam com processos de disciplinamento racial e cultural. A criação da “Liga Contra a Vacina Obrigatória” e as barricadas do bairro da Saúde (apelidadas “Porto Artur”) demonstraram capacidade organizativa e táticas de resistência urbana das classes subalternas.

O movimento operário pioneiro (1890-1920) consolidou a tradição de luta autônoma das classes trabalhadoras urbanas, estabelecendo organizações duradouras que influenciaram movimentos posteriores. O Primeiro Congresso Operário Brasileiro (1906) reuniu 43 delegados representando 28 sindicatos e estabeleceu princípios do sindicalismo revolucionário: “neutralidade sindical, federalismo, ação direta e greve geral”. A Confederação Operária Brasileira (COB), fundada em 1908, coordenava cerca de 50 sindicatos e organizou a Greve Geral de 1917, que mobilizou mais de 50.000 trabalhadores em São Paulo e criou o “Comitê de Defesa Proletária”. Apesar da intensa repressão – a Lei Adolpho Gordo (1907) deportou 130 trabalhadores só em 1907 e a repressão à Greve de 1917 causou pelo menos 200 mortes – o movimento operário demonstrou capacidade de desenvolver consciência de classe e formas organizativas sofisticadas.

As revoltas de ex-escravizados pós-Abolição evidenciam como a “liberdade” formal não se traduziu em integração social, provocando diversas formas de resistência à marginalização sistemática. Abandonados “à própria sorte” após 1888, os ex-escravizados desenvolveram redes de solidariedade urbana e rural e participaram ativamente de movimentos como Canudos e das primeiras organizações operárias quando conseguiam acesso ao trabalho industrial. Os Códigos Criminal do Império (1830) e Penal da República (1890) estabeleceram “institutos de criminalização de quem não tivesse documentos, emprego ou residência fixos”, criando dispositivos legais específicos para controlar e marginalizar a população negra. Esta criminalização da pobreza articulou-se com políticas de estímulo à imigração europeia e “queima das matrículas de escravos” para impedir reivindicações de reparação, consolidando o que se pode denominar “exército industrial de reserva racializado”.

As permanências estruturais entre o período republicano inicial e o Brasil contemporâneo revelam a persistência de mecanismos de dominação que se adaptaram às novas conjunturas sem perder sua eficácia excludente. A questão racial evoluiu do racismo científico (século XIX) para o racismo estrutural atual, mantendo a população negra nas camadas subalternas através de mecanismos institucionalizados. As políticas de branqueamento implementadas entre 1889-1930, com incentivo à imigração europeia e proibição da entrada de africanos, consolidaram padrões de exclusão que persistem na composição do judiciário, na violência policial diferencial e nas desigualdades educacionais contemporâneas. A Lei de Terras (1850), que estabeleceu que “ficam proibidas as aquisições de terras devolutas por outro título que não seja o de compra”, congelou a concentração fundiária no momento da transição capitalista, criando a matriz estrutural da desigualdade social brasileira que se mantém até hoje: apenas 0,7% das propriedades têm área superior a 2 mil hectares, mas ocupam quase 50% da zona rural brasileira.

O autoritarismo estatal contra movimentos populares estabeleceu continuidades diretas entre o período republicano e a atualidade, confirmando a síntese de Washington Luís: “questão social como caso de polícia”. A repressão sistemática a greves operárias, movimentos sociais rurais e manifestações culturais populares durante a Primeira República evoluiu para a militarização da segurança pública e violência policial estrutural contemporâneas. Os “degolas de opositores e estados de sítio” intensificados na década de 1920 se transformaram nos órgãos de repressão da ditadura militar (DOI-CODI) e nas práticas de violência policial atuais que fazem com que brasileiros temam tanto a polícia quanto a criminalidade. Nos conflitos rurais (1985-2018), 1.938 pessoas foram executadas com 92% dos casos sem julgamento, mantendo o padrão histórico de impunidade para violência contra “segmentos mais vulneráveis do campo” – trabalhadores rurais, quilombolas, indígenas.

A dependência externa consolidada na “americanização” do período Rio Branco (1902-1912) estabeleceu o alinhamento preferencial com os EUA que caracterizou historicamente a inserção brasileira no sistema mundial. O paradigma agroexportador (1822-1929) baseado em “tratados desiguais” e “reciprocidade fictícia que nivelava nações desiguais” evoluiu para a atual subordinação na divisão internacional do trabalho, onde o Brasil continua exportador de matérias-primas agropecuárias e minerais, importador de produtos industrializados. A Teoria da Dependência demonstra como essa “relação de subordinação entre nações formalmente independentes” se mantém através da “superexploração da força de trabalho” – única forma dos países periféricos gerarem excedentes para transferir aos países centrais. A atual reprimarização da economia brasileira confirma o “desenvolvimento do subdesenvolvimento”: mesmo processos de industrialização reforçam a subordinação estrutural.

Síntese final

A Proclamação da República brasileira representou fundamentalmente uma modernização conservadora que adaptou estruturas coloniais de dominação às exigências do capitalismo mundial em expansão, mantendo as classes subalternas em posição sistemática de exclusão política, econômica e social. A transição do trabalho escravo para o trabalho formalmente livre não rompeu com padrões históricos de super-exploração, mas criou novos mecanismos de controle social que criminalizaram a pobreza, marginalizaram a população negra através de políticas de branqueamento e estabeleceram a violência policial como instrumento central de gestão das tensões sociais. Este modelo excludente consolidou-se através da articulação entre oligarquias cafeeiras, que controlavam a produção agroexportadora, e um aparato estatal republicano que garantia tanto a manutenção da concentração fundiária quanto a repressão sistemática às tentativas de organização popular. A formulação clássica de Washington Luís – “questão social como caso de polícia” – sintetizou perfeitamente esta lógica autoritária que atravessou toda a Primeira República.

As experiências das classes subalternas no período 1889-1920 desmentem narrativas historiográficas que as apresentam como vítimas passivas ou massas manipuláveis, revelando intensa capacidade de organização, resistência e proposição de alternativas sociais. Os movimentos de Canudos e Contestado criaram sociedades alternativas baseadas em princípios coletivistas que anteciparam experiências socialistas posteriores, demonstrando como populações marginalizadas desenvolveram projetos políticos autônomos capazes de questionar tanto a propriedade privada quanto as hierarquias raciais e sociais dominantes. A Revolta da Vacina evidenciou a capacidade das classes populares urbanas de resistir a projetos modernizadores que desrespeitavam suas tradições culturais e formas de vida, enquanto o movimento operário pioneiro estabeleceu organizações duradouras que influenciaram gerações posteriores de trabalhadores. Estes movimentos compartilhavam características comuns: composição multirracial, lideranças populares, demandas materiais concretas, formas sofisticadas de organização e resistência à repressão estatal.

A agência histórica das classes subalternas manifestou-se através de múltiplas estratégias de sobrevivência e resistência que incluíam desde a criação de territórios autônomos (quilombos urbanos e rurais, comunidades messiânicas) até a participação em organizações operárias, greves, revoltas e movimentos culturais. A população negra recém-liberta desenvolveu redes de solidariedade que articulavam aspectos econômicos (ajuda mútua, cooperação produtiva), culturais (preservação de tradições afro-brasileiras) e políticos (participação em movimentos sociais), criando formas específicas de resistência à marginalização republicana. Os trabalhadores urbanos, muitos deles imigrantes europeus com experiência sindical prévia, transmitiram conhecimentos organizativos que permitiram a criação de sindicatos, federações e confederações operárias capazes de mobilizar dezenas de milhares de pessoas em greves gerais. Os camponeses e sertanejos pobres desenvolveram movimentos que combinavam elementos religiosos com demandas materiais concretas, criando comunidades alternativas que funcionavam como laboratórios de relações sociais igualitárias.

A repressão sistemática a todos estes movimentos revelou o caráter estruturalmente excludente da República brasileira, que utilizou força militar massiva para destruir experiências comunitárias alternativas, deportar lideranças operárias e criminalizar manifestações culturais populares. O massacre de Canudos – mais de 20 mil conselheiristas assassinados –  o emprego de metade do Exército contra os sertanejos do Contestado, as centenas de mortes durante a repressão às greves operárias e a deportação sistemática de militantes estrangeiros demonstram que as elites republicanas consideravam inaceitável qualquer forma de organização popular autônoma. Esta violência não foi episódica ou conjuntural, mas elemento central do projeto republicano que visava consolidar a hegemonia das oligarquias através da eliminação física ou marginalização total de grupos sociais considerados “perigosos”. A construção ideológica destas resistências como “fanatismo”, “banditismo” ou “ação de agitadores estrangeiros” serviu para legitimar a repressão e ocultar o conteúdo social e político dos movimentos populares.

As continuidades estruturais entre o período republicano inicial e o Brasil contemporâneo evidenciam que as transformações políticas de 1889 não romperam com as bases materiais da dominação de classe, mas as modernizaram e adaptaram às exigências da inserção subordinada do país no capitalismo mundial. A concentração fundiária estabelecida pela Lei de Terras de 1850 se mantém praticamente intacta 175 anos depois, com o mesmo padrão latifundiário agora denominado “agronegócio”, mas preservando idêntica lógica de exclusão do acesso à terra para as classes trabalhadoras rurais. O racismo científico do século XIX evoluiu para o racismo estrutural contemporâneo, mantendo a população negra nas posições mais precárias do mercado de trabalho e como alvo prioritário da violência policial. A dependência externa consolidada no alinhamento com os Estados Unidos se perpetua através da reprimarização da economia e da subordinação tecnológica e financeira aos países centrais.

O padrão autoritário de gestão da “questão social” estabelecido na Primeira República se reproduziu em todos os períodos posteriores da história brasileira, evidenciando que a violência estatal contra movimentos populares constitui elemento estruturante da formação nacional e não desvio conjuntural ou herança do “atraso” colonial. A militarização crescente da segurança pública, o tratamento da pobreza como caso de polícia, a criminalização de movimentos sociais e a impunidade sistemática para violências contra trabalhadores rurais, populações indígenas e quilombolas demonstram a atualidade da síntese de Washington Luís sobre a “questão social”. As forças repressivas criadas na Primeira República para controlar greves operárias e movimentos camponeses evoluíram para os aparatos de segurança contemporâneos que fazem do Brasil um dos países mais violentos do mundo, especialmente para jovens negros das periferias urbanas – herdeiros diretos dos ex-escravizados marginalizados pelo projeto republicano oligárquico.

A análise das experiências das classes subalternas no período da Proclamação da República revela que a construção de uma sociedade democrática no Brasil permanece como tarefa histórica inconclusa, exigindo não apenas reformas institucionais superficiais, mas transformações estruturais que rompam com os padrões de dominação estabelecidos há mais de um século. As resistências populares do período 1889-1920 legaram importantes lições sobre as possibilidades e limites da organização autônoma das classes trabalhadoras, demonstrando tanto sua capacidade criativa para propor alternativas sociais quanto a necessidade de articular lutas locais com projetos nacionais de transformação. A experiência histórica comprova que as classes subalternas brasileiras possuem rica tradição de luta e organização que desafia permanentemente os mecanismos de dominação, criando espaços de resistência e formulando projetos alternativos de sociedade que antecipam possibilidades futuras de construção nacional

A análise das experiências concretas de ex-escravizados, sertanejos, trabalhadores urbanos e imigrantes precarizados comprovou sua condição de sujeitos históricos ativos, capazes de desenvolver formas sofisticadas de organização, resistência e proposição de alternativas sociais. Os movimentos de Canudos, Contestado, Revolta da Vacina e organizações operárias pioneiras demonstraram que as classes subalternas não foram vítimas passivas, mas protagonistas de lutas que questionaram fundamentalmente o projeto republicano excludente.

As permanências estruturais identificadas entre o período 1889-1920 e o Brasil contemporâneo confirmam que a violência contra movimentos populares, a criminalização da pobreza, o racismo institucionalizado e a dependência externa constituem elementos estruturantes – não conjunturais – da formação nacional brasileira. Esta constatação sugere que a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática e igualitária no Brasil exige transformações estruturais que rompam com padrões de dominação centenários, inspirando-se nas experiências históricas de resistência e organização autônoma das classes trabalhadoras.

Erik Chiconelli Gomes é pós-Doutor pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Doutor e Mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). Bacharel e Licenciado em História (USP). Licenciado em Geografia (UnB). Bacharel em Ciências Sociais (USP) e em Direito (USP). Atualmente, é Coordenador Acadêmico e do Centro de Pesquisa e Estudos na Escola Superior de Advocacia (ESA/OABSP).

 

[1] FORTES, Alexandre. O processo histórico de formação da classe trabalhadora: algumas considerações. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 29, n. 59, p. 587-606, set./dez. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/eh/a/TV7Xv3xPMBGNr5FjDcbZQJD/. Acesso em: 16 set. 2025.

 

[2] DOMINGUES, José Luís; TOSCHI, Noberta Sueli; OLIVEIRA, João Ferreira de. Edward P. Thompson e a pesquisa em educação: a formação de professores em questão. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 98, n. 250, p. 533-548, set./dez. 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbeped/a/XsfD7gmTHXBGnycBhSppDHc/?lang=pt. Acesso em: 13 set. 2025.

[3] SILVA, Fabiana Rodrigues da. Associativismo operário, educação e autonomia na formação da classe trabalhadora em São Paulo (1889-1930). Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 42, n. 2, p. 351-368, abr./jun. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ep/a/GXMzcDwzmtSXjCdqryWM9rP/?lang=pt. Acesso em: 11 set. 2025.

 

[4] SEVCENKO, Nicolau. Estado, ciência e política na Primeira República: a desqualificação dos pobres. Estudos Avançados, São Paulo, v. 13, n. 35, p. 7-40, 1999. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/vfdbdpstqSj3P9gLWcFRs7g/. Acesso em: 19 set. 2025.

[5] ALVES, Sérgio Luís. O negro no contexto das novas estratégias do capital: desemprego, precarização e informalidade. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, n. 107, p. 475-491, jul./set. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sssoc/a/7RhQZbYhtnPcbTDZL5dYhNp/. Acesso em: 11 set. 2025.

 

[6] GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Cidadania e retóricas negras de inclusão social. Lua Nova, São Paulo, n. 85, p. 13-40, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ln/a/zK6Tm5Mr4LmdTCy7vsB6ZZH/. Acesso em: 22 set. 2025.

[7] LIMA, Ivana Stolze. Racismo, trabalho e ociosidade no processo de abolição: o Brasil e o Império Português numa perspectiva global (1870-1888). Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 38, n. 79, p. 177-198, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbh/a/BcBZ8KgTsqPZZr7vVmGDc6t/. Acesso em: 21 set. 2025.

[8] SILVA, Rafael Pereira da. Entre a Lei e a Anarquia: a trajetória de um representante das classes proletárias no Brasil do século XIX. Revista de Direito Público, Londrina, v. 14, n. 2, p. 88-115, ago. 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rdp/a/NhKkpqhkTgYp6GvHDpgGbnm/?lang=pt. Acesso em: 17 set. 2025.

[9] ALONSO, Angela. A modernidade republicana. Tempo, Niterói, v. 20, n. 36, p. 1-22, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tem/a/Cgs8nPJ3rJxMsWrBbLdPPDS/?lang=pt. Acesso em: 20 set. 2025.

[10] MÜLLER, Maria Lúcia Rodrigues; PAIXÃO, Lea Pinheiro. Formas de exclusão e de presença da população negra na história da escola sul-rio-grandense. Revista Brasileira de História da Educação, Maringá, v. 6, n. 1, p. 71-96, jan./jun. 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbhe/a/wfjfqJ4ZVLMK83dvqnMWBvD/. Acesso em: 18 set. 2025.

 

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